A vida, ainda que severina

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“O meu nome é Severino, / não tenho outro de pia” – assim começa um dos poemas mais conhecidos e celebrados da carreira do escritor brasileiro João Cabral de Melo Neto. “Morte e Vida Severina – auto de Natal pernambucano” é uma obra cheia de ironias e paradoxos, um auto de Natal cujo foco central parece ser a morte que brota por todos os lados; uma obra de gênero dramático geralmente religioso escrita por um autor que se confessa ateu. 

Apesar de sua aparente aridez, que se confunde com a aridez do sertão nordestino e todas as mazelas sociais que a acompanham, a obra de João Cabral está impregnada de um senso difuso do sagrado, algo que Waldecy Tenório observa com tenacidade em seu livro “A Bailadora Andaluza: a explosão do sagrado na poesia de João Cabral”. O texto contém várias alusões a passagens e imagens das Escrituras e apresenta uma terra em que “são todos irmãos, / de leite, de lama, de ar” (como bem celebra o Salmo 133). A solidariedade entre os pobres é uma constante na obra, bem como o tom profético da denúncia às injustiças da sociedade brasileira.

“Morte e Vida Severina” descreve a trajetória de Severino, que parte de Nazaré da Mata, no sertão pernambucano, e vai em direção a Recife. Em seu caminho, encontra muita gente: “dois homens carregando um defunto numa rede”, pessoas velando outro morto numa casa, uma mulher com quem conversa, trabalhadores sepultando um companheiro, dois coveiros e José, um dos moradores de um mocambo no cais do rio Capibaribe.

A obra mostra a tênue fronteira que há entre o desespero e a esperança. Quando o retirante se encontra com José, cuja esposa está para dar à luz um filho, pergunta: “Há muito no lamaçal apodrece a sua vida? E a vida que tem vivido foi sempre comprada à vista?”. E mais adiante, aprofunda seus questionamentos: “[…] e que interesse, me diga, / há nessa vida a retalho que é cada dia adquirida?”. A essas inquietantes questões, mestre José responde resignadamente que, ainda que seja comprada a retalho e adquirida arduamente, ela ainda “é, de qualquer forma, vida”.

Nesse ponto, que é o mais tenso da peça, Severino sugere o suicídio como possibilidade de pôr fim à tortura que é a vida: “Seu José, mestre carpina, / que diferença faria / se em vez de continuar / tomasse a melhor saída: / a de saltar, numa noite, / fora da ponte e da vida?”. A questão não é respondida imediatamente, pois a conversa é interrompida pelo nascimento do menino, que recebe louvores e visitas e presentes especiais: “Todo o céu e a terra / lhe cantam louvor”. Só ao fim da peça, mestre José volta à pergunta suspensa no ar, para responder: “É difícil defender, / só com palavras, a vida, / ainda mais quando ela é / esta que vê, severina; / mas se responder não pude / à pergunta que fazia, / ela, a vida, a respondeu / com sua presença viva”.

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Gladir Cabral é pastor, músico e professor de letras na Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc).

Créditos: Revista Ultimato 341 (seção “Arte e Cultura”)

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