Diante da chegada de um El Niño mais intenso, organizações sociais precisam fortalecer redes locais de prevenção e proteção

Diante da chegada de um El Niño mais intenso, organizações sociais precisam fortalecer redes locais de prevenção e proteção

Preparação para os eventos climáticos extremos exige informação qualificada, mobilização comunitária e articulação entre organizações, igrejas e poder público.

As mudanças climáticas deixaram de ser uma preocupação distante para se tornarem uma realidade que já afeta diretamente a vida das comunidades brasileiras. Secas prolongadas, ondas de calor, queimadas, enchentes e deslizamentos são alguns dos eventos extremos que têm se tornado mais frequentes e intensos. Diante das previsões de um possível El Niño de grande intensidade, a preparação das organizações da sociedade civil, igrejas e iniciativas comunitárias torna-se ainda mais urgente.

O assunto foi tema de uma reunião online promovida pela Rede Evangélica Nacional de Ação Social (RENAS), que recebeu o engenheiro florestal Carlos Vicente, facilitador nacional da Iniciativa Inter-Religiosa pelas Florestas Tropicais no Brasil. Durante o encontro, o especialista apresentou um panorama dos fenômenos climáticos previstos e destacou o papel estratégico das organizações sociais na prevenção de riscos e na proteção das populações mais vulneráveis.

O que esperar do El Niño?

O El Niño é um fenômeno climático natural caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Essa alteração interfere na circulação atmosférica e modifica os padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões do planeta.

No Brasil, seus efeitos costumam ser especialmente perceptíveis na Região Norte, onde há tendência de redução das chuvas e aumento do risco de secas e queimadas, e na Região Sul, onde pode ocorrer aumento significativo das precipitações, elevando o risco de enchentes e deslizamentos. Centro-Oeste e Nordeste também podem enfrentar períodos de chuva abaixo da média e temperaturas mais elevadas.

Segundo Carlos Vicente, as projeções apresentadas durante a reunião apontavam para uma probabilidade elevada de ocorrência de um El Niño muito intenso. Entretanto, o especialista ressaltou a importância de comunicar as previsões com responsabilidade: a intensidade definitiva do fenômeno depende do acompanhamento contínuo das temperaturas do oceano e dos modelos meteorológicos.

Mais importante do que antecipar cenários alarmistas é compreender que os riscos já estão presentes. O El Niño se soma a um contexto de aquecimento global, tornando seus possíveis impactos ainda mais severos.

“Uma coisa é você ter um El Niño em que a Amazônia e o Nordeste vão ficar muito secos, mas sem um aquecimento tão alto do planeta. Quando você tem mais calor, aumenta a propensão à seca, aos incêndios e às tempestades em determinados lugares”, explicou Carlos.

A crise climática também é uma questão social

Um dos principais alertas apresentados durante o encontro foi que os impactos climáticos não atingem todas as pessoas da mesma maneira. Famílias em situação de vulnerabilidade social, comunidades periféricas, pessoas idosas, crianças e populações sem acesso adequado à infraestrutura urbana estão entre as mais expostas.

A falta de arborização, moradias precárias, ausência de sistemas de refrigeração, dificuldade de acesso à água potável e fragilidade dos serviços públicos ampliam os riscos diante de ondas de calor, períodos de seca e eventos extremos.

A fumaça das queimadas, por exemplo, não representa apenas um problema ambiental. As micropartículas presentes no ar podem atingir os pulmões e a corrente sanguínea, aumentando os riscos de doenças respiratórias e cardiovasculares. Da mesma forma, a redução do volume dos rios pode comprometer o abastecimento de água, o transporte, a produção de alimentos e o funcionamento da economia local.

Nesse cenário, a questão climática precisa ser compreendida também como uma questão de justiça social, saúde pública e garantia de direitos.

Para as organizações que trabalham diretamente com famílias, crianças, adolescentes, pessoas idosas e comunidades vulneráveis, isso significa reconhecer que os eventos climáticos podem comprometer a continuidade dos serviços, agravar situações de vulnerabilidade e exigir novas formas de atuação.

Formar redes locais: um caminho para a prevenção

Se existe um desafio comum às diferentes regiões do Brasil, é a necessidade de transformar informação em preparação prática. E, nesse processo, as organizações sociais e igrejas têm uma vantagem importante: sua presença permanente nos territórios e sua capacidade de mobilização comunitária.

Durante a reunião, Carlos destacou que a resposta aos eventos climáticos não pode depender exclusivamente dos governos ou dos órgãos de emergência. É necessário fortalecer a articulação entre poder público, organizações sociais, igrejas, lideranças comunitárias e moradores.

Uma das possibilidades apresentadas foi a criação de Núcleos Comunitários de Proteção e Defesa Civil (NUPDECs), espaços de organização e mobilização local voltados à prevenção de riscos, preparação das comunidades e atuação coordenada diante de situações de emergência.

As igrejas e organizações sociais podem contribuir diretamente para essa articulação, especialmente em territórios onde a presença dos serviços públicos é limitada. Mais do que prestar assistência depois que um desastre acontece, essas instituições podem ajudar a identificar riscos, compartilhar informações confiáveis, orientar famílias e construir estratégias coletivas de proteção.

Entre as iniciativas que podem ser desenvolvidas estão:

  • Mapear os riscos do território: identificar áreas sujeitas a alagamentos, deslizamentos, queimadas, falta de água e ondas de calor, além de reconhecer famílias que necessitam de atenção prioritária.
  • Construir parcerias locais: estabelecer diálogo com a Defesa Civil, unidades de saúde, escolas, associações de moradores, igrejas e demais organizações presentes na comunidade.
  • Criar canais de comunicação e alerta: organizar grupos e redes de contato para compartilhar informações oficiais, avisos de risco e orientações preventivas.
  • Preparar equipes e voluntários: oferecer formação básica para que colaboradores e lideranças saibam como agir diante de situações de emergência e orientar a população.
  • Desenvolver ações preventivas: promover arborização, cuidado com áreas verdes, descarte adequado de resíduos, preservação de nascentes e redução de riscos nos espaços comunitários.
  • Fortalecer a participação comunitária: envolver moradores, especialmente jovens, na identificação dos problemas e na construção de soluções para o território.

A formação dessas redes permite que as comunidades não dependam apenas de respostas emergenciais, mas desenvolvam capacidade de prevenção, organização e recuperação diante dos impactos climáticos.

Igrejas e organizações sociais como agentes de transformação

Carlos Vicente também chamou a atenção para a importância do envolvimento das comunidades de fé nessa agenda. Segundo ele, as igrejas possuem uma capilaridade que poucos setores conseguem alcançar, estando presentes em diferentes territórios e mantendo vínculos cotidianos com as famílias.

Essa presença pode ser decisiva tanto na circulação de informações quanto na mobilização de pessoas e recursos.

O especialista compartilhou experiências de comunidades religiosas que já desenvolvem iniciativas de cuidado ambiental, como visitas às famílias do entorno, orientação sobre manejo de resíduos, plantio de árvores e ações para reduzir riscos de alagamentos.

Outro exemplo apresentado foi a possibilidade de instalação de pequenas estações meteorológicas em igrejas e organizações comunitárias. Os equipamentos permitem monitorar parâmetros como temperatura, chuva, vento e qualidade do ar, gerando informações que podem contribuir para sistemas locais de alerta e orientar ações de proteção.

Em períodos de calor intenso, por exemplo, uma igreja pode utilizar sua estrutura para acolher temporariamente pessoas idosas, crianças e famílias que vivem em moradias sem condições adequadas de refrigeração. Em situações de fumaça intensa, pode compartilhar orientações sobre proteção da saúde e prevenção de doenças.

São iniciativas que demonstram como a atuação comunitária pode transformar informação em cuidado concreto.

Informação, prevenção e incidência pública

Além da preparação local, o especialista ressaltou a importância de acompanhar fontes confiáveis de informação e combater a desinformação. Previsões climáticas precisam ser comunicadas com responsabilidade, sem minimizar os riscos, mas também sem produzir alarmismo.

Outro aspecto fundamental é a incidência junto ao poder público. As organizações podem contribuir para que os municípios fortaleçam suas estruturas de Defesa Civil, ampliem os investimentos em prevenção, protejam áreas de preservação permanente e desenvolvam políticas de adaptação às mudanças climáticas.

A proteção das comunidades não pode ser tratada apenas como uma responsabilidade individual. É necessário cobrar políticas públicas, planejamento urbano, infraestrutura adequada e ações permanentes de redução de riscos.

Como destacou Carlos, a transformação também depende de mobilização social: a distância entre o sofrimento das populações e a resposta do poder público precisa ser reduzida por meio da participação e da organização comunitária.

Preparar-se é também construir esperança

A crise climática pode provocar medo, insegurança e sensação de impotência, especialmente entre os mais jovens, que frequentemente expressam preocupação com as condições de vida das próximas gerações.

Para Carlos Vicente, entretanto, o envolvimento das igrejas e organizações sociais pode representar um importante espaço de esperança e participação. Quando as comunidades compreendem o problema e encontram caminhos concretos para agir, deixam de ocupar apenas o lugar de quem sofre as consequências e passam a fazer parte da construção de soluções.

A perspectiva também dialoga com o compromisso cristão de cuidado com a criação. A orientação bíblica de cultivar e guardar a terra, apresentada em Gênesis 2:15, reforça que o desenvolvimento humano não pode acontecer à custa da destruição das condições que sustentam a vida.

O desafio colocado às organizações sociais é ampliar esse entendimento e incorporá-lo às suas práticas institucionais. Isso significa incluir a prevenção climática no planejamento, preparar equipes, fortalecer parcerias e reconhecer que cuidar das pessoas também exige cuidar dos territórios onde elas vivem.

A chegada de um El Niño intenso pode representar novos desafios para muitas comunidades brasileiras. Mas a preparação não precisa começar quando a emergência já estiver instalada. Fortalecer redes locais, compartilhar conhecimento e mobilizar pessoas são passos fundamentais para proteger vidas. Mais do que responder aos desastres, é hora de construir comunidades preparadas, conectadas e resilientes.

 

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