Amor que inclui: fé, neurodiversidade e o chamado da Igreja para o nosso tempo

Amor que inclui: fé, neurodiversidade e o chamado da Igreja para o nosso tempo

Por Davi Nogueira, durante o Encontro de Filiadas 2025

O cheiro do café passado cedo, ainda de madrugada, acompanha uma das memórias mais antigas de sua fé. Aos quatro ou cinco anos, era levado pelo avô todos os domingos para a missa das sete da manhã. Foi nesse ambiente, profundamente marcado pela tradição católica, que começou sua caminhada cristã — uma trajetória atravessada por encontros históricos, dores profundas e um chamado que hoje ecoa em todo o Brasil.

Entre essas memórias, está a convivência com a Dra. Zilda Arns, referência mundial na defesa da infância e da vida. Frequentadora da casa de sua avó, Zilda marcou não apenas a história do país, mas também a sua própria. Há, inclusive, uma fotografia guardada com carinho: ele, ainda criança, no colo daquela que se tornaria símbolo de cuidado, políticas públicas e compromisso cristão com os mais vulneráveis.

Anos depois, uma experiência traumática — um grave acidente que resultou em fratura na coluna — se tornaria um divisor de águas. Foi nesse momento de ruptura que ele descreve ter sido “quebrado por Deus” e profundamente convertido, passando a integrar a Igreja Presbiteriana do Brasil. O que parecia uma história pessoal de fé, no entanto, torna-se algo muito maior.

Família atípica, missão ampliada

Casado com Lidiane, pedagoga e hoje neuropsicopedagoga, ele é pai de Isabela e José. A história da família se entrelaça com a Irmandade Evangélica Betânia desde muito cedo, quando Isabela ainda bebê passou a estudar na Escola Aldeia Betânia. Dificuldades no parto, diagnósticos iniciais de TDAH e o acompanhamento terapêutico marcaram os primeiros anos.

A virada aconteceu durante a pandemia. José, então com quase dois anos, apresentou sinais claros de autismo. O diagnóstico clínico veio acompanhado de outro impacto: Isabela também estava no espectro. Pouco depois, o próprio pai recebeu o diagnóstico de TDAH e iniciou o processo de investigação de sua própria neurodivergência.

“Ali eu entendi que nossa vida nunca mais seria a mesma”, relata.

Os números apresentados pelos profissionais de saúde foram alarmantes:

  • até 70% de divórcio entre casais que recebem o diagnóstico de uma criança autista;

  • risco oito vezes maior de suicídio entre adolescentes autistas;

  • quase 90% sofrendo bullying de forma recorrente;

  • famílias adoecidas por estresse crônico.

Diante disso, o médico foi direto e apresentou as alternativas: negar, terceirizar ou assumir a luta. A escolha foi clara.

Da vivência pessoal ao compromisso público

A partir da experiência familiar, o ministério pastoral, os estudos e a própria compreensão de igreja passaram por uma profunda ressignificação. A família iniciou um caminho de formação em neurociência e educação, ao mesmo tempo em que começou a percorrer o Brasil falando sobre o acolhimento de famílias atípicas nas igrejas.

O tema, ainda pouco debatido nos espaços religiosos, tornou-se urgente. Dados recentes apontam que o Brasil já soma 2,4 milhões de pessoas autistas, com um crescimento expressivo nos diagnósticos: hoje, estima-se 1 criança autista a cada 38, segundo dados nacionais, enquanto estatísticas internacionais apontam para 1 a cada 31.

Isso significa que, estatisticamente, praticamente todas as igrejas têm neurodivergentes em seu meio — ainda que muitas vezes invisibilizadas.

Inclusão: da história da exclusão ao desafio do presente

A fala também resgata a trajetória histórica da inclusão, desde o período da exclusão e eliminação na Antiguidade, passando pela segregação institucional, pela aceitação no século XX e chegando, apenas nas últimas décadas, ao conceito de inclusão, quando a sociedade passa a se adaptar às pessoas — e não o contrário.

No centro dessa mudança está a educação inclusiva, fundamentada nos quatro pilares propostos pela UNESCO:

  • Aprender a conhecer,

  • Aprender a fazer,

  • Aprender a conviver,

  • Aprender a ser.

Para o Transtorno do Espectro Autista, esses pilares são decisivos. O autismo, reforça ele, não é uma doença, mas uma condição neurológica de origem majoritariamente genética, caracterizada por prejuízos na interação social, na comunicação e em comportamentos restritos e repetitivos — a chamada tríade do autismo.

Igreja, teologia e inclusão

É nesse ponto que a reflexão ganha densidade teológica. Para ele, a inclusão não é uma pauta externa imposta à Igreja, mas algo que está no DNA do Evangelho.

A encarnação é apresentada como o maior ato inclusivo da história: Deus se faz humano para incluir a humanidade em si. A justificação, como um processo de “ajuste”, e a missão da Igreja, como expressão dessa inclusão, apontam para uma teologia da inclusão que precisa ser pensada, escrita e vivida hoje.

“A Igreja sempre foi inclusiva por natureza. O que estamos fazendo agora é dar nome e consciência a isso.”

Essa compreensão tem levado igrejas a se organizarem como redes de apoio comunitário, acolhendo famílias atípicas independentemente de vínculo institucional, dialogando com políticas públicas e ocupando um espaço que muitas vezes o Estado não consegue alcançar sozinho.

Um amor que molda, move e motiva

A reflexão final parte do Evangelho de João: “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim”. Um amor que não se limita ao tempo, mas aponta para propósito, entrega e sacrifício.

É esse amor que molda a missão, move a Igreja em direção às pessoas e motiva o engajamento em causas que dão voz aos que historicamente não foram ouvidos — idosos, pessoas com deficiência, famílias atípicas.

O testemunho, mais do que uma fala, tornou-se um chamado coletivo. Um convite para que redes como a RENAS sigam fortalecendo conexões, incidindo em políticas públicas e reafirmando que inclusão não é um projeto opcional, mas expressão concreta do Reino de Deus.

“A mesa é uma só. Somos muitos, diferentes, mas todos moldados pela cruz.”

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