Minha experiência em um encontro inter-religioso

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Foi uma grata surpresa no ano passado (2012) encontrar um cenário muito favorável à participação da RENAS e da Aliança Evangélica para discutir a relação entre Sociedade e Estado com lideranças de grandes organizações religiosas. As conclusões apontaram que 99% das dificuldades da relação de entidades religiosas com relação ao Estado são comuns a todas as religiões.

A partir deste primeiro encontro foi formada uma coordenação e adotado o nome de Coletivo Inter-Religioso (para discussão da relação Sociedade–Estado) para encaminhar as demandas comuns.

Neste ano, o encontro1 foi novamente em Brasília (DF) e, após receber o convite, buscamos quem poderia participar em nome de nossas organizações. Surgiram os nomes do Valdir Steuernagel (pela Aliança Evangélica) e de Welinton Pereira e eu, Gerhard Fuchs (pela RENAS). Em última hora soube que o Valdir não poderia ir e que eu deveria representá-lo na mesa de abertura. Buscando saber o que se faz numa mesa de abertura concluí que haveria espaço para uma palavra de apresentação, mas nada vinha à minha mente.

Bem, marquei a passagem e o hotel e a previsão era que o voo sairia de Curitiba (PR) e chegaria em Brasília às 9h10. O evento estava marcado para 9h30 e avisei o Welinton sobre o risco do atraso.

No dia marcado o voo foi normal e o avião pousou antes do previsto (às 8h50). Pensei que chegaria a tempo ao evento, mas para minha surpresa ficamos 15 minutos esperando liberar um lugar para o avião e todo desembarque foi complicado por causa das reformas no aeroporto. Resumindo, não consegui chegar a tempo para compor a mesa de abertura. Cheguei no evento por volta das 10 horas, mas a tempo de ouvir a boa palavra do Welinton no evento, representando os evangélicos. Parece que Deus já sabia disso e não havia me dado palavras para este momento. Havia um vazio notável em minha mente. No entanto, ficou o sentimento de que deveria explicar ao grupo o que são os evangélicos.

Fisicamente debilitado por causa da viagem, encontrei dificuldades para ter um bom desempenho no primeiro dia. Por outro lado, a qualidade dos contatos é impressionante e as oportunidades iriam surgir no dia seguinte.

Ouvimos os relatórios dos trabalhos mostrando pouco progresso, e logo depois ouvimos a Sra. Denise Colin, secretária executiva do MDS (Ministério de Desenvolvimento Social) e que é de Curitiba e vai para a cidade todo final de semana. Ela esteve no encontro nacional da RENAS em Brasília em 2011 e consegui seus dados de contato para uma agenda.

A palavra do teólogo Rudolf von Simmer (CLAI) sobre Teologia Pública foi fascinante. Ele já publicou vários livros sobre o assunto pela Editora ISAEC. Valeu a pena ouvi-lo.

Fundos solidários
Na manhã seguinte fiquei no grupo de discussão sobre “Fundos Solidários”. Além do assunto ser pertinente ao Fundo Cristão de Investimentos Estratégicos (FCI), que criamos em Curitiba, tive contato com o Ademar Bertucci, da Cáritas Brasileiras, com o Daniel Rech, do CAIS (Centro de Assessoria e Apoio às Atividades Sociais), Malte Reshoft, da MISEREOR (Obra episcopal da Igreja Católica da Alemanha para a cooperação ao desenvolvimento), Eliana da Rolemberg, da CESE (Coordenadoria Ecumênica de Serviço), Vera da ABONG (Associação Brasileira de ONG´s) etc. A discussão mostrou que os evangélicos estão atrasados na discussão sobre os fundos solidários, que para eles já dura 10 anos. Chegar atrasado pode ser desvantagem, mas permite também não precisar desenvolver o que já foi desenvolvido pelos outros. Assimilar conceitos e práticas que deram certo nos faz ganhar tempo. Percebo que teremos aliados em várias causas importantes.

Há no cenário atual dois tipos de fundos solidários:
1) Os que recebem, administram e distribuem doações e recursos;
2) E os formados pelos participantes da economia solidária, para ajuda mútua.

Foram distribuídos vários materiais já publicados sobre o assunto.

E veio a palavra…
Sinto que paira no ar a pergunta: “quem são os evangélicos?”. No momento das apresentações dos relatórios dos grupos, um advogado começou a interferir nos trabalhos. Em conversa particular revelou-se judeu praticante, daqueles que levam o filho adolescente para fazer a cerimônia do “Bar Mitzvá” no muro de lamentações em Jerusalém. Em determinado momento, ele relatou que traficantes em uma favela no Rio de Janeiro teriam tido atitudes de favorecimento às igrejas evangélicas e hostilidade e intolerância em relação a uma mãe-de-santo naquela localidade. A sua intervenção me fez perceber que eu deveria me preparar para falar. A oportunidade veio à tarde.

Após preparar o documento a ser apresentado ao ministro da Secretaria Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, e ao senador Rodrigo Rollenberg2 (PSB/DF) na reunião seguinte, o padre Geraldo Martins, que estava dirigindo a reunião, perguntou se alguém queria usar o microfone, enquanto uma equipe preparava a revisão final do orçamento. Era a deixa que eu precisava. Havia sentado na primeira fila e pedi para falar. Então, de posse do microfone, usei o tempo para explicar em poucas palavras o perfil atual dos evangélicos no Brasil, usando alguns dados do IBGE, que aponta que dos 42 milhões de evangélicos no Brasil, cerca de 10 milhões são tradicionais, vindo da Reforma, com doutrinas bem fundamentadas e práticas consistentes. Então, no início do século passado surgiram os pentecostais, dando ênfase à pessoa e obra do Espírito Santo. Na segunda metade do século passado surgiram os neopentecostais que trouxeram posicionamentos mais “agressivos” e menos tolerantes em vários aspectos. O IBGE indica 22 milhões de seguidores deste grupo de evangélicos. A soma dos dois grupos totaliza 32 milhões. Então além destes há cerca de 10 milhões de evangélicos compondo uma miríade de praticas e nomes diferentes. São grupos pequenos, igrejas nas casas, comunidades independentes, cristãos nominais, etc. O IBGE aponta um crescimento consistente deste grupo, considerado uma geração pós-denominacional e que era contado em cerca de 1,7 milhões de pessoas no ano 2000 e passou a contar com cerca de 10 milhões em 2013.

Depois falei da RENAS e da Aliança Evangélica, afirmando, entre outras coisas, que encontram-se ali pessoas que compreenderam que a missão que Jesus nos deixou vai muito além de fazer cultos e pedir dinheiro, pois, a rigor, o mestre não enfatizou estas práticas.

Quando comecei a falar fiquei admirado e, até certo ponto assustado, com o comportamento dos ouvintes: atenção redobrada e aplausos no final. De alguma forma, entendi que aquele foi o “kairós” de Deus, era a palavra que Ele queria que eu falasse. Era o momento certo. Se na abertura eu não tivera palavras, agora as palavras fluíram como um rio. A palavra certa no momento certo. Ore para que, de fato, gerem frutos.

____________
Gerhard Fuchs faz parte do Grupo Coordenador da RENAS.


Notas:

1. O 2º Seminário Nacional “Relação Estado e Sociedade”, com o tema “O marco regulatório e a atuação social das organizações religiosas”, ocorreu de 30 de setembro a 01 de outubro deste ano, e foi organizado pelo Coletivo Inter-Religios, criado na primeira edição do seminário, organizado pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). O Coletivo reúne 26 organizações religiosas.
O primeiro seminário, realizado em novembro de 2012 também em Brasília, resultou em 14 propostas que visam favorecer o diálogo entre a sociedade e o Estado. Ao final do evento, uma carta foi entregue ao ministro Gilberto Carvalho.

2. Rodrigo Rollenberg é o relator do PLS 649/2011, que estabelece o regime de parcerias entre a Administração Pública e as entidades privadas sem fins lucrativos.

 

2 respostas para Minha experiência em um encontro inter-religioso

  1. ELAINE MEDEIROS disse:

    Querido Irmão Gerhard Fuchs,
    Louvado e exaltado seja o nome do nosso Deus pela sua vida.
    A rica oportunidade que você teve expressar o que verdadeiramente somos como seguidores de Cristo foi extraordinária.
    Continuaremos orando, sabendo que, jamais a palavra que o Senhor coloca nos lábios de seus servos voltará vazia.
    Deus continua te usando e te abençoando e criando espaços como esse para nós demonstrarmos Vida no Cristo e Cristo na Vida.

  2. […] Nos abrimos para o diálogo de políticas públicas. Participamos, com outras organizações, do Coletivo Inter-religioso, discutindo a relação com o Estado. Nossas filiadas estão em vários conselhos municipais e […]

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