O BRASIL, A VIOLÊNCIA E A FAMÍLIA

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Nosso Brasil é um enigma! Conhecido e admirado mundialmente como país da paz e da “alegria de viver”, conseguimos ser ao mesmo tempo a mais violenta nação do mundo. Das 50 cidades mais violentas do mundo, ocupamos o 1º lugar com 17 das 50 cidades, na frente do México, que está em 2º lugar com 12 das 50 cidades. Nesta triste estatística, somos indiscutivelmente o campeão mundial, enquanto ao mesmo tempo somos reconhecidos como um dos povos mais hospitaleiros e alegres do mundo. Amamos fazer festa, mas nos aperfeiçoamos em fazer tragédia. Como começar a explicar isto?

O uso de bebida alcoólica não é responsável pela violência doméstica, mas é um dos maiores agravantes, e da mesma forma a desigualdade, a corrupção, a pobreza, falta de educação e outros fatores sociais, não são as causas responsáveis pela violência do Brasil, mas são agravantes significativos. É necessário reconhecer que um país dividido entre aqueles que têm (oportunidades), e aqueles que não têm (opções), provoca uma convivência insustentável. Se junta a isto, a despersonalização vista na sociedade moderna, onde as distâncias sociais e comunitárias facilitam cada vez mais o ressentimento, inibindo o diálogo e criando um cenário propicio a violência.

Mas, além disso, existem outros fatores determinantes que tem provocado uma cultura de violência na sociedade. Após mais de vinte anos de experiência pessoal convivendo diretamente tanto com pessoas que sofrem, quanto com as que cometem atos violentos, tenho chegado a algumas observações que demonstram um fator sempre prevalente: a quebra ou fragilização de vínculos familiares e de convivência familiar e comunitária. Tenho observado que enquanto a sociedade é cada vez mais violenta, acaba tornando um indivíduo suscetível à violência pela falta de afeto recebido, de pertencer, e de vínculos familiares e comunitários saudáveis.

A bandidagem

Os ditados populares afirmam que “lugar de bandido é na cadeia”, e que “bandido bom é o bandido morto”, mas a Palavra de Deus afirma que “Todos foram criados a imagem e semelhança de Deus”. Soa no mínimo incoerente a posição divina quando um cristão concorda com estas afirmações populares. Precisamos admitir que é necessário levar em consideração a revolta que a brutalidade dos atos violentos perpetrados pelos bandidos causam, e quem foi assaltado ou está entre os 60 milhões de brasileiros (do qual eu me incluo) que conhecem alguém que foi assassinado, tem a difícil tarefa de aplicar graça e misericórdia. Mas nestes dias onde uma porção aparentemente crescente da população, inclusive cristã, apoia medidas cada vez mais duras, até apoiando a segurança pública da nossa nação na exterminação e encarceramento em cadeias sub-humanas destes bandidos, necessitasse a construção de pensamentos sólidos a partir de uma reflexão Bíblica.

Ismael – “Ele está entre os homens como um jumento selvagem”

“A sua mão será contra todos, e a mão de todos, contra ele.” a Bíblia afirma. “Jumento Selvagem” me pareça uma boa descrição de um “bandido”, e as causas desta selvageria são evidentes numa leitura da história familiar do Ismael. Ele era o filho mais velho do Abraão, que apesar de ser “o pai de todos os que creem”, foi um péssimo exemplo de pai para Ismael. A violência se constitui onde há desigualdade de poder, e isto é bem visível na resultante violência doméstica dessa história real da antiguidade.

O poderoso casal Abraão e Sara tomou a decisão que Abraão iria engravidar sua escrava Agar, e assim a Bíblia conta: “Sarai, mulher de Abrão, tomou a Agar, egípcia, sua serva, e deu-a por mulher a Abrão, seu marido, ele a possuiu e ela concebeu.” Simples assim.

Bastante simples conseguir executar seu plano quando o direito do outro não é levado em consideração e você tem total poder sobre a outra. Logo após, os resultados se tornaram visíveis e o desprezo entre Sara (patroa, senhora) e Agar (sua serva), deteriorou os relacionamentos e ela não viu outra opção senão fugir, apesar de grávida, se colocando em risco de fome e outras vulnerabilidades.

Com Agar agora em “situação de rua” apareceu um anjo para oferecer consolo e orientação. Consistente com a maioria dos motivos de pessoas na atualidade que se sujeitam aos perigos de morar na rua, a grávida explicou que ela estava fugindo de uma situação familiar que não conseguiu lidar. O anjo sugeriu seu retorno para casa, sem prometer resolução ao conflito, mas falou: “Dê nome ao seu filho de Ismael, porque o Senhor ouviu seu sofrimento”.

O anjo confirmou que estas violações teriam consequências muito sérias, “Ele será como jumento selvagem; sua mão será contra todos e a mão de todos contra ele e ele viverá em hostilidade contra todos os seus irmãos”. Agar obedeceu ao anjo e voltou a casa onde Abraão criou Ismael como seu filho.

Passaram-se vários anos e quando o menino Ismael entra na adolescência, Sara engravida e Isaque nasce. O problema se apresenta porque Isaque é o filho legítimo, prometido e filho da esposa do Abrão. Não tem mais espaço na família para o filho do primeiro casamento e o casal toma medidas para resolver a situação.

Assim a violenta e cruel injustiça volta acontecer com Agar e Ismael. Gênesis 21 relata estas duras palavras da madrasta Sara: “Rejeita esta escrava e seu filho; porque o filho dessa escrava não será herdeiro com Isaque, meu filho”. Assim, Agar e Ismael, foram rejeitados e eles saíram “andando errante pelo deserto de Berseba”, moradores de rua novamente, vítimas de crueldade e rejeição.

Fica evidente que Ismael não se tornou revoltado por acaso e esta história se repete, centenas e milhares de vezes pelas ruas, bairros e cidades da nação brasileira todos os dias. Crianças rejeitadas por um novo relacionamento; crianças abandonadas; crianças da adoção brasileira; em situação de rua; crianças que assistem violência doméstica ou sofrem abuso físico, sexual ou psicológico; crianças que recebem castigos físicos cruéis e são desprezadas; crianças que nem conhecem sua própria história, o nome do seu pai ou sofrem alienação parental. Crianças e mais crianças.

Algumas destas crianças crescem, se revoltam, se tornam selvagens e mais cedo ou mais tarde podem ser intituladas de bandidos. Em algum ou alguns momentos da vida, uma pessoa que se entende como sendo abandonada, injustiçada ou desprotegida por sua família tem uma propensão a repetir a violência.

O papel da igreja

A igreja historicamente tem se autointitulada como defensora da família e uma instituição que promove a importância da família. O assunto família e a promoção de laços familiares saudáveis e fortalecidos é tão importante que todos que defendem esta causa e trabalham para este fim tem um papel importante.

Mas há compreensões atuais da igreja que são em muitos momentos equivocadas ou no mínimo bastante simplicistas. Basta um levantamento rápido de títulos sobre a família em qualquer livraria cristã, ou uma olhada nas imagens das capas dos títulos sobre a família, para enxergar uma visão unidimensional. A única família apoiada parece ser a “família margarina” composta pelo pai Abraão, mãe Sara e seu filho Isaac.

É necessário refletir que isto não é a experiência vivida pela maioria da população brasileira, e é desleal promover isto como a única e legítima composição familiar. Viver numa casa com mãe, pai, uma ou mais crianças e um cachorrinho bonitinho, pode ser um ideal feliz, mas é longe de ser a realidade da maioria das pessoas da nossa sociedade. Este modelo de família (que tem “bem-intencionados” incentivos partindo da igreja para beneficiar de forma privilegiada), pode até ser um ideal ou conteúdo de sonhos, mas não mais do que isto. A igreja precisa dialogar com a composição familiar como se apresenta no Brasil de hoje.

Atrás dos sorrisos aparentes da família projetada como perfeita na cultura cristã, em muitos momentos não há um relato honesto. Famílias são espaços de conflitos e a resolução destes conflitos de forma não violenta é o principal espaço de aprendizagem de convivência saudável. A igreja e sua liderança precisam comunicar uma mensagem mais verdadeira da convivência familiar. Todos os patriarcas da Bíblia e heróis como Samuel, Davi e Salomão tinham vidas familiares extremamente desafiadoras. A família deveria oferecer um espaço de conflito saudável para seus membros. Fazer apologia à ideia de famílias sem conflitos é fazer um desserviço que pode em parte ser o motivo do sentimento de ilusão com a família.

A questão principal não é aprovar ou não certo modelo de família, mas reforçar o papel fundamental da família na formação do indivíduo e da sociedade. É comum em famílias cristãs que uma criança nascida antes do casamento (ou até antes dos pais se converterem), não tenha o mesmo valor da que nasce depois do casamento. Onde se manifesta a doutrina de sermos todos e todas de igual valor diante de Deus? Será que a obra que Cristo faz numa família é somente cumprir os padrões sociais da família perfeita ou é resgatar e empoderar a família do jeito que ela se apresenta? “Vem como estais!”

É o grito que ouço do coração de Deus. “Deixem que os pequenos venham”, afirmou o Filho. Parece-me que em alguns momentos a igreja brasileira trava em poder admitir que a família pode se apresentar de várias formas.

A convivência familiar na base do afeto

O grande erro do Abraão e Sara, que resultou em consequências desastrosas para Ismael e Agar, foi acreditarem que os membros da sua família eram sua propriedade pessoal. A família compreendida a partir de laços de consanguinidade ou propriedade particular podem levar a muitos abusos e violações individuais. A igreja tem sido defensora deste modelo, na maioria das vezes sobre um temido ataque moral daqueles que lutam pelos direitos de relações afetivas baseadas na orientação sexual. Por nos colocarmos desta forma, temos sido hostilizados num debate de suma importância, que é o do fortalecimento da convivência familiar no Brasil.

Se pudéssemos ousar definir a família a partir de quem cuida, ou pela sua função, que é o cuidado, a proteção e principalmente o afeto, estaríamos alinhados com uma política pública das mais bonitas do Brasil: a política nacional de convivência familiar e comunitária de crianças e adolescentes. Esta política defende o direito constitucional da criança e adolescente a convivência familiar e comunitária (Artigo 227 da Constituição Federal Brasileira de 1988).

Por que a igreja tem tanta dificuldade em valorizar e construir diretrizes que garantem estes direitos? Precisamos valorizar os laços afetivos que Deus designou de se pertencer em lugar primordial, à família.

Se esta família é uma mãe adolescente perdendo aula para poder cuidar do seu bebê, vamos apoiar esta mãezinha. Se esta família é uma avó cuidando dos filhos da sua filha dependente química, vamos apoiá-la. Se a igreja abrir seus lares para as 10 mil crianças “não adotáveis” em acolhimento no Brasil faremos uma mudança social sem precedentes no país.

Atualmente, 75% das crianças acolhidas e aptas para adoção tem mais do que 8 anos de vida e, de fato, com raríssimas exceções, ela viverá o resto da sua vida numa instituição. Há quatro mil crianças e adolescentes em acolhimento no Brasil com alguma deficiência física ou mental. A igreja pode refletir sobre como apoiar e preparar famílias para adotar crianças com vivência de rua, experiência de abuso ou abandonadas por múltiplas deficiências.

Há tantas maneiras que a igreja pode atuar no fortalecimento de vínculos familiares e comunitários. Uma reflexão da igreja sobre as causas da violência, pode ser a maior contribuição para esta geração.

Vamos promover uma reflexão aprofundada sobre as soluções à violência brasileira na igreja? Este debate precisa começar pela compreensão da família.

Autor: Patrick James Reason

Inglês naturalizado brasileiro, Engenheiro e Teólogo. Articulador na Rede Evangélica Paranaense de Assistência Social – REPAS. Conselheiro suplente do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente. Fundador e gestor da OSC Encontro com Deus, que realiza o acolhimento de crianças e suas mães no município de Curitiba/PR. Conselheiro do CMDCA e Vice- Presidente do Conselho Municipal de Assistência Social em Curitiba. É secretário nacional do Movimento Nacional Pró Convivência Familiar e Comunitária. Participou na elaboração do diagnóstico da situação de crianças e adolescentes de Curitiba. Tem realizado várias palestras e contribuído na elaboração de políticas públicas no tema família, crianças e adolescentes no Brasil.

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