Resistência e sobrevivência unem igreja e planta em prol do sertanejo

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Já foi dito que Brasil e Índia têm muito em comum. Extensão, contrastes culturais e sócio-econômicos são apenas algumas características nas quais o país sul-americano e o outro, na Ásia meridional, se parecem. Assim como na Índia, o Brasil tem populações vivendo em áreas de fome endêmica, profundamente marcados pela escassez de água. O Norte da Índia e o Nordeste brasileiro guardam entre si aspectos quase idênticos. Tudo isso seria óbvio não fosse curioso o fato de uma igreja do Sertão nordestino usar plantas nativas da Índia como um potente remédio para muitos males da seca. Muitos aqui ainda não conhecem a moringa, mas ela vem despertando o interesse acadêmico, no Brasil ou no exterior, e até de pequenos e médios produtores rurais.

No centro do chamado Polígono da Seca está o “berço” que recebeu, e agora embala, um projeto evangélico voltado para a solução, em escala doméstica – no máximo, comunitária –, para a desnutrição e miséria crônicas da região. Com um desafio de cerca de 1,2 milhão de pessoas no estado dependendo de carros-pipa e poços perfurados, 298 mil famílias recebendo cestas básicas do governo federal, os evangélicos paraibanos sinalizam com alternativas inovadoras.

Ali, onde o mapa da Paraíba faz um “gargalo” entre Rio Grande do Norte e Pernambuco, as terras vermelhas em torno de Patos, cidade mais conhecida pelo açude do Jatobá – cujas águas têm o poder, dizem, de trazer de volta aqueles que delas bebem –, está a chácara que abriga alguns dos projetos da Ação Evangélica (Acev), uma igreja dedicada à evangelização de sertanejos. Nela, desde 1994, criam-se aves, gado caprino e bovino e se plantam a moringa, a algaroba e o neem, três variedades vegetais introduzidas no ecossistema do Sertão Paraibano.

Além desse projeto, a Acev mantém ainda outros programas sociais. Há quase 70 anos, a Ação Evangélica está no Nordeste implantando igrejas em pequenas cidades sertanejas, como Maturéia, Ibiara, Teixeira e Princesa Isabel, entre outras, e centros urbanos como Campina Grande, Recife e João Pessoa. Ela começou em 1938, com a chegada ao Brasil, primeiramente, do missionário inglês Edward Mundy e sua esposa Dora. Em 1946, instalou sua sede em Patos, onde permanece até hoje. Desde 1949, o pastor Frank Dyer e sua esposa Ivy deram continuidade ao trabalho, assumindo-o após a morte de Edward Mundy, em 1971. Durante décadas, a Acev foi discriminada e perseguida, fosse pela ignorância popular, fosse pela intransigência religiosa local. A partir de 1987, com o falecimento do pastor Frank, ocupei a presidência.

Cheguei ao Brasil em 1972, como missionário, e há 33 anos sou patoense de coração. Eu e Elizabeth, filha dos Dyer, tivemos quatro filhos criados no Sertão. A família, hoje na terceira geração, abriu por conta própria uma filial da Cultura Inglesa em Patos, garantindo o nosso sustento com aulas de inglês. Uma grande alegria é saber que, em nossa igreja, podemos contar com um quadro de obreiros sertanejos, homens e mulheres que têm aceitado o difícil desafio da missão de evangelizar e socorrer. 

Preservando o verde no meio ambiente e o alimento no prato

As variedades vegetais cultivadas na fazenda, situada em terras da vizinha São Mamede, visam ao reflorestamento e o consumo para alimentação do gado, podendo até ser usadas pela indústria química. Além do sorgo, gramínea empregada na ração de animais, uma árvore indiana, o neem (Azadirachta indica), ou nim como também é chamada a leguminosa, tem comprovadas propriedades inseticida, fungicida e cicatrizante naturais. A algaroba (Prosopis juliflora) é a única variedade nativa das Américas e oferece boa qualidade de sementes para ração. Já outra leguminosa indiana, a moringa (Moringa oleifera), adapta-se muito bem à realidade sertaneja e, com pouca água, rapidamente dá sombra e alimento para pessoas e animais.

As espécies são de grande utilidade em áreas de pobreza endêmica, como o semi-árido brasileiro. Exemplo disso, mesmo na mais desenvolvida Campina Grande, a 180 km de Patos, o racionamento de água é um hábito antigo. No Sertão, a seca é responsável pela morte de 70 por cento do gado bovino e as perdas na agricultura, só no primeiro ano (entre 1998 e 1999) da última grande seca chegaram a 850 milhões de reais.

Por isso, especialmente o projeto de disseminação da moringa obteve o apoio de entidades como o Rotary Clube de Patos e tem atraído a atenção de visitantes e especialistas da França, Inglaterra, Alemanha e Paraguai. Órgãos nacionais, como a Embrapa e a UFPB, também se interessaram, o que gerou algumas teses de pós-graduação. Da Inglaterra, a Universidade de Leicester acompanha o desenvolvimento do projeto. Afinal, enquanto plantações tradicionais se rendem à seca, a moringa continua verde e altiva, mesmo sem irrigação. De sementes férteis, ela se adapta facilmente a vários tipos de solo e cresce com rapidez. Em um ano de plantio, ela já fornece vagens e folhas.

Como solução nutricional, a moringa ajuda no aleitamento materno. Três colheres de sopa com folha de moringa em pó respondem por 21% da necessidade diária de proteína da mãe, contra 42% do que necessita uma criança de 1 a 3 anos de idade. Também são favoráveis as porcentagens de cálcio (mãe, 84% e criança, 125%), magnésio (54 contra 61), potássio (22 para 41), ferro (94 a 71), vitaminas A (143 a 272) e C (9 e 22).

Na ração de bois, porcos, coelhos e bodes, a folha da moringa é responsável por 40 a 50 por cento da dieta. No ganho de peso do gado de corte, ela representa 30 por cento diários do crescimento verificado. E não pára aí.

Na América Central, onde também se cultiva a moringa, o suco extraído da sua folha ajuda a produzir hormônio de crescimento em plantas como milho, soja, cebola, melão e sorgo, com ganhos de 25 a 30 por cento. Em Campina Grande, a Federação de Indústrias do Estado da Paraíba (Fiep) acompanhou testes feitos com a moringa, nos quais se obteve óleo comestível de boa qualidade. Moídas, as sementes também podem purificar a água em casas ou na indústria, substituindo o sulfato de alumínio em cisternas e poços. 

Uma espécie de manejo prático e abundante para o plantio

Para plantar a moringa, a primeira coisa a fazer é decidir se o objetivo é a produção de sementes ou de folhagem. Se a opção está nas sementes, ela pode ser plantada em linha, a intervalos de três metros, e as copas das árvores serão amplas. Já para se obter folhagem, dez centímetros de intervalo são suficientes. Cada semente deve ser enterrada a cinco centímetros e a irrigação é diária, com pouca água, só na fase do crescimento inicial. Não é preciso fazer mudas. Quando a árvore alcança a maturidade, pode-se podá-la à vontade, pois com isso ela crescerá mais ainda.

A Ação Evangélica tem, talvez, o único banco de sementes da moringa conhecido no Brasil. A igreja distribui sementes para o plantio em casas ou propriedades rurais. Os interessados podem contactar a Ação Evangélica, visitando a página da igreja na Internet: www.acaoevangelica.com.br 

John Philip Medcraft – presidente da Ação Evangélica e da Ordem dos Ministros Evangélicos do Brasil no Município de Patos, PB.

2 respostas para Resistência e sobrevivência unem igreja e planta em prol do sertanejo

  1. Sou um técnico fiscal de saúde recentemente aposentado e um plantador de moringa, noni e nim desde o ano de 209. Quero que todo o povo da igreja adventista nunca fique sem alimentar da moringa para combater as pragas do Egito como diz a própria Bíblia em êxodo l5, verso 26. Peço que leia o meu blog já conhecido mundialmente como (O Sal da Terra) no endereço pl-cido.blogspot.com.

  2. francisco clodoaldo pereira disse:

    Eu queria saber se a moringa Indiana é da família do neem ( ou nin ) que já faz parte das praças lá no Ceará, por sinal uma sombra maravilhosa.

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