Educação é solução?

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Sem dúvida, a educação é importante, mas adiar a ação concreta alegando que a prioridade é a educação é um equívoco idealista. O pior: significa uma traição às vítimas e aos vulneráveis de nossa sociedade. Leia a reflexão de Werner Fuchs ***

“O reino dos céus é comparável a um comerciante que procurava pérolas finas. Tendo encontrado uma pérola de grande valor, foi vender tudo o que tinha e comprou-a” (Mateus 13.45s – TEB).

Em diversos contextos de combate às mazelas sociopolíticas em nosso país deparamo-nos com a afirmação de que a chave para superá-las é a educação. Essa afirmação surge tanto em discursos eleitorais quanto em organizações comprometidas com a promoção humana e transformação social.

Entre os argumentos encontra-se a afirmação de que lidando com a educação estamos preparando o futuro da nação. Sem dúvida a educação é importante, seja como ensino formal, seja como formação ou capacitação feita por organizações seculares ou cristãs para sua ação específica. Afinal, a educação é um direito humano e dever do Estado, assegurado na Constituição Federal. Por ser obrigatória para o gestor público sequer deveria ser tema de promessa eleitoral. E capacitações específicas visam assegurar melhor preparo de atores sociais e maior eficácia no enfrentamento de uma realidade.

Entretanto, quando se coloca a relevância da educação no mesmo patamar das ações diretas de defesa de direitos e de transformação social, acontecem pelo menos dois equívocos. O primeiro é ignorar que a educação se situa no campo das mediações, é atividade-meio, não uma ação final direta. Pois na luta por transformação social distinguem-se três níveis:

1) ações na base (conscientização, mobilização, pressão sobre gestores públicos, construção de soluções pelo protagonismo popular);

2) mediações (educação, comunicação, fóruns, conferências, conselhos de controle de políticas);

3) construção de nova institucionalidade (leis, programas de governo, políticas públicas).

Portanto, adiar a ação concreta alegando que a prioridade é a educação significa uma traição às vítimas e aos vulneráveis de nossa sociedade. No máximo se pode conceber uma educação em paralelo à ação direta. Exemplo disso é o MST (Movimento dos Agricultores Sem Terra) que nos 30 anos de luta por reforma agrária alfabetizou mais adultos que qualquer órgão de governo e hoje possui milhares de integrantes com pós-graduação.

O segundo equívoco é mais grave, por desconsiderar que os maiores corruptos são os que tiveram educação excelente. Logo, a questão é: De que educação estamos falando? Uma educação capaz de coibir corrupção, desmandos, oportunismo, clientelismo, etc.? Mas então já não falamos de conhecimentos e capacidades, mas de princípios e valores, acreditando que é possível ensiná-los. Mas valores não se ensinam, valores se cultivam! Como flores no jardim. São objeto de cuidado repetido e permanente. Por exemplo, de nada adianta dar uma bela aula sobre amizade e não se dispor a ser amigo dos alunos. Convivência semeia mais que conferência. Engajamento na luta vale mais que discurso inflamado. Belas palavras sobre justiça não convencem quando a pessoa tem medo de protestar na rua. Igrejas estão cheias de gente que aprendeu tudo sobre a fé, mas não faz mais que esquentar bancos. Aprovamos extensos documentos que não saem do papel. E todo ambientalista sabe que educação ambiental sem ação ambiental não é educação ambiental.

Portanto, muitas organizações, embora tenham o bom propósito de lutar por soluções, de fato ainda fazem parte do problema. Filosoficamente são reféns do idealismo, acreditando que uma ideia bem colocada já causa transformação. É o que Marx diagnosticou nas onze teses sobre Feuerbach (1845):

Até então “os filósofos se limitaram a interpretar o mundo de diversas maneiras, mas o que importa é transformá-lo”. Ademais os defensores da prioridade da educação carecem de capacidade crítica, algo elementar para toda boa educação. Voltando aos corruptos que usufruíram de boa educação: Vinte e cinco vezes maior que a corrupção nos países em desenvolvimento é a transferência ilícita de seus capitais e sua ocultação em paraísos fiscais, de modo que os países mais corruptos são, pela ordem:

Reino Unido, Suíça, Luxemburgo, Hong Kong, Singapura, Estados Unidos, Líbano, Alemanha, Japão Valores de verdade, tais como o próprio reino de Deus, levam a mudanças de atitude. A pessoa empenha tudo por eles. E atitudes afetam os relacionamentos, influem sobre a sociedade. Que valores você está cultivando no dia-a-dia? Você considera válido organizar o povo contra a falta de valores?

• Werner Fuchs é pastor da Igreja Evangélica Luterana no Brasil (IECLB) e conselheiro titular da RENAS no CONSEA (Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional).

Crédito da foto: Agência Brasil.

3 respostas para Educação é solução?

  1. Fábio Arcenio Neto disse:

    Valores: o ponto chave. Somos cada vez mais egoístas, hedonistas. Estamos sendo destruídos por uma sociedade cada vez mais consumista. Ter e não ser. De certo que seria o grande caminho: uma grande marcha, independente do credo, etnia e origem social, todos unidos contra a falta de valores : amor ( tolerância, abnegação,solidariedade, desprendimento material entre outros valores) e justiça. Realmente precisam ser cultivados.

  2. Yara Regina disse:

    Pastor eu concordo com o Sr quanto a importância do reino de Deus, realmente o conhecimento e prática da Palavra de Deus é o que realmente tem o poder para transformar o ser humano. Entranto, entendo que a educação tem um papel muito importante e quanto aos países mais corruptos não são esses elencados e sim Somália, Coréia do Norte, Afeganistão, Sudão e Sudão do Sul, são estes apontados em diversas pesquisas, como por exemplo, a publicada no site da revista infomoney. Diante desse ranking percebemos que em países que têm menos investimentos em educação maior é a corrupção.

    • Yara Regina disse:

      Concordo também com o senhor que os paraisos fiscais é também uma cruel forma de corrupção visto que a renda deixa de ser distribuída como deveria, favorecendo desta forma a desigualdade social. Por isso, reitero, o Reino do Céu e o bem mais precioso e somente através dele podemos transformar esse mundo tão desigual. Deus te abençoe!

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