O evangelho integral do reino

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Por Bryant Myers

Tradução: José Gabriel Said

De vez em quando é bom perguntar: O que é o Evangelho? Claro que não precisamos fazer essa pergunta como quem tem dúvida – o Evangelho não muda. Mas o problema é que nós mudamos e com o tempo pode mudar também a nossa maneira de entendermos a Bíblia. Talvez por isso Jesus vivia a nos lembrar que temos um problema de vista e de ouvido. Então acho que vale a pena perguntar: o que entendemos por Evangelho?

Quem acredita no quê?

Para muitos, a resposta chega bem rápida: Evangelho significa perdão de pecados, a vinda, a morte e a ressurreição de Jesus Cristo para que tenham vida eterna os que disseram "sim" à proposta dele.

Para outros, ligados às tradições principais, a resposta é: Jesus e seu reino. Menos interessados na historicidade de Cristo, esses irmãos costumam dizer que Jesus veio estabelecer um tipo diferente de ordem social caracterizada por justiça, paz e reconciliação.

Existem também os da tradição pentecostal e carismática. Para estes a resposta é ainda mais diferente: Jesus veio para que conhecêssemos Cristo e seu poder em nossa vida cotidiana. Não precisamos mais ser escravos de nossos temores, de nossos vícios, de nosso íntimo sofrimento.

Qual o problema?

Ron Sider insiste em afirmar que, se realmente desejamos uma compreensão bíblica do Evangelho, nossa definição precisa refletir o tipo de coisas que Jesus tinha em vista quando falava acerca do Evangelho. Ron observa que "Jesus, praticamente todas as vezes em que falou do Evangelho, também referiu-se ao Reino de Deus."

O Reino de Deus foi o assunto do primeiro sermão de Cristo (Marcos 1:14) a única coisa que Jesus chamava de evangelho (Mateus 4:23) e o tema por ele enfocado quando ministrou aos seus discípulos nos seus últimos quarenta dias sobre a Terra (Atos 1:3).

Jesus dizia que no Reino reside a chave da compreensão de seu ensinamento (Lucas 8:10). No Sermão da Montanha, ele afirma que o Reino de Deus é a primeira coisa que deveríamos procurar, e que tudo mais viria na seqüência (Mateus 6:33). A vinda do Reino é a primeira súplica a ser feita na prece que ele nos ensinou (Mateus 6:10).
Lucas fecha o livro de Atos nos dizendo que "Paulo, ousadamente e sem empecilho, pregou o Reino de Deus e ensinou acerca do Senhor Jesus Cristo (Atos 28:31). Jesus chegou a dizer que “este evangelho do Reino será pregado em todo o mundo como testemunho a todas as nações, e então virá o fim” (Mateus 24:14). Nenhuma parte do Evangelho Integral, separadamente, iguala-se o Evangelho em sua integridade.

Se Jesus associa ao Evangelho a idéia do Reino de Deus, devemos fazer o mesmo. Isso coloca em questão todas as três caricaturas que eu apresento no início, carregando um pouco no traço, admito. O Evangelho como reino é perdão de pecados, e também apelo a uma ordem social diferente, sobre ser ao mesmo tempo uma questão de poder espiritual.

Mas antes que eu prossiga no desenvolvimento desse tema, há uma observação que eu gostaria de acrescentar acerca do Reino de Deus.

A pessoa e o reino

E. Stanley Jones, o missionário enviado à Índia que moldou a missiologia de Lesslie Newbigin, insistia que não devemos nunca separar da pessoa de Cristo do Reino de Deus. Por quê? Porque Jesus é a incorporação do Reino de Deus.

Aqui a melhor informação que nos chega é a de que o Reino de Deus não é um conceito teológico, mas um nome com um rosto humano. Melhor que isso: essa pessoa veio e viveu entre nós, “tentada de todas as maneiras, assim como somos” (Hebreus 4:15). A tese de Jones é de que o Reino de Deus de fato se aproximou, mas o fez na forma de uma pessoa. “Jesus é o Reino de Deus, calçando sandálias e saindo a caminhar”, disse ele.

Rumo a uma compreensão holística

De que jeito então poderíamos associar numa mesma reflexão a pessoa de Jesus e o Reino de Deus? Que tipo de moldura evitaria a insuficiência das caricaturas que eu pintei anteriormente? Quer-me parecer que o evangelho de Marcos nos fornece algumas pistas importantes, no tocante ao chamamento dos discípulos.

Marcos nos informa que Jesus “escolheu doze homens – aos quais denominou apóstolos -, para que permanecessem ao seu lado, sendo depois por ele mesmo enviados a outras partes, a fim de que pregassem e tivessem autoridade de expulsar demônios” (Marcos 3:14-l5). Chegado o momento da partida, estando já os apóstolos preparados para o seu primeiro solo evangelístico, Marcos nos relata que “eles foram e pregaram exortando o povo ao arrependimento. Expulsaram então muitos demônios, ungiram com óleo a muitos enfermos e os curaram” (Marcos 6:12-13).

O pessoal envolvido com missões aprende depressa a atuar na área de pregação, cura e exorcismo. Também queremos partir em missão e fazer a mesma coisa. O que fazemos é moldado por nossa tradição cristã.

O evangélico, profundamente interessado na verdade da Boa Nova, inclina-se mais para a pregação, para o evangelho como palavra. Os interessados na questão social, chocados com o desprezo pela justiça notório em tantos crentes, passam rapidamente para o lado da cura e da prática de boas obras. Os pentecostais, preocupados com a disposição com que tanto os evangélicos como os adeptos do credo principal se agarram à convicção de que a partilha dos dons espirituais se esgotou no primeiro século de nossa era, se voltam para o exorcismo, ou seja, para o evangelho como sinal.

As duas narrativas apostólicas registradas no livro de Marcos sugerem que todos estão certos e errados ao mesmo tempo. Para Jesus, o evangelho está vinculado ao Reino de Deus, que se estende a todos os domínios da vida. O Evangelho integral do Cristo vivo é evangelho como palavra, evangelho como obra e evangelho como sinal. Mas há mais.

Quebrado e Perdido

Kwame Bediako, amigo e teólogo em Gana, sentou-se ao meu lado uma tarde, em Acra, e disse: “Vocês, ocidentais, cometem uma tolice. Acham que, dissecando um cão e estudando cada parte separadamente, podem chegar a uma compreensão exata do que é ele. O que é pior ainda, às vezes parecem acreditar que, remontando o animal, recolocando cada parte em seu lugar, tê-lo-ão novamente vivo. Mas não é verdade. O que vocês podem conseguir fazendo isso é um cão morto. Quando se puseram a dissecá-lo, vocês perderam de vista a parte mais importante: o fato de que um cão é um ser vivo!”

Os seres vivos deixam de existir quando os esquartejamos. Quando separamos Jesus do Reino, a vida do Evangelho se perde e assim reduzimos o Reino a uma ideologia. Eis a opinião de Jones: quando separamos o evangelho como obra do evangelho como palavra, ou do evangelho como sinal, a vida e a verdade do Evangelho também nos escapam. Por quê?

Nenhum aspecto do Evangelho integral, separadamente, iguala o Evangelho na sua integridade. As palavras conservam em torno de si um halo de ambigüidade enquanto o sentido de nossos próprios termos não é explicitado pela ação. Afinal de contas, na América, quatro em cada cinco pessoas se dizem cristãs. Mas só quando realmente agem como tais é que temos certeza do que querem dizer.

Também as ações conservam esse halo de ambigüidade em torno de si, enquanto as palavras não identificam o motivo e o sentido que se escondem por trás delas. Os budistas e ateus de bom caráter podem trabalhar pela justiça e empunhar a bandeira do ambientalismo. Só as palavras explicam que buscamos a justiça e o bem-estar do ambiente porque seguimos um Senhor que exige isso de nós. E os sinais manifestam a mesma ambigüidade. O diabo também forja os seus milagres.

Palavras, obras (ações) e sinais, tudo isso deve operar em conjunto como mensagem viva, apontando na direção de um Senhor vivo. É por isso que uma compreensão holística do Evangelho, inseparável da compreensão do Reino, é de importância tão fundamental. Mas há mais ainda.

Unindo o ser e o fazer

Lembra-se da importância de nunca separar a pessoa de Jesus da idéia do Reino de Deus? Essa é a parte mais importante deste diálogo.

Quando citei Marcos, a propósito da convocação dos apóstolos por Jesus, você percebeu a razão da chamada, as palavras que eu saltei tão depressa para entrar logo no comentário do fazer evangélico?

Jesus disse que ele convocou os discípulos para que pudessem estar com ele. Estar com ele precede o exorcismo, a pregação, a cura.

O Reino de Deus é um convite a uma forma de relacionamento, não a um programa, nem a uma ideologia indiferentemente de ser o programa evangelismo, ação social ou guerra espiritual. Somos convidados a estar com o Cristo vivo.

Essa é a melhor notícia que há. Cristo provê ao sustento de nosso ser antes de pedir que obedeçamos fazendo. A dicotomia de ser e fazer não se encontra no Evangelho.

Nem há de ser de outra maneira. Não podemos fazer o que não somos. Ser é sempre condição prévia do fazer. Nenhuma evangelista será usada pelo Espírito se ela não estiver viva em Cristo. Nenhum ativista social pode amar os famintos de amor a menos que esteja sintonizado com aquele que é Amor para nós. Nenhuma curadora ou exorcista pode proferir o nome dAquele que ela não conhece e de cujo poder nunca experimentou.

O evangelho do Reino

A imagem da mensagem evangélica como uma pirâmide me parece valiosa. O topo da pirâmide é estar com Jesus, viver em e com o Senhor vivo. Essa relação confere vida a tudo que se encontra embaixo.

Cada uma das quinas da pirâmide é uma dimensão do evangelho: a pregação, ou evangelho como palavra, a cura, ou evangelho como obra, o exorcismo, ou evangelho como sinal.

O evangelho-como-palavra compreende ensino, pregação, o fazer teologia. Evangelho-como-obra significa trabalhar pelo bem-estar físico, social e psicológico do mundo que Deus criou. Evangelho como sinal significa orar para que haja sinais e maravilhas, essas coisas que só Deus pode fazer; significa também a igreja servindo como sinal vivo de um reino que já é chegado, mas que ainda não chegou completamente.

Se despedaçarmos a pirâmide, a soma dos seus fragmentos não será mais uma pirâmide, evidentemente, assim como um cão dissecado não é mais um cão. Para que o evangelho seja o Evangelho, hão de estar presentes ao mesmo tempo todos os quatro aspectos assinalados. São inseparáveis.

A metáfora da pirâmide também funciona de outro modo. Você pode destacar o aspecto do Evangelho (qualquer deles) mais diretamente voltado para as necessidades da pessoa a quem você dá seu testemunho. Se essa pessoa sofre de pobreza do ser, você pode oferecer-lhe vida com o Cristo vivo. Se a pessoa tem fome da verdade, o melhor a oferecer-lhe pode ser a palavra. Se ela padece é de fome mesmo, de injustiça, deveríamos começar com o tipo de ação social que mais rápida e eficientemente lhe satisfaça a necessidade. Se a pessoa tem medo de espíritos, ou se sente tão impotente, que desista de tudo, então o ponto de partida mais adequado será, provavelmente, o poder de Deus sobre tais espíritos. Assim o Evangelho sempre começa onde se encontram as pessoas.

O único pecado nesse caso é ficar só nisso. Embora o Evangelho comece onde estão as pessoas, ele sempre tem algo mais a dizer. Todo mundo, não importa por onde comece sua jornada evangélica, está sujeito a dar de frente com o Evangelho na sua inteireza. Todos nós precisamos conhecer o Jesus que é palavra, ação (obra) e sinal. O Cristo que encarna o Reino e caminha de sandálias entre nós.

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