Uma reflexão teológica sobre agricultura agroecológica

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“Nossa água, bebemo-la a troco de dinheiro, nossos feixes de lenha vêm sob pagamento” (Lamentações 5.4 – TEB)

No princípio houve a experiência de libertação do povo, coletiva e pessoal. Deus ouviu o clamor do oprimido e interveio na história, mostrando o caminho para a liberdade, justiça social e harmonia com todos. Demorou certo tempo até que o povo de Deus formulasse essa experiência em palavras e em guia para a convivência. Demorou mais tempo para entender que o Deus amoroso e libertador é quem fez existir todas as coisas e seres.

Se Deus tem poder de transformar o mar em terra seca para os hebreus aflitos passarem, ele também merece ser louvado por todas as nações e pela natureza (Salmos 66; 104). Deus é o Criador do jardim em que vivemos e do qual devemos cuidar. Ele fez o universo e formou os humanos à sua imagem para serem seu estandarte na terra e agirem de acordo com o propósito divino de preservação. O sopro carinhoso de Deus nas narinas do ser humano revela que a prioridade de Deus é o relacionamento.

O propósito de Deus é a bondade. Todas as coisas e seres são muito bons quando estão unidos a ele e em harmonia uns com os outros, não importa que imperfeições possam ter. E são maus quando divorciados dele e em desarmonia com sua criação, não importa como aprazíveis e perfeitos possam parecer. Deus alimenta a humanidade, enviando a luz do sol e a chuva para o sustento do justo e do injusto (Mateus 5.45). Até mesmo quando a criação anseia e geme por libertação, e nós com ela, o Espírito de Deus está do nosso lado (Romanos 8.19-23). Não é bom estar separado de Deus nesse empenho de cuidar e preservar.

A bondade cai por terra quando a vida é violada. Então o sangue dos esmagados clama do solo a Deus. Noé compreendeu que as iniquidades social e moral ofendem o Criador e causam sofrimento ao meio ambiente. Desenvolveu um jeito original de salvar a biodiversidade. Depois que Noé agradeceu pela preservação, Deus pôs de lado seu arco de guerra na forma do arco-íris no céu, prometendo que, embora os seres humanos ponham em risco tanto a criação como a si mesmos, ele não permitirá que a criação e sua ordem natural sejam destruídas ou que as criaturas vivas sejam punidas por causa dos pensamentos maus e do caos social da humanidade arrogante. A clemência e paciência sustentadora de Deus são experimentadas na incompreensível complexidade, generosidade e resiliência da ordem natural apesar de pecado humano, enquanto a terra durar.

Entretanto, a teologia da criação sozinha não foi eficiente nem suficiente para compromissar o cristianismo com a proteção de nosso planeta contra a depredação. É demasiado frequente que o estuprador faz a vítima se sentir culpada do abuso sofrido. Da mesma maneira, em nosso sistema econômico a natureza é menosprezada em sua dignidade, sua santidade, de forma que explorar infinitamente seus recursos é presumido como normal e bom. Quando você pede emprestado algo, espera-se que o devolva em boas condições, mas ao planeta devolvemos lixo e poluição.

Aplaudem-se e encorajam-se o consumismo e o desperdício. A terra é depreciada como mera externalidade da produção agrícola, não como mãe terra da qual toda a humanidade depende. E prosperidade individual em contraposição à miséria social é distorcida até mesmo como sendo bênção de Deus.

A única maneira de superar essas atitudes e políticas erradas é retornar à relação primária com Deus em que experimentamos libertação e reconciliação com ele e com a criação. Deus amou o mundo tanto que enviou Jesus para servir e sofrer por reconciliação e vida abundante, para que pudéssemos aprender a amar e servir uns aos outros (João 13.34). Após vencer a tentação de Satanás, Jesus esteve em harmonia com Deus (anjos o serviram) e também com a criação (estava com os animais selvagens) (Marco 1.13).

Quando experimentamos que Deus fala conosco com carinho e que ele sofre quando suas criaturas sofrem, sentimo-nos desafiados e somos libertados para sermos parceiros de Deus em seu projeto do reino de justiça social e ambiental. Quando percebemos a intensidade da intervenção de Deus na história somos conduzidos à crítica da sociedade e ao compromisso da transformação. Então lutamos contra o abuso do inocente e fraco, bem como contra o sistema que subordina tudo à economia de mercado, reduzindo patrimônios naturais como terra, água e energia a meras commodities para o benefício de poucos. Denunciamos soluções falsas e monopolísticas e nos comprometemos com uma economia solidária e com métodos saudáveis de agricultura.

Para a agroecologia os aspectos sociais e ambientais estão interligados. Quando alguém não respeita o ser humano na terra, ele menospreza o ambiente e desumaniza a si próprio. Logo cuidamos do jardim por causa de nós mesmos, por causa da coerência com nossa natureza humana, e por causa de nossa condição privilegiada como interlocutores amados de Deus.

Vida abundante sempre é vida partilhada com outros, empoderando o empobrecido e fortalecendo o fraco, como Jesus fez e prometeu a todos. Porque quebrar uma cana rachada, extinguir um pavio que fumega e expropriar a verdade e a justiça não somente é contrário à natureza humana, mas principalmente contrário ao caráter de Deus (Isaías 42.3; Mateus 12.20).

Portanto a agroecologia não é somente um método de agricultura sustentável, mas também uma crítica ao sistema econômico e aos interesses dominantes. Baseia-se na partilha gratuita de conhecimento e recursos, como as sementes crioulas, bem como em relações respeitosas de gênero e idade. Reconhece os malefícios da “revolução verde” na agricultura mundial, em que uma tecnologia de dominação com maquinário e agroquímicos destrói a agricultura tradicional e a biodiversidade, alegando uma pretensa produtividade superior. E denuncia o agronegócio insustentável de hoje que obriga os cidadãos a comerem “nossa dose diária de veneno” e propagandeia a manipulação genética como solução para a crise alimentar.

Quanto à produtividade, há muitos exemplos de agricultura agroecológica tradicional e moderna com rendimentos superiores aos da agricultura agroquímica. As pessoas também ignoram que o alimento agroecológico não é apenas livre de substâncias tóxicas e cancerígenas, mas que também possui uma qualidade nutricional superior.

A definição legal do Brasil de alimentação saudável como baseada na agroecologia e na biodiversidade vem sendo aceita cada vez mais, e o movimento de agricultores e consumidores agroecológicos cresce rapidamente. Porém existe uma grande carência de políticas adequadas que favoreçam a agroecologia e não o agronegócio, que permitam áreas contíguas maiores livres de agrotóxicos, que favoreçam ao máximo a produção e o processamento de alimentos em propriedades familiares, e que organizem a troca e a comercialização em rotas curtas e com base no comércio justo. Isso requer tanto uma maior articulação nas bases como mais pressão sobre estruturas de poder.

A reflexão bíblica e ética tem de respaldar esses esforços, visto que nem o compromisso cristão em favor da ecojustiça e da equidade social nem nosso planeta em gemidos podem esperar por uma “Rio+40”. Para que o universo possa louvar o Criador com alegria, rogamos (com o Salmo 104.30): “Envia teu Espírito, Senhor, e renova a face da terra!”

• Werner Fuchs é pastor da Igreja Evangélica Luterana no Brasil (IECLB) e conselheiro-suplente da RENAS no CONSEA (Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional).

Nota:
Texto publicado originalmente em inglês para “Ecumenical Advocacy Aliance” (maio de 2012). Leia aqui.

Uma resposta para Uma reflexão teológica sobre agricultura agroecológica

  1. Jorge Pardim disse:

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