Por um Natal diferente

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Papai Noel se repete todo ano. Sempre de novo o “bom velhinho” desperta os sentimentos humanitários de ocasião e uma solidariedade eventual. Melhor que nada. Mas não arranca ninguém do consumismo individualista na ceia farta em família. Acaba alegrando mais o comerciante que a criança.

Natal, embora celebrado em dezembro, é permanente, como dádiva e oportunidade. Dádiva inalienável de reconciliação com Deus, o próximo e a natureza por meio do menino na estrebaria que acabou crucificado e ressurgiu. Oportunidade imensurável de servir a esse Deus no próximo, por meio da luta persistente por dignidade e direitos.

Somente desse Deus vêm bênçãos reais: “Servireis ao Senhor, vosso Deus, e ele abençoará vosso pão e vossa água e tirará vossas enfermidades” (Êxodo 23.25). Essa certeza norteia o engajamento em favor da segurança e soberania alimentar e nutricional. Alimento saudável é ao mesmo tempo dádiva de Deus e conquista.

A “abundância de trigo na terra” e a “erva verdejante nas cidades” (Salmo 72.16) decorrem da dedicação da colheita toda a Deus por meio da oferta das primícias (cf. Provérbios 3.9s). Contudo, na fartura a pessoa também pode tornar-se soberba e negar a Deus (Provérbios 30.9; Lucas 12.16ss). Para o profeta a “iniquidade de Sodoma” era que “nunca fortaleceram a mão do pobre e necessitado” (Ezequiel 16.49), e a justiça alegada por Jó foi que ele se fez olhos para o cego e pés para o coxo e não comeu sozinho seu bocado, mas o partilhou com o órfão (Jó 29.15 e 31.18). Porque “o justo toma conhecimento da causa dos pobres”, mas o ímpio não lhe dá atenção, e porque a corrupção se alastra quando falta o testemunho profético (Provérbios 29.7 e 18). Será que o povo cristão se dá conta disso? Até mesmo nas organizações evangélicas de ação social existe o perigo da omissão política e de não empoderarmos os fragilizados para o protagonismo.

No Novo Testamento, desde a instrução de João Batista para repartir o pão com o necessitado (Lucas 3.11) até a partilha dos bens na primeira comunidade (Atos 2.46), quando rendido ao Deus misericordioso, o alimento deixa de ser mercadoria e torna-se elemento central na concretização de novas relações humanas. Na caminhada da segurança alimentar contribuímos para a criação de políticas públicas estruturantes que favorecem a organização social e o protagonismo dos beneficiários, como o Programa de Aquisição de Alimentos, o Programa Nacional de Alimentação Escolar, a Agricultura Urbana e Periurbana, os bancos de sementes crioulas, a universalização das cisternas no semiárido, a luta contra agrotóxicos e transgênicos e a construção da política nacional de produção orgânica e agroecológica.

Isso, sim, traz para muitos um Natal qualitativamente diferente, pelo qual rendemos glórias a Deus.

• Werner Fuchs é pastor da Igreja Evangélica Luterana no Brasil (IECLB) e conselheiro-suplente da RENAS no CONSEA (Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional).

 

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