Céu cinza, chão negro

Céu cinza, chão negro

Quando a terra Preta clama por Reparação e Bem-Estar

“O que você fez? Ouça! O sangue de seu irmão clama a mim da terra! Gn 4.10

Na manhã de 25 de novembro, o céu chorava uma chuva forte. Parecia nascer do coração das mais de 300 mil mulheres negras reunidas no chão de Brasília, onde a terra é vermelha. Era o choro de mães que perderam seus filhos, mulheres que sofreram violência, crianças que desejavam um futuro mais seguro, gente que insiste e resiste. Assim começava a 2ª Marcha das Mulheres Negras, uma década depois da primeira.

A chuva, no entanto, não desanimou quem havia atravessado o país para ocupar a capital. Vieram de ônibus, vans, aviões e caravanas provenientes de pequenas cidades, capitais e comunidades periféricas. Vieram jovens, mulheres maduras, idosas que participaram da marcha de 2015, adolescentes que caminham pela primeira vez. Vieram mulheres com turbantes coloridos, mulheres de cadeira de rodas empurradas por outras mãos negras, mães com crianças nos braços, trabalhadoras, acadêmicas, lideranças religiosas, artistas, militantes e mulheres que silenciosamente lutam todos os dias para o bem viver.

A marcha, que começou a ser organizada muitos antes de 2025, mobilizou grupos de trabalho em cada estado. Redes de mulheres negras se articularam com sindicatos, prefeituras, coletivos culturais e organizações de base para garantir que todas pudessem chegar. Brasília recebeu a força das caravanas já no fim de semana anterior, embora a estrutura oferecida tenha apresentado seus desafios. Nada foi capaz de conter a mobilização que tomou o Museu da República no dia da concentração. Ali, tudo estava preparado: cadeiras de rodas, protetores auriculares, lanches, o espaço ‘erê’ para as crianças, o espaço das ‘ganhadeiras’ para as artesãs, espaços de saúde, espaços culturais, entre outros. Era um território cuidadosamente construído por mãos negras, ainda que marcado pelos desafios de uma organização complexa e de uma luta que também precisa enfrentar seus próprios conflitos geracionais.

Tiago Zenero – PNUD Brasil

À medida que o céu se abria e a chuva cessava, por volta das 10h, mais mulheres chegavam. A cidade era “pequena” diante de tanta gente. O cortejo, previsto para sair às dez horas da manhã, acabou saindo ao meio-dia: O que se via era uma corrente humana imensa, multi colorida e vibrante, marcada por palavras de ordem inspiradoras, som dos tambores, xequerês, músicas e muitas vozes que entoavam cantos de resistência e fé. Mulheres de vários credos e religiões –  católicas, de matriz africana, evangélicas, entre outras – marchando lado a lado, refazendo caminhos históricos de separação e denunciando, com seus corpos, as dores e os apagamentos que atingem cotidianamente o povo negro, principalmente dentro das igrejas.

Entre as participantes, estava Agnes Raquel Camisão, enfermeira, pesquisadora em Saúde da População Negra, mulher cristã e evangélica. Sua presença simbolizava as muitas intersecções que marcam a luta: fé, ciência, identidade e resistência. “Ser uma mulher negra, cristã e doutora é meu marcador político e existencial”, afirmou, destacando como sua trajetória é sustentada por uma rede de cuidado que a fé lhe proporcionou, mas também pela consciência de que o racismo atravessa instituições religiosas, acadêmicas e estatais.

Enfª Drª Agnes Raquel Camisão e Monica Pereira Papa – Fiocruz

A presença de representantes cristãs evangélicas nesses espaços de diálogo e formulação de políticas sociais é fundamental para ampliar a diversidade de vozes e fortalecer a construção de uma sociedade mais justa. Quando lideranças e instituições religiosas assumem o compromisso de participar ativamente dessas discussões, elas não apenas reafirmam seu papel histórico de cuidado e defesa da dignidade humana, como também contribuem para que temas sensíveis como: proteção à infância, convivência familiar e enfrentamento à violência, sejam debatidos à luz de valores éticos, de compaixão e responsabilidade comunitária. Essa representatividade qualificada ajuda a provocar reflexões importantes dentro das próprias igrejas, incentivando que nossas comunidades de fé avancem em práticas mais seguras, acolhedoras e coerentes com o Evangelho que professam.

Agnes recorda que, na mesma semana da marcha, falava sobre a chacina que antecedeu o 20 de Novembro e sobre como corpos negros são descartados no Brasil. “Os filhos que tombaram eram filhos de mulheres negras. E a dor dessas mulheres, eu entendo”, disse. Para ela, marchar é uma forma de recusar a naturalização da violência: “Se eu estivesse naquele lugar, também seria morta. Não iam perguntar quem eu era.” É por isso que a marcha se ergue sobre duas colunas centrais: reparação e bem viver. Reparação porque há séculos de injustiça ainda sem resposta. Bem viver porque a vida negra merece mais do que sobrevivência, merece plenitude, saúde e dignidade.

A marcha relembra as conquistas e os desafios que persistem: luta pelas cotas, a implementação da Lei 10.639 nas escolas que ainda carece de avanços, o combate ao racismo institucional no SUS, o adoecimento mental causado pelo preconceito, a violência escolar que atinge crianças negras, a desigualdade no acesso e no tratamento na saúde, dentre tantas outras. “Somos 56% da população e ainda ocupamos, majoritariamente, lugares de subserviência. É por isso que seguimos lutando”, afirma Agnes.

A presença de figuras públicas como Conceição Evaristo, Benedita da Silva, Anielle Franco, Jurema Werneck, Graça Santos, Orlando Silva e o pastor Henrique Vieira, entre muitos outras figuras trouxe força simbólica à marcha, mas, para quem caminhava, a potência vinha sobretudo das anônimas, das mulheres que perderam filhos, das que enfrentam religiosidade racista, das que sustentam famílias inteiras, das que lutam por políticas públicas, das que, há décadas, mantêm viva a memória do movimento negro.

Ao fim da tarde, quando o cortejo retornou à área de concentração, o céu já estava menos cinzento. Mas os corações de todas as mulheres estavam coloridos semelhantes às vestes que cada uma delas trajava. Agnes destaca “cada uma de nós tínhamos certeza que estávamos escrevendo um importante capítulo na nossa história, que assim como há 10 anos atrás aquele momento iria inspirar muitas que ainda virão, porque ‘Nossos passos vêm de longe’”. 

É a história de um povo que, mesmo marcado pela dor, segue de pé, fazendo do próprio corpo um manifesto político. Essa história é marcada por mulheres que, mais uma vez, ocuparam Brasília para lembrar ao país que sua luta não cabe em um único dia do calendário, mas elas insistem e resistem 365 dias durante cada minuto e segundo do ano.

No período da noite, algumas representantes do movimento foram recebidas pelo presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), ministro Edson Fachin, para discutir a política de segurança pública do Brasil, tendo como ponto central a operação policial nos complexos da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro, que vitimou 122 pessoas. Agnes reflete: “existe a sororidade, que é a identificação de uma mulher com outra. Mas, existe a dororidade que é a dor que só uma mulher preta consegue dividir com outra”. Ela aponta como o sofrimento das mães pretas periféricas, que perdem os filhos em operações policiais é banalizada quando Cristo nos convoca a “chorar com os que choram”.

A terra preta clamava. E a marcha respondeu:

Estamos vivas. Estamos juntas. E não abriremos mão do bem viver.

Agnes Raquel Camisão é Enfermeira Doutora Supervisora do Projeto Saúde nas Periferias – Colaboratório de Ciência Pesquisa e Inovação – Fiocruz Brasília.

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