O que acontece quando oramos à mesa

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“Agora eu os aconselho a comerem algo, pois só assim poderão sobreviver. Nenhum de vocês perderá um fio de cabelo sequer. Tendo dito isso, Paulo tomou pão e deu graças a Deus diante de todos. Então o partiu e começou a comer. Todos se reanimaram e também comeram algo”. Atos 27.34-36.

Palavra de Deus é acontecimento. A falação somos nós que fazemos. Como acontecimento, a fala-ação de Deus nos surpreende e constrange (Amós 3.8; 2 Coríntios 5.14s).

Era 2003, e o presidente Lula acabava de lançar o programa Fome Zero. De férias na praia, acordei certa manhã mais cedo, com uma ideia muito clara na mente. Levantei e a anotei na agenda. Mais tarde, quando minha esposa acordou, eu disse: “Tive uma revelação”.

Ela não deu muita atenção, talvez porque ainda estivesse sonolenta. Somente uns dias depois ela perguntou: “Que revelação foi aquela? Você nunca tem revelações!”

Expliquei que, na verdade, se tratava de várias ideias conhecidas e valorizadas durante a vida, que de repente se uniram e começaram a brilhar com força. Anotei que quando oramos à mesa acontecem duas coisas: 1) Realmente nos sentimos agradecidos pelos meios com que o alimento chegou a nós, e 2) A bênção de Deus retira esse alimento do mercado, da lei da oferta e da procura, e nos liberta para partilhar com outros.

Explicando: Admitimos que, embora tenhamos de batalhar pelo pão, é Deus quem nos proporciona todo o necessário para a vida: “Que tens tu que não o tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te vanglorias como se não o tiveras recebido?” (1 Coríntios 4.7).

Abençoar é santificar (separar para Deus), a fim de que sejam trazidos frutos para ele. O verbo grego “eucharistein, à semelhança do termo latino “benedictio, significa as duas coisas: dar graças e bendizer (abençoar). Nos tempos bíblicos o gesto durante a oração era de levantar, alçar o pão. Significa que o alimento não é – ou não é mais – uma mercadoria. É erguido para uma esfera fora e acima do modo capitalista de produzir e vender, merecer e pagar, explorar e desperdiçar. É uma esfera de sustentabilidade, confiança e comunhão para a qual somos trazidos. O pão é santificado, isto é, separado para que nos beneficie gratuitamente e para nós rendermos frutos de gratidão a Deus quando o repartimos livremente com os famintos de acordo com a vontade dele. Não seria chocante, um sacrilégio, convidar um velho amigo para o almoço e depois cobrar pela refeição? A liberdade de partilhar é um privilégio que não deveríamos desprezar.

Essa “revelação” sobre agradecer pelo alimento, muito semelhante a dos discípulos de Emaús (Lucas 24.30), me acompanha há anos, aflorando sempre de novo nos debates em torno da construção de políticas públicas de segurança e soberania alimentar decorrentes de um direito humano fundamental. Você reconhece outras consequências da oração à mesa? Que outras coisas na vida estão fora da economia de mercado e pertencem à economia do Reino? Deus, com certeza, deseja abençoar a todos com abundância.


• Werner Fuchs
 é pastor da Igreja Evangélica Luterana no Brasil (IECLB) e conselheiro titular da RENAS no CONSEA (Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional).

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