A lenha secou, Senhor!

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As mães continuam chorando seus filhos por mortes violentas e sem sentido! O Estado chama de ‘guerra ao tráfico’, mas, na verdade, a guerra é contra pais e mães que vivem ali tentando criar seus filhos!

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“Então os soldados levaram Jesus. No caminho, eles encontraram um homem chamado Simão, da cidade de Cirene, que vinha do campo. Agarraram Simão e o obrigaram a carregar a cruz, seguindo atrás de Jesus. Uma grande multidão o seguia. Nela havia algumas mulheres que choravam e se lamentavam por causa dele. Jesus virou-se para elas e disse: Mulheres de Jerusalém, não chorem por mim, mas por vocês e pelos seus filhos! Porque chegarão os dias em que todos vão dizer: ‘Felizes as mulheres que nunca tiveram filhos, que nunca deram à luz e que nunca amamentaram’. Chegará o tempo em que todos vão dizer às montanhas: ‘Caiam em cima de nós!’ Porque, se isso tudo é feito quando a lenha está verde, o que acontecerá, então, quando ela estiver seca?” (Lucas 23.26-31).

A lenha secou, como o Senhor previa! As mães continuam chorando seus filhos por mortes violentas e sem sentido! O Estado acredita que pode levar a paz para uma comunidade onde vivem famílias trabalhadoras por meio da guerra. Ele chama de ‘guerra ao tráfico’, mas, na verdade, a guerra é contra pais e mães que vivem ali tentando criar seus filhos!

A lenha secou, Senhor, pois o Estado deveria garantir escola de qualidade e posto de saúde com médicos e medicamentos; o Estado deveria garantir que o Eduardo de Jesus tivesse opções de desenvolver seus talentos no futebol ou em outro esporte qualquer, na música ou arte. Sim, Senhor, este Estado que foi constituído para proteger os mais fracos se tornou o assassino de crianças como o Eduardo de Jesus, de apenas 10 anos.

A lenha secou, Senhor, pois no Brasil criou-se uma falácia, uma mentira que o Senhor tanto condena: que as crianças, adolescentes e jovens são os responsáveis pela violência que atinge nossa sociedade. Veja, por exemplo, esses números: “Dos 21 milhões de adolescentes brasileiros, apenas 0,013% cometeu atos contra a vida. Na verdade, são eles, os adolescentes, que estão sendo assassinados sistematicamente. O Brasil é o segundo país no mundo em número absoluto de homicídios de adolescentes, atrás apenas da Nigéria. Hoje, os homicídios já representam 36,5% das causas de morte, por fatores externos, de adolescentes no país, enquanto para a população total correspondem a 4,8%. Mais de 33 mil brasileiros entre 12 e 18 anos foram assassinados entre 2006 e 2012. Se as condições atuais prevaleceram, outros 42 mil adolescentes poderão ser vítimas de homicídio entre 2013 e 2019 (Unicef).

A lenha secou, Senhor, pois a nossa sociedade escolhe quem deve morrer. Sim, desses números acima a grande maioria são crianças e jovens cheios de sonhos e esperanças de dias melhores, são negros e pobres que vivem em comunidades carentes e nas periferias das grandes cidades, como o Eduardo de Jesus. Esse Estado que colocou uma bala na cabeça do Eduardo de Jesus, fazendo-o agonizar na frente de sua mãe (assim como o Senhor agonizou na cruz diante da dele), não levou a Eduardo e seus amigos o que deveria: escola, saúde e lazer.

A lenha secou, Senhor, pois vivemos numa sociedade onde predomina a impunidade. Veja o Senhor que apenas 8% dos homicídios no Brasil são investigados e punidos. Em 92% dos casos eles não são solucionados, pois nosso sistema de investigação é falho e nossas polícias preferem usar a força indiscriminadamente, como no caso do Eduardo, a usar a inteligência e os recursos de apuração hoje existentes.

A lenha secou, Senhor, pois os parlamentares responsáveis por fazer leis, com a desculpa de dar satisfação a uma sociedade vingativa, preferem agir hipocritamente tentando rebaixar a maioridade penal, como se isso fosse resolver os problemas da violência. Pura falácia! Assim como no tempo do Senhor, em que as autoridades inventaram mentiras para condená-lo à morte, são todos mentirosos, filhos do pai da mentira, como o Senhor condenou abertamente em seu tempo de lenha verde! Na verdade, esses mesmos parlamentares fazem teatro para a sociedade para não tocarem nos reais problemas da criminalidade e impunidade no Brasil. Sim, Senhor, pois eles mesmos são acusados de crimes, gozam da impunidade que predomina em nossa sociedade e são acobertados por terem foro privilegiado (66% dos deputados da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania respondem por crimes na justiça).

A lenha secou, Senhor, pois assim como o povo manipulado pelas autoridades civis e religiosas da época pediram a sua crucificação, hoje a população cheia de ódio e desejo de vingança pede a crucificação dos jovens que cometem crimes, como se eles não tivessem o direito a uma nova oportunidade na vida!

A maldade contra o Senhor foi grande naqueles tempos onde a lenha estava verde. A lenha hoje secou, Senhor, e a maldade contra os inocentes virou consenso. As pessoas se julgam “do bem” ao desejarem a morte de inocentes. Por outro lado, nós, como evangélicos e cristãos, vivemos debaixo e a partir da graça salvadora de Deus revelada em Jesus Cristo. A partir de Jesus devemos olhar para todo ser humano (mesmo o “maior pecador”) com o olhar misericordioso e compassivo de Deus. Não existe ser humano perdido para Deus. Nossas igrejas estão cheias de homens e mulheres nos quais o mundo não acreditava mais, mas que foram resgatados pelo amor redentor de Deus em Jesus, pois o amor de Cristo foge completamente do padrão do mundo e sempre vê o outro como um ser digno e merecedor de uma nova oportunidade. Em se tratando de adolescentes e jovens até a idade de 18 anos, nossa esperança deveria ser ainda maior nesse ser humano.

Nesse tempo de lenha seca devemos clamar: “Que venha, pois, o Teu Reino, Senhor. Que a Tua vontade seja feita aqui na terra assim como é feita no Céu!”

— Welinton Pereira da Silva é casado com Meire, pais de dois jovens: Talitha e Asafhe. Welinton é pastor na Igreja Metodista na Asa Sul de Brasília e gerente de Relações Institucionais e Advocacy da ONG Visão Mundial. É um dos conselheiros da RENAS.

Legenda da foto: Terezinha Maria de Jesus, mãe do menino Eduardo de Jesus, 10 anos, morto na quinta-feira (2) atingido por uma bala perdida, participa de protesto no Complexo do Alemão (Tomaz Silva/Agência Brasil)

 

3 respostas para A lenha secou, Senhor!

  1. Vania Dutra disse:

    Ficou feliz por ler artigos como este. Deus abençoe. Meus queridos irmãos,!!!

  2. Antonia Rodrigues Peres Furtado disse:

    Quantos Eduardos,Douglas, Januário,Marquinho,Antonio,Wilson,O Filho que Maria nâo teve direito de enterrar nem de ver por ordens “superiores” e permanecer calada. As estatisticas, imprensa não revelaram pois não podemos contar o que aconteceu. A voz que silenciou o coração, no corpo as cicatrizes que não curaram e viraram doenças cronicas.
    que sejamos portadores dos silencio dos bons ,,,para que um dia eles despertem,
    Todos devemos se unir numa grande corrente de orar para a ação independente de cor, credo e religião Paraque a vida seja plena para todos…
    Que sejamos profetas anunciantes , e denunciantes de tudo que atenta contra a vida,
    que não se contentemos com migalhas do assistencialismo. e Passamos a exigir um Estado presente e eficiente.
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  3. Rosilene rodrigues disse:

    Ótimo artigo, estou começando a formar uma opinião a respeito da redução da maioridade penal…pois tudo que a midia nos oferece como base sao as reportagens de violencia cometida por adolescentes!!!Deus abençoe, que mais pessoas possam ter acesso a publiões como esta.

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