A dimensão social na identidade metodista

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O metodismo não foi, segundo o bispo argentino Sante Uberto Barbieri, uma nova forma eclesiástica. Foi um movimento de renovação espiritual, ao que cita uma estrofe da poesia de Carlos Wesley: “Não anelamos morar em túmulos, nem nas escuras celas monásticas, relegados por votos e barrotes. A todos, livremente, nos oferecemos, constrangidos pelo amor de Jesus, a viver quais servos da humanidade”. 

Em seu pequeno livreto intitulado “Aspectos do metodismo histórico”, o referido bispo nos recorda que este desejo de servir à humanidade surgiu na Inglaterra do século 18, quando o Cristianismo, em todas as suas denominações, definhava por esterilidade e estava impotente diante da sociedade. Ao invés de influenciar, o Cristianismo estava sendo influenciado, de maneira alarmante, pela apatia religiosa e pela degeneração moral.

Movimento subversivo – Ainda segundo o bispo metodista argentino, era proibido por lei pregar fora dos lugares consagrados para essa finalidade. Mesmo no interior das casas, os ofícios religiosos deveriam ser feitos na Igreja Anglicana. Mas João Wesley e os metodistas que não formavam uma igreja – eram gente religiosa de todo tipo e de qualquer confissão religiosa – reuniam-se em qualquer lugar que fosse ou não consagrado. Por essa razão, afirma Barbiere, até o princípio do século 19, os metodistas tiveram sérios problemas com a justiça. Muitos foram parar nas cadeias por não poderem pagar as multas.

Dignidade humana – Seguindo o pensamento de nosso bispo argentino, Wesley viveu antes da revolução industrial, quando ainda não se tinha consciência de respeito humano, de maneira que deve-se creditar aos primeiros metodistas a semente da ideia da dignidade humana, mas também o interesse pelo sofrimento humano, a insistência numa religião de socorro aos indigentes, aos enfermos e aos desgraçados. Segundo o autor, este interesse não era panaceia passageira, mas sim, dever de cada dia, cada hora, uma inquietação incessante para com o bem estar do próximo.

Economia e finanças – No campo das finanças, Wesley recomenda: “De toda a maneira que te seja dada, emprega tudo o que Deus te confiou para fazer o bem aos da família da fé e a todos os seres humanos. De tudo o que tens e tudo quanto és, oferece. Qual sacrifício vivo ao Senhor que não deixou de te dar no Seu filho, o Seu único filho” (do sermão sobre o uso do dinheiro). Segundo o autor, nas Regras Gerais das Sociedades Unidas, já se nota claramente a preocupação social prática que os seus integrantes deviam ­alimentar.

Desafios para o tempo presente – Como nos tempos de Wesley e do surgimento do movimento metodista, os desafios sociais são muitos, a questão econômica continua sobrepondo a questão humana, mas temos uma grande diferença em nosso tempo: os caminhos já estão dados, não precisamos inventar a roda novamente. Sabemos os meios para erradicar vários dos problemas que afligem nossa sociedade. Sabemos, por exemplo, que a pobreza de muitos não é por causa da preguiça ou algum tipo de maldição, e sim por causa do acúmulo da riqueza por alguns. Sabemos que muitos passam fome, não porque não há comida suficiente para todos, e sim por causa da ganância das grandes corporações transnacionais que controlam a produção e distribuição de alimento no mundo visando o lucro de seus acionistas em detrimento da vida humana.

Sabemos que muitos morrem de doenças facilmente evitáveis, mas os medicamentos não estão acessíveis a todos. Esses são alguns dos muitos desafios postos para a pastoral de nossas igrejas no tempo de hoje.

Vale citar o grande esforço que Organizações da Sociedade Civil (OSC) e governos estão fazendo com vistas a um mundo melhor, e creio que as metas do milênio poderiam ser de nossas igrejas, como forma de sermos fiéis à nossa herança missionária e identidade metodista. A preocupação e responsabilidade do metodista para com a questão social não é uma opção, e sim algo inerente ao ser metodista e parte de nosso DNA.

O Plano para a Vida e Missão da Igreja é muito atual quando afirma: “Na realização do trabalho de Deus, a Igreja Metodista reconhece grandes necessidades que são desafios da missão.”

Há necessidade de conhecer a Igreja, especialmente a Igreja local, descobrir suas possibilidades e seus dons, e valorizar seus ministérios para a participação total do povo na missão de Deus. Há necessidade de apoiar todas as iniciativas que preservem e valorizem a vida humana.

Há necessidade de conhecer o bairro, a cidade, o campo, o país, o continente, o mundo e os acontecimentos que os envolvem, por que e como ocorrem e suas consequências. Isso inclui conhecer a maneira como as pessoas vivem e se organizam, são governadas e participam politicamente, e como isso pode ajudar ou atrapalhar a manifestação da vida abundante.

O sociólogo Betinho, idealizador da famosa campanha: “Ação da Cidadania Contra a Fome a Miséria e Pela Vida” dizia: “Agir localmente e pensar globalmente”. Como Igreja, temos a oportunidade de praticarmos essa ação nos diversos bairros e cidades onde estamos inseridos e fazermos diferença em nosso país.

Termino esta reflexão retomando o texto de nosso bispo argentino Barbieri: “João Wesley e os metodistas de sua época eram, ao mesmo tempo, de um certo misticismo prático e de uma ação social ativa. Dependiam muito, tanto na ordem pessoal como na congregacional, da assistência e orientação do Espírito Santo, do qual sentiam-se agentes e responsáveis ao darem o seu testemunho. Do céu pediam a direção para atuar acertadamente na terra”.

Que Deus, em Sua infinita sabedoria e graça, nos guie no tempo de hoje
para seguirmos na direção certa em nossa ação missionária e social na realidade de nosso país.

• Welinton Pereira da Silva é pastor metodista, conselheiro da RENAS e assessor sênior de relações institucionais da ONG Visão Mundial.

Nota: artigo publicado originalmente no jornal Expositor Cristão.

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