Mais do que comer. Viver

Comente!

Pouco se reflete sobre o lugar da alimentação na vida ou mesmo sobre o modo de viver para conseguir o acesso à alimentação. As sociedades atuais vivem de forma frenética atrás do aumento da renda e do lucro e se afastam dos reais valores do desenvolvimento humano. De fato, o estilo de vida saudável poderia prolongar a vida, no entanto, vale refletir sobre que estilo de vida se deseja prolongar.

Um dos maiores problemas que afeta a saúde da população na atualidade é a obesidade. Parte desse fenômeno pode ser explicada pelo aumento da disponibilidade de alimentos energéticos de baixo custo — os famosos “fast food” ou “junk food”. Num contexto de pobreza isto agrava os riscos de crescimento do número de obesos, cuja probabilidade de resposta é menor, frente a sua condição de saúde e bem estar individual. Para fazer oposição a esta tendência é urgente:

1. Estimular a agricultura familiar, hoje responsável por 70% dos alimentos “in natura” que vão para as mesas dos brasileiros;
2. Providenciar mecanismos mais equânimes de acesso dos mais pobres aos alimentos saudáveis.

O saber culinário dentro da perspectiva da vida, também é fundamental para garantir o bom uso dos alimentos saudáveis. O que vem ocorrendo, no entanto, é um afastamento das práticas de preparo de alimentos saudáveis e o maior uso de alimentos extremamente processados, quase prontos, ou já definitivamente prontos para o consumo como alternativa à falta de tempo para a atividade na cozinha. O estilo de vida frenético leva as pessoas a ter menos disposição para o autocuidado com a alimentação. Mudar de perspectiva de vida ou fazer da alimentação um ato reflexivo poderia fazer da cozinha um espaço do resgate de uma identidade alimentar mais saudável e ainda da culinária considerada mais tradicional no contexto das famílias ou dos grupos sociais — questões a serem evocadas para um modo de vida mais saudável.

É necessário reencontrar o sentido da alimentação para a vida e o seu promissor papel transformador da realidade social. O bem viver aponta ainda a necessidade de se enfrentar o contexto da vida sedentária moderna, ora justificada pela carga excessiva de trabalho, ora pela baixa oportunidade de realizar atividades físicas em espaços públicos seguros, e por vezes, também, imposta pelas modificações relacionadas às tecnologias poupadoras de esforço físico em atividades diárias.

A vida parece confusa, virada ao avesso da lógica do que é viver uma vida plena. Muitos atribuem à educação alimentar e nutricional a maior resposta ao enfrentamento da obesidade, no entanto não podemos dizer que o problema está apenas na ausência de informações nutricionais sobre os alimentos e seu conteúdo calórico ou ao gasto energético. É necessário entender a alimentação em sua concepção política, econômica, social, cultural, em todo o sistema alimentar e ainda entender como a alimentação também pode afetar as desigualdades nas cidades e no campo.

Nessa abordagem, a alimentação possibilita o desenvolvimento humano e nos faz lembrar que o Direito Humano à Alimentação Adequada (DHAA) passa a ser mandatório de outro “status” de vida. No entanto, o ato da alimentação ligada ao contexto do DHAA, recoloca a questão social do ato do comer em sociedade. Nem todos comem da mesma forma no Brasil.

É necessário construir espaços do pensar e do fazer político da alimentação como uma nova perspectiva para a vida e para o Direito Humano à Alimentação Adequada. Esses espaços devem conter a ideia da responsabilidade social relacionada à sustentabilidade social, ambiental e econômica, pois o DHAA representa a garantia universal de acesso a alimentos básicos de qualidade e em quantidade suficiente, de modo permanente e sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais. Assim, a vida possuirá uma rica possibilidade de resgatar a gramática social da alimentação saudável.

____________________
Daniela Sanches Frozi é nutricionista formada pela UFRJ, mestre em nutrição pela UNICAMP e doutora em nutrição pela UFRJ. Ela também é representante da RENAS no Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA). Escreve mensalmente para o site da RENAS.

Nota:
Texto adaptado do artigo publicado na revista do SESI, de junho de 2013.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *