Natal: o abraço de Deus

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No poema sagrado que narra o gênese do mundo, Deus estabelece um jardim-pomar com todos os tipos de plantas, árvores, flores e frutos. Coloca nele os animais e, finalmente, cria o homem e a mulher. Tudo em perfeito equilíbrio ambiental, social-relacional e espiritual.

Um dos prazeres diários do Criador era passear pelo jardim e visitar os seres humanos num encontro fraterno que valia como um abraço materno. Assim, os efêmeros seres criados eram alcançados pelo braço terno e paterno do Deus Eterno. A plenitude e a sacralidade da vida estavam garantidas.

Com a desobediência humana ao projeto estabelecido no Éden, as consequências para toda a criação foram nefastas e generalizadas. Adão e Eva criaram o problema. Deus planejou a solução. Prometeu enviar seu próprio Filho para salvar a humanidade de toda essa desgraça que é a separação e a inimizade da criatura com o Criador.

Deus vira criança
Na plenitude dos tempos, a promessa antiga se cumpriu, e de uma forma belamente desconcertante: Deus virou criança e abraçou efetivamente toda humanidade. Ele poderia ter vindo como um Adão já adulto e com muitas identificações “valorizadas”, como um monarca, um filósofo, um militar, um homem rico. Mas o Deus Todo-Poderoso veio simples, humilde, frágil e pobre. Nasceu como um bebê! Neste gesto carregado de símbolo pedagógico, temos o abraço terno do Eterno que alcança e acolhe a todos, a partir dos mais desumanizados: mulheres e jovens, conforme tipificados na pessoa de Maria de Nazaré; trabalhadores empobrecidos, como os pastores dos campos de Belém; viúvas e idosos, segundo os exemplos de Ana, Simeão e, possivelmente, o próprio pai adotivo José. A ordem de Deus questiona e irrompe contra toda a desordem humana. A partir, sobretudo, de uma virgem que fica grávida pelo amor e do amor de Deus.

O nascimento de Jesus, em toda sua simplicidade, poderia ter passado despercebido, porque pobre só é notícia, geralmente, quando é alvo de incriminação. Os anjos celestiais anunciaram a boa notícia aos pastores, mas isso não repercutiu entre os rabis, os governantes e os meios de comunicação da Judeia. Foi somente com a manifestação dos sábios do Oriente que Herodes e toda Jerusalém ficaram sabendo do nascimento do verdadeiro rei que alvoroçou a cidade, desencadeando uma ação insana do braço armado do Estado, cujo chefe ensandecido pelo poder, perpetrou a morte de dois mil meninos na tentativa de aniquilar a vida do menino-Salvador.

O Deus que virou criança foi rejeitado por aqueles que deveriam preferencialmente tê-lo acolhido (Jo 1.11). Mas, a despeito de tudo isso, de nossa baixeza, Ele deixou a glória transcendente por amor imanente, tangencial, relacional a todos nós. Apesar de nós. Ou melhor, por causa de nós. Apesar de termos cruzado os braços e o rechaçado, ele abriu os braços num abraço afetuoso e libertador a todos nós.

Esta é a natureza de Deus. Isto é o Natal. O Messias está conosco!

Celebremos o nascimento de Cristo, buscando fazer do mundo um jardim-pomar, onde todos possam desfrutar, com equidade, de sustento digno, de espaço aprazível, de relações humanizadas e felizes; enfim, da redenção de Deus, que é o melhor e mais eterno abraço.

Alcance aos outros com o abraço de Deus e promova-desfrute de um efetivo e verdadeiro “feliz natal”!

— Clemir Fernandes é sociólogo, pesquisador do ISER (Instituto de Estudos da Religião) e pastor batista. É um dos conselheiros da RENAS.

Ilustração: Marcelo Bittencourt

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