Compaixão e desigualdade

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Como muitos ideais, a equidade cria uma imagem tão exaltada que tende a deixar seus proponentes, na melhor das hipóteses, perplexos, se não desanimados ou até desesperados.

O cumprimento da promessa feita em Miquéias 4.4 “Mas assentar-se-á cada um debaixo da sua videira e debaixo da sua figueira, e não haverá quem os espante, porque a boca do SENHOR dos Exércitos o disse” define a justiça como uma realidade futura. A questão não é se o ideal é legítimo ou não. O problema é o que fazer em meio à realidade desigual que pregue e apresse o cumprimento da promessa.

Uma busca rápida do termo revela que equidade é um conceito que se refere, na maioria das vezes, ao futuro (veja Salmos 67:4; 75:2; 96:10; 98:9; e Isaías 11:4). O salmista e o profeta dão esperança para o necessitado de que o julgamento final será um julgamento igual para todos. Não haverá mais suborno. Os ricos responderão pelo muito que receberam e os pobres receberão o reino que lhes pertence (Lucas 6:20).

Mas em Jesus Cristo, o Reino dos Céus vem próximo de nós. Para os que estão nele, o Reino futuro dos céus se realiza por meio de nós ou até dentro de nós pelo seu reinado em nossos corações, cabeças e corpos. Neste caso, como devemos expressar a equidade que é o centro do seu trono eterno (Salmo 45:6) e o cetro do seu reinado (Hebreus 1:8)?

A economia foi um dos temas mais constantes do Senhor Jesus quando andou em nosso meio. Depois do Reino dos Céus (e muitas vezes junto a este), o foco mais comum no ensino do Senhor é o dinheiro, os pobres e os ricos. Sendo assim, é impossível alegar que a riqueza ou a justiça financeira não têm a ver com o Rei e o seu Reino que devemos buscar em primeiro lugar (Mateus 6:33).

A parábola do mordomo desonesto em Lucas 16 nos ensina que aquilo que é de grande valor para os homens não tem valor para Deus (v.15). O mordomo se encontra numa situação (inventada por Jesus para nos ensinar) temporária prestes a perder seu emprego. O mestre elogiou a prudência, mesmo que desonesta, do seu empregado em usar as riquezas da injustiça para ganhar amigos para que, quando tais riquezas faltassem, o recebessem estes nos tabernáculos eternos. Será que o Senhor quer dizer que o propósito dos recursos neste mundo temporário e desigual é de ganhar amigos eternos pelo seu meio?

Bem, parece que se Deus, representado pelo mestre na parábola, é o dono de tudo e dá para quem ele quiser abundância ou necessidade, posição ou servidão num mundo que logo cederá à eternidade. Ele deve ter um propósito. Sendo Ele amor (1 João 4:16) e vivendo entre nós (Colossenses 1:27), é mais do que lógico que o propósito da desigualdade seja a demonstração do seu amor por meio da doação do seu povo.

2 Coríntios 8:9 (NVI) diz: “Pois vocês conhecem a graça de nosso Senhor Jesus Cristo que, sendo rico, se fez pobre por amor de vocês, para que por meio de sua pobreza vocês se tornassem ricos.” Paulo escreve no contexto de incentivar os irmãos da igreja em Corinto a doarem dinheiro para suprir as necessidades da igreja em Jerusalém. Os seguidores de Jesus entendem que são chamados para andar como Ele andou. Cristo envia seus discípulos assim como o Pai enviou a Ele. (João 20:21)

Em seu livro “Justiça Generosa”, o Pastor Tim Keller diz:

“Se você tiver dinheiro, poder ou status hoje, é por causa do século e do lugar em que você nasceu, dos seus talentos, suas capacidades e sua saúde. Nenhum destes é comprado ou ganhado por mérito. Todos os seus recursos a final são uma dádiva de Deus. A falta de generosidade recusa reconhecer que os recursos não são nossos, mas de Deus.”

A compaixão que Deus deseja, para ser uma expressão do amor incondicional e espontâneo do Pai, do Filho e do Espírito Santo, necessariamente tem de ser voluntária. A operação Robin Hood exigido pelo governo federal numa tentativa desesperada de redistribuir recursos financeiros tirando de quem tem para dar ao que não tem, não cria o mesmo efeito e nem soluciona a desigualdade social. O padrão bíblico é que cada um dê conforme determinou em seu coração, não com pesar ou por obrigação, pois Deus ama quem dá com alegria.(2 Coríntios 9:7).

Como povo de Deus, somos chamados a dividir até o pouco que temos em amor com quem tem menos, para que Deus seja conhecido e glorificado em nosso meio e para que todos tenham o suficiente. Em 2 Coríntios 9:11, Paulo nos ensina o propósito da doação: “Vocês serão enriquecidos de todas as formas, para que possam ser generosos em qualquer ocasião e, por nosso intermédio, a sua generosidade resulte em ação de graças a Deus.”

Em seu livro “Compaixão”, Henri Nouwen escreve que existem duas poderosas forças contrárias operando no mundo e definindo cada um de nós. São a compaixão e a competição. A competição pisa nos demais para subir, a qualquer custo, a escada social segurando tudo que tem para que ninguém o apanhe. A compaixão olha para baixo aqueles que não têm o que nós temos e estende a mão com pedaços de pão e peixe do nosso pequeno ou grande lanche, e espera que o Senhor Jesus – do qual tudo procede, passa e termina – o multiplicará para o suprimento abundante da necessidade de todos. A compaixão, enfim, é o propósito da desigualdade.

• Thomas Smoak é missionário da Missão Action em São Paulo (SP). Faz parte da RENAS SP.

2 respostas para Compaixão e desigualdade

  1. Renato disse:

    Socialistas travestidos de evangélicos, por que vocês não condenam Cuba, Coreía do Norte e China?

    • Thomas disse:

      Estimado Renato. Obrigado pelo comentário e pergunta (se é que foi uma pergunta não retórica). Acabo de voltar de outra viagem para Cuba onde a igreja de Jesus Cristo está viva e crescendo mesmo sob as dificuldades do regime atual de poder e opressão. O propósito deste espaço (e de qualquer conversa Cristo-centrica) não é a condenação do mundo e sim a salvação deste do egoísmo e do orgulho. Teria prazer em conversar com vc se é que lhe interessa.

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