Fé, democracia, política e dignidade recomposta

Fé, democracia, política e dignidade recomposta

No dia 12 de agosto, a RENAS promoveu mais uma reunião online de filiadas, reunindo organizações e lideranças da rede para uma conversa sobre um tema urgente para a Igreja e para a sociedade brasileira: a relação entre fé cristã e democracia. O encontro contou com a participação do sociólogo e teólogo Paul Freston, que compartilhou reflexões a partir de seu mais recente livro, dedicado à presença cristã na esfera pública e aos desafios democráticos do nosso tempo.

A conversa partiu de uma constatação fundamental: o cristianismo não possui uma “receita política” pronta para todos os tempos e contextos. A própria história da fé cristã demonstra isso. Os textos bíblicos foram produzidos em diferentes contextos históricos, sociais e políticos, muito distantes da realidade contemporânea. Por isso, a tarefa cristã exige um exercício permanente de interpretação: retirar da fé seus princípios, valores e impulsos e discernir como eles podem ser vividos concretamente em cada contexto.

Essa compreensão é especialmente importante quando pensamos na relação entre cristianismo e democracia. Para Freston, justamente porque não existe uma única posição política que possa ser apresentada como “a posição cristã”, a diversidade política entre cristãos não deveria ser vista como uma ameaça à fé. Ao contrário, ela pode ser uma expressão da própria liberdade e da complexidade da vida em sociedade.

“A fé não pode ser reduzida a um projeto político”

Um dos alertas mais importantes da conversa foi para o risco de colocarmos nossas convicções políticas no mesmo nível das convicções fundamentais da fé. Quando isso acontece, o debate político deixa de ser uma discussão legítima entre diferentes possibilidades de organização da sociedade e passa a adquirir contornos de disputa religiosa.

A tradição cristã reconhece que o discipulado possui implicações públicas e políticas. A Igreja não deve se omitir diante das injustiças, da pobreza, da violência, da desigualdade ou da violação de direitos. Ensinar as implicações sociais da fé faz parte da missão cristã. Entretanto, isso não significa transformar uma determinada candidatura, partido, ideologia ou projeto de governo em expressão necessária do Evangelho.

Essa distinção é essencial. Uma organização cristã pode defender com convicção determinada política pública ou posicionamento social, mas precisa preservar a capacidade de reconhecer que outros cristãos, igualmente comprometidos com as Escrituras e com o discipulado, podem chegar a conclusões políticas diferentes.

A democracia, nesse sentido, não existe para garantir que “o nosso lado” sempre vença. Ela existe para possibilitar a convivência e a disputa legítima entre diferentes visões de sociedade.

Unidade não é sinônimo de uniformidade

Talvez uma das provocações mais relevantes para as organizações cristãs seja justamente esta: a Igreja não precisa ser politicamente uniforme para ser testemunha de Cristo.

Em uma sociedade profundamente polarizada, é comum que divergências políticas sejam transformadas em julgamentos sobre a própria fé do outro. Pessoas passam a questionar se alguém é verdadeiramente cristão porque vota de determinada maneira, ou porque não compartilha de determinada visão política. Essa lógica precisa ser confrontada pela própria compreensão cristã de comunidade.

Jesus afirmou: “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13.35). É relativamente fácil conviver com pessoas que pensam como nós. Mais se torna um grande desafio permanecer em comunhão quando encontramos irmãos e irmãs que compartilham da mesma fé, mas possuem compreensões políticas diferentes. É justamente aí que o amor cristão ganha uma dimensão pública poderosa.

Talvez o testemunho da Igreja diante da sociedade não devesse ser o de uma comunidade politicamente unificada, mas o de uma comunidade capaz de discordar sem se destruir; de debater sem desumanizar; de defender convicções sem transformar o outro em inimigo. Uma Igreja que consegue viver suas diferenças políticas com respeito oferece à sociedade um testemunho que vai além de qualquer posicionamento partidário.

“Coar mosquitos e engolir camelos”

Durante a conversa, Freston recuperou uma imagem utilizada por Jesus nos Evangelhos: a denúncia daqueles que “coam o mosquito e engolem o camelo” (Mt 23.24). A metáfora também pode nos ajudar a refletir sobre a maneira como os cristãos estabelecem suas prioridades no debate público.

Ser bíblico não significa apenas encontrar um versículo que sustente determinada posição. Significa também considerar a proporcionalidade daquilo que a própria Bíblia enfatiza. Questões presentes reiteradamente nas Escrituras deveriam ocupar espaço proporcional em nossa reflexão cristã. Da mesma forma, aquilo sobre o qual a Bíblia fala pouco ou nada não deveria necessariamente tornar-se o centro absoluto da nossa identidade religiosa.

Quando questões políticas secundárias se tornam critérios para determinar quem é ou não um “bom cristão”, corremos o risco de transformar preferências políticas em dogmas religiosos. A fé cristã, entretanto, é maior do que qualquer projeto político.

Da dignidade recomposta à dignidade imposta

Outro ponto marcante da reflexão foi a recuperação histórica da presença evangélica na sociedade brasileira. Freston lembrou a expressão “dignidade recomposta”, utilizada em pesquisas sobre comunidades pentecostais brasileiras, para descrever uma das transformações produzidas pela experiência religiosa: pessoas que, embora não necessariamente tivessem sua condição econômica modificada, encontravam na fé uma nova percepção de dignidade e pertencimento. Essa reflexão ajuda a compreender uma transformação significativa na relação entre parte do evangelicalismo brasileiro e a política.

Durante muito tempo, prevaleceu entre setores evangélicos a ideia de que “crente não se mete em política”. Posteriormente, surgiu a lógica de que “irmão vota em irmão”, indicando uma maior participação política e também uma busca por representação própria. Em determinados momentos, essa participação avançou para uma compreensão mais ambiciosa do papel da Igreja na condução da sociedade. A pergunta teológica que emerge é profunda: a participação política cristã deve buscar a dignidade e a transformação da sociedade ou o controle do poder?

A fé cristã é chamada a servir, testemunhar e buscar o bem comum. Quando a defesa da fé se transforma em instrumento de conquista e manutenção do poder, existe o risco de que o Evangelho seja subordinado a um projeto político.

A responsabilidade das organizações cristãs

É nesse ponto que o tema se torna especialmente relevante para as organizações filiadas à RENAS. As organizações cristãs atuam diretamente nas realidades onde as políticas públicas encontram as pessoas: na proteção de crianças e adolescentes, no acolhimento, no enfrentamento da pobreza, na defesa de direitos, na promoção da convivência familiar e comunitária, no cuidado com pessoas em situação de vulnerabilidade e em tantas outras frentes. Por isso, compreender democracia não é um exercício meramente acadêmico. É uma necessidade prática.

As organizações da rede precisam dialogar com diferentes setores da sociedade, estabelecer parcerias, participar da construção de políticas públicas, defender direitos e ocupar espaços de participação social. Para isso, precisam compreender que a democracia pressupõe pluralidade, negociação, limites ao poder e reconhecimento da legitimidade do outro.

A atuação cristã na esfera pública não pode depender da conquista de uma posição hegemônica. Ela precisa ser capaz de defender seus valores dentro de um espaço onde outras pessoas e organizações também possuem o direito de apresentar suas próprias convicções.

Isso exige maturidade política e espiritual.

Uma fé comprometida com a realidade

Outro desafio levantado durante a reunião diz respeito à desinformação e à criação de “universos paralelos” alimentados pelas redes digitais. Quando grupos passam a aceitar somente informações que confirmam suas convicções e rejeitam qualquer evidência contrária, o diálogo democrático se torna cada vez mais difícil.

Para Freston, enfrentar esse fenômeno também possui uma dimensão espiritual. A tradição cristã sempre esteve profundamente relacionada à busca pela verdade e à superação das ilusões. Por isso, verificar informações, questionar notícias falsas, reconhecer nossos próprios vieses e estar disposto a rever posições não são atitudes contrárias à fé. São, pelo contrário, expressões de responsabilidade cristã. A Igreja é chamada a amar a verdade.

“As nossas opiniões políticas, por mais convictos que a gente seja, nunca devem colocar nossas convicções políticas no mesmo nível das convicções básicas da fé”, relembra Freston.

E amar a verdade também significa reconhecer quando acreditamos em mentiras.

Um compromisso que permanece

A reunião de filiadas da RENAS deixou, portanto, uma provocação que ultrapassa o contexto eleitoral ou partidário. O desafio é pensar que tipo de presença pública a Igreja deseja exercer em uma sociedade democrática. Para as organizações filiadas à RENAS, esse discernimento é particularmente importante. Nossa atuação nasce da fé, mas acontece em uma sociedade plural. Somos chamados a defender a dignidade humana, promover justiça, fortalecer vínculos, proteger os mais vulneráveis e participar da construção do bem comum — sem perder de vista que fazemos isso ao lado de pessoas que podem pensar politicamente de maneira diferente.

Talvez um dos maiores testemunhos que a Igreja possa oferecer à democracia brasileira seja justamente este: mostrar que é possível discordar sem deixar de amar; defender convicções sem desumanizar; participar da política sem transformar o poder em ídolo; e permanecer unidos em Cristo sem exigir uniformidade política.

“A democracia não existe para garantir a vitória do nosso lado e nem da nossa visão da sociedade. A democracia existe para que seja possível a defesa continuada de várias visões da sociedade, inclusive a minha”, afirma Paul Freston. 

Em tempos de polarização, essa pode ser uma das expressões mais concretas de uma fé que não foge da realidade, mas entra nela para servir.

 

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