Trechos do livro O Escândalo do Comportamento Evangélico

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A VISÃO BÍBLICA: Se alguém permanecer em mim e eu nele, esse dará muito fruto.

JOÃO 15.5: Vocês foram libertados do pecado e tornaram-se escravos da justiça.

ROMANOS 6.18: Todo aquele que é nascido de Deus não pratica o pecado.

1 JOÃO 3.9:O CONTRASTE entre o comportamento cristão contemporâneo e o ensino e a prática do Novo Testamento é absoluto. A extensão de nosso escandaloso fracasso hoje se torna clara quando nos lembramos daquilo que Jesus esperava e que os cristãos primitivos experimentaram. Jesus fez um chamado à obediência sacrifical e ao discipulado radical. Salvo alguns fracassos retumbantes, os cristãos primitivos viveram estilos de vida profundamente transformados. A ótima qualidade de suas vidas atraía as pessoas a Cristo. Hoje nossa hipocrisia quase sempre as afasta dele.
Neste capítulo faremos uma rápida jornada através do Novo Testamento. O que Jesus disse sobre como seriam os seus discípulos? O que o Novo Testamento diz sobre o que pensavam e como viviam os primeiros cristãos?

[…]

1 JOÃO: Talvez nenhum outro escrito do Novo Testamento consiga unir tão bem ortodoxia e ortopraxia — teologia correta com ação correta. Qualquer um que negue que Jesus é Deus encarnado é herege, e qualquer um que afirme amar a Deus, mas se recuse a amar seu irmão ou irmã não conhece a Deus (2.22-23; 3.17).
Qual o propósito da carta de João a seus “filhinhos” em Cristo? A resposta é simples: “Para que vocês não pequem” (2.1).
Ele insiste claramente que os cristãos genuínos não continuem a pecar. Todo aquele que aceita a Cristo é nascido de Deus e “todo aquele que é nascido de Deus não pratica o pecado, porque a semente de Deus permanece nele; ele não pode estar no pecado, porque é nascido de Deus” (3.9). E novamente: “Todo aquele que nele permanece não está no pecado. Todo aquele que está no pecado não o viu nem o conheceu” (3.6). Igualmente evidenciada é a declaração anterior de João: “Se afirmarmos que temos comunhão com ele, mas andamos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade” (1.6).
Ao mesmo tempo, João é igualmente claro acerca do fato de que os cristãos não são perfeitos: “Se afirmarmos que estamos sem pecado, enganamos a nós mesmos, e a verdade não está em nós” (1.8, 10). Se virmos um irmão ou irmã cometendo pecado, devemos orar por eles a fim de que o seu pecado não seja para morte (5.16-17). Nossa melhor resposta ao pecado é a confissão. Deus, por sua vez, perdoa e purifica. Poucos textos bíblicos são mais maravilhosos que esta promessa: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para perdoar os nossos pecados e nos purificar de toda injustiça” (1.9, ênfase acrescentada). Deus faz mais que nos conceder perdão. Ele nos purifica, nos limpa do pecado.
Portanto, podemos dizer quem é cristão observando suas ações:
Sabemos que o conhecemos [Jesus], se obedecemos aos seus mandamentos. Aquele que diz: “Eu o conheço”, mas não obedece aos seus mandamentos, é mentiroso, e a verdade não está nele. Mas, se alguém obedece à sua palavra, nele verdadeiramente o amor de Deus está aperfeiçoado. Desta forma sabemos que estamos nele: aquele que afirma que permanece nele, deve andar como ele andou.

1 João 2.3-6

Mais adiante, ele escreve: “Desta forma sabemos quem são os filhos de Deus e quem são os filhos do Diabo: quem não pratica a justiça não procede de Deus, tampouco quem não ama seu irmão” (3.10).
Como é de se esperar, João insiste que os cristãos genuínos amem de maneira prática. Se virmos um irmão ou irmã passando necessidade e não os ajudarmos, o amor de Deus não estará em nós (3.17). Uma vez que Cristo é o nosso modelo, devemos amar não de palavra nem de boca, “mas em ação e em verdade” (3.18). O amor a Deus, o amor ao próximo e a obediência a Deus estão inseparavelmente interligados: “Assim sabemos que amamos os filhos de Deus: amando a Deus e obedecendo aos seus mandamentos” (5.2).
Não sei se João ficaria mais desconcertado ou irado diante do comportamento escandaloso dos cristãos evangélicos de hoje. Provavelmente ele só chorasse. Nós alardeamos com orgulho nossa doutrina ortodoxa sobre Cristo como verdadeiro Deus e verdadeiro homem, e desobedecemos aos seus ensinamentos. Nós nos divorciamos, embora isso seja contrário aos seus mandamentos. Temos posses e sabemos que milhões de irmãos em Cristo vivem em pobreza absoluta; ofertamos uma ninharia, sendo que grande parte dela vai para a nossa igreja local. Apenas uma pequena fração daquilo que doamos alcança os cristãos pobres em outros lugares. Cristo morreu para formar um novo corpo de cristãos, multicultural; no entanto, demonstramos mais racismo que os cristãos liberais que negam sua deidade.
Nossos esforços evangelísticos são quase sempre comprometidos por nosso comportamento. Tanto em Atos 2 quanto em Atos 6, fica claro que ações amorosas, fruto da obediência dos primeiros cristãos, atraíam pessoas a Cristo. Era assim também durante os primeiros séculos da fé cristã. Muitos documentos daqueles anos demonstram que o comportamento dos cristãos era diferenciado. Em meados do segundo século, Justino Mártir escreveu sobre os cristãos:
Aqueles que antes se deliciavam em fornicações agora abraçam a castidade somente; […] nós que antes tínhamos prazer no acúmulo de riquezas e de propriedades agora […] compartilhamos o que temos com todos os necessitados; nós que odiávamos e matávamos uns aos outros e não nos associávamos a homens de diferentes tribos por causa de seus costumes estranhos agora, desde o advento de Cristo, vivemos com eles em família e oramos por nossos inimigos.
Por volta do ano 125 d.C., Aristides descreveu os cristãos com as seguintes palavras:
Eles caminham em humildade e em bondade, e a falsidade não está no meio deles, e eles amam uns aos outros. Eles não desprezam a viúva, nem afligem o órfão. Quem tem reparte liberalmente com quem não tem. Se vêem um estrangeiro, o abrigam em sua casa e se alegram com ele, como se fosse um irmão: pois se autodenominam irmãos, não segundo a carne, mas segundo o espírito e Deus; quando um de seus pobres parte deste mundo e qualquer um deles é informado sobre o ocorrido, ele providencia o enterro conforme sua possibilidade; se ouvem que qualquer um deles foi preso ou oprimido em nome de seu Messias, todos suprem suas necessidades, e, se é possível libertá-lo, eles assim o fazem. Se há entre eles um homem pobre e necessitado, e eles não têm recursos para ajudá-lo, eles jejuam por dois ou três dias a fim de suprir o necessitado com o alimento necessário.
Em ambos os documentos, o cuidado e a partilha de bens e de recursos com os pobres são profundamente marcantes. Por volta do ano 250 d.C., a igreja em Roma sustentava 1.500 pessoas necessitadas. Os de fora ficavam impressionados com o amor que viam na comunidade cristã. Tertuliano (155-220) registrou que até mesmo os inimigos do cristianismo consideravam o amor mútuo entre os cristãos como sua “marca”: “Nosso cuidado para com os abandonados e nosso amor ativo se tornaram uma marca diante do inimigo. […] Eles dizem: ‘Vejam como se amam e como estão prontos para morrer um pelo outro’”.
Talvez o comentário mais notável sobre o caráter contracultural do comportamento cristão venha de uma citação invejosa, feita por um imperador pagão. Durante seu curto reinado (361-363), Juliano, o Apóstata tentou encerrar décadas de tolerância e aniquilar o cristianismo. No entanto, ele foi forçado a admitir a um companheiro pagão: “Os galileus desalmados [cristãos] não só alimentam os seus pobres, como também os nossos”. Com vergonha, reconheceu que seus companheiros pagãos nem sequer ajudavam uns aos outros: “Os que pertencem a nós procuram em vão pela ajuda que deveríamos prestar a eles”.
Vemos o grande contraste entre aquilo que Jesus e a igreja primitiva diziam e faziam e aquilo que muitos evangélicos fazem hoje. Que esse contraste nos faça cair de joelhos, primeiro em arrependimento e, então, peçamos a Deus que nos ajude a compreender as causas desse escandaloso fracasso e distinguir os passos que podemos dar para corrigi-lo.


Ronald Sider, em O Escândalo do Comportamento Evangélico

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