Somos todos necessários

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Rahel Vitor Lehenbauer

Em geral, associamos a acessibilidade diretamente à dificuldade de locomoção. No entanto, os deficientes físicos representam apenas um quarto dos 24 milhões de pessoas com alguma deficiência no Brasil. Facilmente, esquecemos que 16% desse número possuem alguma deficiência mental, 8% são deficientes auditivos e 48%, a esmagadora maioria, são deficientes visuais, segundo o último censo (2000). E o que temos feito para facilitar o acesso de todas essas pessoas em nossas comunidades, templos e eventos?

O que impede você de entrar na igreja?
Esta é uma pergunta simples. E não estou pretendendo filosofar sobre a vida ou as mais variadas situações, como as que deixam alguns de nós com vontade de dormir aos domingos ao invés de sair da cama para ir ao culto. Se deixarmos isso de lado e considerarmos apenas as barreiras físicas, talvez uma grande parte de nós responda que somente uma porta fechada e trancada nos impede de entrar na igreja.

No entanto, existe um número relativamente desconhecido de pessoas que enfrentam as mais variadas dificuldades para se deslocar até uma igreja, entrar no templo, se acomodar, participar de determinados momentos do culto e, até mesmo, sair da cama.

Falo que o número é relativamente desconhecido, pois alguns dizem que não vale a pena construir rampas de acesso e ficar reservando lugares especiais, por não existirem deficientes na comunidade ou entre os visitantes. Esse era o mesmo argumento usado por prefeitos, em diversas cidades brasileiras, até que as primeiras medidas de acessibilidade começaram a ser tomadas, e então aqueles que antes ficavam isolados em casa começaram a aparecer nas ruas, utilizar o transporte público e ocupar os mais variados espaços da cidade.

Recentemente, enquanto visitava minha família em Porto Alegre, RS, observei a instalação de um elevador externo na Comunidade Concórdia. Um exemplo positivo e muito louvável que agora permite que pessoas com alguma deficiência física ou com mobilidade reduzida – que é o caso de muitos idosos – possam se aproximar e entrar na igreja, cujo acesso, a contar da rua ou do estacionamento, é precedido por mais de 15 degraus.

Mas nem sempre são tão numerosos os degraus que impedem a pessoa de acessar um determinado ambiente. Muitas vezes, bastam aqueles três níveis de acesso ao altar para impedir, ou dificultar, a aproximação e mesmo a participação na Santa Ceia, por exemplo, entre outros momentos.

Algumas comunidades constroem rampas para chegar do pátio até o templo, mas se esquecem do desnível para entrar no pátio, ou ainda da rua para a calçada. Outras, sequer reservam um espaço para os cadeirantes dentro do templo e quando reservam – como muitos cinemas – colocam nas áreas que ninguém gosta de ocupar. Outro problema que vejo, como arquiteto, é que a grande maioria das igrejas desconhece as normas sobre o assunto, como a “NBR 9050” ou as leis do Desenho Universal, e apesar da boa vontade e cuidado, acabam utilizando inclinações e larguras inadequadas em rampas, portas estreitas demais, pias e diversos outros equipamentos em alturas fora de padrão, até as Bíblias ficam de alguma forma inacessíveis.

Acima das “leis da física” há uma barreira de atitude
Uma de minhas ex-colegas de mestrado, aqui em Florianópolis, SC, é cadeirante. Em diversos momentos, ela comentava no grupo algumas de suas dificuldades e uma das que mais me chamou a atenção foi o “efeito da invisibilidade”. Muito diferente dos superpoderes de alguns heróis dos quadrinhos, ser invisível, nesse caso, é um fator de distanciamento social.

“O fato é que as partes do corpo que parecem mais fracas são as mais necessárias” (1 Coríntios 12.22-23a). Quando o apóstolo Paulo falou do corpo de Cristo, parece que tinha uma mensagem especial também para essa nação de pessoas – 24 milhões, equivalente a duas vezes a população de Portugal: eles são necessários, são importantes. “Desse modo não existe divisão no corpo, mas todas as suas partes têm o mesmo interesse umas pelas outras” (1 Coríntios 12.25).

Todos somos desiguais, diferentes, portadores de algumas deficiências, algumas mais visíveis do que outras. Somos todos necessários uns para os outros. Precisamos, eliminar as barreiras que impedem nossa aproximação, começando por demonstrar mais interesse entre nós, com uma atenção especial aos que se sentem invisíveis, na sociedade, por causa de uma deficiência mais aparente que as nossas.

Muito além das rampas, espaços adequados, equipamentos variados, possivelmente antes dessas barreiras físicas, precisamos eliminar a barreira de atitude.

Desde cedo, cultivamos em nossas crianças a cultura do “não olhe, não pergunte, não incomode”.

Uma criança inocentemente curiosa quando observa um deficiente acaba olhando, encarando, perguntando, e, às vezes, até puxando conversa com ele. A tendência de muitos pais é não permitir essa aproximação para “não incomodar” a pessoa. Talvez algumas de nossas barreiras como adultos começem numa infância que incorpore essa postura de “não incomodar”.

Recebendo o deficiente na casa de Deus
Quando começarmos a demonstrar mais interesse pelas mais variadas pessoas e suas deficiências, possivelmente vamos perceber melhor suas limitações físicas também.

Na igreja, é importante observar as mais variadas barreiras, desde o local do estacionamento até as acomodações do interior do templo:

* reserve um ou mais locais especiais para os carros, de preferência, próximos à entrada da igreja;
* observe os desníveis, desde aquelas falhas no piso, que podem causar tropeços, até os degraus que precisarão de rampas;
* em alguns templos, as rampas dão acesso a portas que, por algum motivo, ficam fechadas durante o culto;
* muitas vezes, os obstáculos se projetam sobre uma parte da circulação, como enfeites de casamento nas laterais dos bancos. Os cegos podem acabar se ferindo ou se assustando. Um piso tátil poderia também resolver este problema, indicando o caminho seguro;
* é importante que degraus variem entre 16 e 18 centímetros de altura (adequando-se à fórmula de Blondel). Dimensões muito irregulares acabam dificultando a vida do cego;
* reserve locais adequados para cada deficiente participar de forma plena do culto;
* procure preparar os sanitários às pessoas com mobilidade reduzida, cadeirantes e mesmo os anões;
* lembre-se que algumas sinalizações são diferentes para cegos (elementos sonoros e táteis) e surdos (elementos visuais e dinâmicos, como luzes nos acessos de garagens ou alarmes vibratórios, de acordo com a “NBR 15599-2008”);
* nunca deixe as portas entreabertas, pois para os cegos elas podem ser um perigo. Elas devem ficar totalmente abertas ou fechadas;
* elabore um mapa tátil de sua igreja para os cegos;
* conheça as normas, leis ou decretos (como o “Decreto-Lei 5296-2004”) e regulamentações brasileiras, e as mais específicas do seu município, antes de construir ou adequar o templo;
* contrate ou consulte um profissional da área para projetar as mudanças e adequações ao Desenho Universal.

“Todos somos desiguais, diferentes, portadores de algumas deficiências, algumas mais visíveis do que outras. Somos todos necessários uns para os outros. Precisamos eliminar as barreiras que impedem nossa aproximação, começando por demonstrar mais interesse entre nós, com uma atenção especial aos que se sentem invisíveis, na sociedade, por causa de uma deficiência mais aparente que as nossas. Antes de providenciarmos as rampas, espaços e equipamentos adequados, precisamos eliminar a barreira de atitude.”

Quem tem ouvidos para ouvir… faça alguma coisa
Poucas deficiências causam tanto isolamento quanto a auditiva. Talvez porque seja menos perceptível, já que o surdo não se atrapalha com os obstáculos de percurso dos cegos e dos deficientes físicos.

A percepção do mundo e dos acontecimentos é bastante diferente para um surdo. Pense em quantas coisas você percebe à sua volta por causa do som: a chuva, por exemplo, ou então um acontecimento especial, no culto, em que o som alerta a chegada de alguém ou o começo de uma peça; o louvor na forma de música; as leituras bíblicas e suas variadas entonações. Enfim, para o surdo, a imagem e o tato o conectam de uma forma que os ouvintes não compreendem.

Me ocorre como é importante incentivar pessoas da congregação a estudar a Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS), de forma que pelo menos alguns estejam preparados para uma comunicação mais efetiva.

Interesse de todos
Algumas igrejas já estão adaptadas ou começando a adequar a parte física, mas ainda precisam melhorar o aspecto humano. Talvez outras recém começaram a despertar para esse tema (já estão mais preparados para receber bem cegos, surdos, deficientes físicos), mas precisam adaptar agora o templo para essas pessoas.

Como arquiteto, tenho curiosidade em saber como as nossas congregações têm enfrentado as mais diversas situações e como têm adaptado o templo, bem como as mais variadas iniciativas que vão ao encontro dessas pessoas e suas dificuldades.

De qualquer forma, se as questões relacionadas com acessibilidade parecem ainda um tema recente e novo para muitos, para 24 milhões de brasileiros a dificuldade de acesso é quase o tema de suas vidas. A acessibilidade torna-se então um assunto para a vida de todos nós na Igreja, afinal, somos todos necessários.


Rahel é arquiteto, reside em Florianópolis, SC. rahel@lehenbauer.arq.br

Fonte: Revista Mensageiro Luterano

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