Quem cuida de quem cuida?

Quem cuida de quem cuida?
Setembro Amarelo – Cuide da sua saúde mental

Há uma solidão pouco visível no trabalho das organizações sociais cristãs: a solidão de quem está à frente.

Gestores, coordenadores, diretores e cuidadores passam os dias acolhendo histórias difíceis, tomando decisões complexas, administrando equipes pequenas, buscando recursos, respondendo a demandas urgentes e tentando garantir que a missão da organização continue acontecendo. Muitas vezes, são eles que sustentam emocionalmente suas equipes, mas quem sustenta essas pessoas?

O trabalho social é, por natureza, um trabalho de cuidado. E justamente por isso, pode cobrar um preço alto de quem o realiza.

Uma pesquisa do Center for Effective Philanthropy, realizada em 2024 com 239 lideranças de organizações sem fins lucrativos dos Estados Unidos, mostrou que 95% dos líderes demonstravam algum nível de preocupação com burnout. Um terço estava muito preocupado com o próprio esgotamento e metade afirmou estar mais preocupada com isso do que no ano anterior. Além disso, 76% disseram que o burnout da equipe já afetava, ao menos em alguma medida, a capacidade da organização de cumprir sua missão.

Os números ajudam a dar nome a algo que muitas lideranças já conhecem na prática: não é possível sustentar indefinidamente um trabalho de grande impacto social com pessoas permanentemente sobrecarregadas. No campo cristão, essa realidade ganha outras camadas. Existe o chamado, a vocação, o compromisso com o próximo e a compreensão de que servir também é uma expressão da fé. Mas a vocação não elimina os limites humanos. Uma pesquisa realizada em 2023 com 315 trabalhadores de ministérios cristãos, representando diferentes denominações e funções, encontrou que 25% dos trabalhadores ligados a igrejas relataram sentir-se frequentemente solitários, em comparação com 15% entre trabalhadores de organizações cristãs sem fins lucrativos. Entre todos os participantes, 29% disseram estar enfrentando ou suspeitar que estivessem enfrentando algum problema de saúde mental.

Esses dados não descrevem diretamente a realidade brasileira nem especificamente os gestores de organizações sociais cristãs. Mas ajudam a iluminar uma questão que merece atenção: estar cercado de pessoas não significa caminhar acompanhado.

A solidão de quem lidera

A liderança de uma organização social frequentemente coloca a pessoa em uma posição paradoxal.

Ela precisa estar disponível, mas nem sempre pode demonstrar fragilidade. Precisa tomar decisões, mas nem sempre tem com quem dividi-las. Precisa cuidar da equipe, mas pode não ter espaço para falar sobre suas próprias dificuldades. Precisa buscar recursos, responder a crises e pensar no futuro enquanto administra os problemas do presente.

E há ainda uma característica comum ao terceiro setor, como aponta Silvia Kivitz, coordenadora da Rede Ibab Solidária, “equipes enxutas, alta demanda, dificuldade de contratação e retenção, recursos limitados e exposição contínua a problemas sociais complexos”.

Uma pesquisa do Institute for Nonprofit Practice identificou justamente esses fatores entre os principais elementos associados ao aumento do burnout no setor: escassez de profissionais, aumento das cargas de trabalho, recursos financeiros pressionados, salários menos competitivos, exposição repetida a problemas sociais persistentes e, especialmente, falta de suporte aos gestores, que ocupam uma posição fundamental no bem-estar das equipes.

É nesse cenário que surge uma pergunta essencial: quem pastoreia quem está pastoreando?

Cuidar da saúde mental também é cuidar da missão

Falar sobre saúde mental nas organizações sociais não significa apenas oferecer atendimento psicológico quando alguém já chegou ao limite, mas construir uma cultura na qual seja possível reconhecer cansaço, pedir ajuda, compartilhar dificuldades, estabelecer limites, descansar e falar sobre aquilo que pesa.

A Organização Mundial da Saúde define o burnout como um fenômeno ocupacional relacionado ao estresse crônico no trabalho que não foi adequadamente administrado. Ele envolve exaustão, distanciamento mental ou cinismo em relação ao trabalho e redução da eficácia profissional. Isso é particularmente importante para organizações cujo trabalho depende profundamente das relações humanas. Quando quem cuida está esgotado, não é apenas sua vida pessoal que é afetada. O impacto pode chegar à equipe, às relações, à qualidade do atendimento e à própria capacidade institucional de cumprir sua missão. E mais, se má administrada por gerar afastamento da própria fé e da vida em comunidade.

Por isso, cuidar de quem cuida não é um benefício periférico. Precisa ser parte da sustentabilidade da organização.

Pastorear quem lidera

Nesse contexto, o pastoreio de gestores pode ocupar um lugar importante.

Não se trata de substituir a psicoterapia, a gestão profissional ou a capacitação técnica. Nos provoca a criar espaços de acompanhamento, escuta, oração, reflexão, aconselhamento e compartilhamento de experiências entre pessoas que vivem desafios semelhantes.

Líderes também precisam de alguém que pergunte:

Como você está?
O que tem sido difícil?
O que você está carregando sozinho?
De quem você tem recebido cuidado?
Você ainda consegue descansar?

A experiência da Rede IBAB Solidária aponta para uma possibilidade importante: uma rede não precisa existir apenas para compartilhar recursos, projetos ou conhecimentos, mas para criar vínculos.

Quando organizações se conectam, seus gestores deixam de enfrentar sozinhos problemas que muitas vezes são comuns a todo o setor. Uma organização pode compartilhar uma solução que outra ainda não encontrou. Enquanto isso, uma liderança pode oferecer experiência para outra que está começando.

Às vezes, a maior contribuição de uma rede não é oferecer respostas prontas, mas ser companhia na caminhada.

A rede cria espaços para que gestores conversem com outros gestores, aproxima diretorias e equipes, e reconhece que organizações de diferentes tamanhos e estruturas enfrentam desafios igualmente importantes. 

Uma pesquisa sobre o bem-estar no setor social encontrou um dado especialmente significativo: entre participantes ligados ao Institute for Nonprofit Practice, aqueles que haviam passado por programas de desenvolvimento de liderança apresentaram taxas relatadas de burnout inferiores às observadas na força de trabalho nacional. Os pesquisadores relacionaram essa diferença à importância de oferecer aos líderes habilidades, recursos, comunidade, redes e confiança para enfrentar a complexidade da liderança social.

Ou seja: fortalecer pessoas também fortalece organizações.

Ninguém deveria cuidar sozinho

As organizações sociais cristãs nasceram, muitas vezes, da percepção de uma necessidade e do desejo de responder a ela. Mas, à medida que crescem, tornam-se também espaços complexos de gestão, cuidado, responsabilidade e transformação social.

Ao passo que perguntamos se estamos alcançando as pessoas que precisam de nós, precisamos perguntar também quem está cuidando de quem torna esse trabalho possível?

Preservar a saúde mental de gestores, profissionais e cuidadores é preservar a vida, diminuir a solidão, fortalecer equipes e desenvolver meios saudáveis de garantir a sustentabilidade.

Cuidar de quem cuida é fortalecer quem serve.

E fortalecer quem serve é fortalecer a própria missão.

Texto inspirado na reflexão trazida por Silvia Kivitz, coordenadora da Rede IBAB Solidária, no Encontro de Filiadas 2026, realizado no Lar Luterano Belém em Campinas.

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