E o morador de rua?

[ 1 ] Comentário

Tem se havido muita discussão e debate em relação à Situação do Morador de Rua em termos de Brasil. Na verdade isto não só é bom, como saudável e salutar. O curioso é que isto não tem acontecido só em termos de grandes cidades, mas também em cidades menores. 

A situação do Morador de Rua é uma realidade que sempre estará diante de nós. O encontramos em cidades grandes e pequenas, e em países mais ou menos desenvolvidos. Não é um tema que envolve somente o nosso chamado contexto latino-americano. Recentemente minha esposa foi convidada para participar de uma reunião na cidade de Belo Horizonte representando o Projeto Videiras, cujo objetivo era tratar da situação do Morador de Rua. Ouviu um determinado promotor dizer que ele mesmo havia encontrado Morador de Rua na França, país tido como desenvolvido. Ora, o Morador de Rua é uma realidade que se encontra até mesmo na chamada zona rural.

Outro aspecto a considerar é que pelo fato da pessoa se achar na rua, não significa dizer que ela seja uma pessoa vagabunda, sem conceito, sem juízo, sem caráter e sem valor. Tem muita gente complicada nas ruas? Tem sim. Todavia, você há de convir comigo que também se tem muita gente que nunca viveu nas ruas, mas que não tem o mínimo de educação. É gente agressiva, etc. Por outro lado encontramos gente doce, descente, de valor, de conceito e educada que continua nas ruas. Conheci e conheço pessoa assim que está nas ruas: refinada no trato para com as outras pessoas; inclusive, com curso superior, que fala outras línguas; também tem gente que era muito rica e hoje vive na rua.

Precisamos entender que o Morador em Situação de Rua é gente criada à imagem e semelhança de Deus. Deus a ama, como também ama você e eu. Eu e ele fomos criados à imagem e semelhança do Pai. Ele é meu irmão.

Outra faceta que não pode ser esquecida é que o Morador de Rua tem o direito de ir e vir (ouvir falar de um lugar em que pessoas queriam proibir o Morador de Rua de transitar). Isso é inconstitucional. A cidade é de todos, não só dos cidadãos de bens. É também do Morador de Rua.

Entretanto, se de um lado o Morador de Rua tem o direito de conviver na sociedade; por outro, ele não tem nenhum direito de viver praticando delinquência, crime, roubo e no uso da droga. Não pode e nem tem nenhum direito de causar danos a nenhum patrimônio público e a nenhum cidadão. Não pode viver na balburdia e fazer o que bem entender. Não pode ir de encontro aos princípios e valores que regem a sociedade. Todos nós vivemos à mesma sociedade e conjuntura ética. Esses valores da ética valem para todos que vivemos no mesmo contexto de conjuntura social. Devem ser respeitados!

O que precisamos entender? Ninguém vive nas ruas porque quer. Alguma razão levou-o a viver tal realidade, tangendo essa pessoa para o mundo da exclusão: a própria falta de estrutura familiar causada pelo sistema injusto do capitalista que se encontra diante de nós, e que não podemos negar ser uma triste realidade. A falta de emprego, de oportunidade na vida. O crescimento desordenado das cidades, que por falta de política pública para a cidade e para o homem do campo, infelizmente o colocou no mundo da exclusão. Droga (isto significa dizer que nem todas as pessoas que vivem nas ruas são também pessoas que usam drogas __ essa triste desgraça social). Conheço gente que vive na rua, que não usa nenhum tipo de droga; ao contrário, corre dela. Más influências e companhias podem ser outra grande causa também. As bebidas. Desespero da vida. Abandono do lar dado a conseqüências naturais (gente que teve sua casa destruída por incêndio e inundação).

Percebe-se daí a necessidade de se ter uma visão mais ampla e mais integral da questão do que possamos imaginar. De entendermos que o problema não gira em torno de um único aspecto unilateral. É preciso que se tenha um olhar mais abrangente e mais holista sobre o tema. Precisa-se de diálogo para resolver o problema, de parcerias amplas, de integração, de pensarmos numa democracia que vise o direito de todos; inclusive, do Morador de Rua. Precisa que se pense na defesa da dignidade, da igualdade e da cidadania.

É necessário que os políticos criem Políticas Públicas adequadas que atendam as cidades em todas as áreas; inclusive, para os Moradores de Rua. Encontramos muitas cidades proibindo que se dêem esmolas, o que é interessante, mas o que essas cidades têm feito no sentido de se criarem Políticas Públicas para o morador de rua? Enquanto isto outros querem trabalhar exclusivamente o aspecto relacionado à higienização, o que também é de suma importância. Todavia, eu pergunto: Será que antes disto não deveríamos trabalhar o aspecto da conscientização? Sem que falemos daqueles que estão preocupados em tirar o Morador de Rua da sua cidade para outra. Também não resolve. Não é mudar a pessoa de lugar, mas mudar o jeito da pessoa pensar e ver a vida.

Portanto, precisamos pensar o tema com bastante profundidade, pertinência e relevância. Criarmos projetos que atendam essa camada de gente muitas vezes esquecida por nós. Dar a essas pessoas a oportunidade de construir ou reconstruir suas vidas, sendo inclusas no mercado, família e sociedade (Marcos 4: 35).

Só “apaziguamos” a situação em meio a essa ação conjunta, com todos unidos. Afinal, é em meio à unidade que alcançamos êxito na vida.

Essa parceria tem implicação ampla: no campo eclesiástico, por exemplo. A igreja precisa ver, contemplar, ser acordada, fazer alguma coisa prática neste sentido. Infelizmente falta visão à igreja neste aspecto. Temos falado muito acerca de igreja relevante. Não tem como uma igreja ser relevante e não estar preocupada com sua cidade e o social, inclusive enxergando os carentes que existem nela.

Quantas igrejas estão envolvidas em trabalho com Moradores em Situação de Rua? Quantas igrejas ajudam outras que lidam com ministério relacionado aos Moradores de Rua? Temos que ser sinceros, mas infelizmente se trata de uma triste realidade. Construímos templos, conseguimos bancadas especiais (não sou contra isto), mas nem sempre investimos no essencial que é gente, e em especial nos menos favorecidos que precisam tanto.

Recentemente ouvir dizer de alguém que disse que iria fechar um determinado trabalho social importante na sua cidade, porque, segundo ele, cuidar do social é papel do Poder Público. Cuidar do social é papel do Estado, mas o é também da Igreja evangélica do Senhor Jesus (Mateus 25: 31-46; Efésios 2: 8 – 10).

Portanto, essa ação conjunta implica na participação da igreja e do Estado. Lógico que o Poder Público precisa fazer alguma coisa. Criar políticas publicas que visem atender aos carentes, entre eles os Moradores de Rua (não sou político no sentido partidário, e quem me conhece sabe que nem gosto de comentar sobre isto, mas não podemos negar a preocupação e a ação por parte da atual Secretaria de Assistência Social da PMI da nossa cidade neste sentido, de querer ver as coisas melhores).

Também é muito importante o papel do Poder Judiciário. Mais uma vez não podemos negar o trabalho do Br Bruno, nobre promotor de Justiça desta cidade, envidando todos os esforços possíveis neste aspecto. Quando falamos no Videiras, por uma questão de ética nem sou o indicado para tal, e na verdade fico até constrangido, mas por uma questão de justiça não posso negar a ação desse projeto em relação sua atuação na vida desses desprotegidos.

Mas a sociedade civil também precisa entender sua participação. A polícia procurando fazer seu trabalho é outra missão. A atuação de Washington representando o CONSEP.

Enfim, unidos assim vamos poder construir um mundo bem mais justo, e uma cidade que reflita uma sociedade mais equânime, melhor de se viver, proporcionando um pouco mais de dignidade às pessoas menos favorecidas e ajudando nossa polis no social.

Que juntos tenhamos a visão de beneficiar todos, em especial os que mais precisam. Como dizia Ariovaldo Ramos, presidente da Visão Mundial, um homem de respeito e crédito, que sempre defendeu a dignidade e a cidadania, ético, ardoroso defensor da chamada teologia da missão integral: “a cidade é ingrata, aos ganhadores ela dá tudo, e aos perdedores ela tira tudo; inclusive, a dignidade”. E Platão já dizia: “não adianta uma cidade bonita, se nela não houver justiça”.

Lutemos por um mundo sem preconceito, que pense e defenda à vida; inclusive dos mais pobres, mesmo porque a proposta de Jesus é que tenhamos “vida em abundancia” (João 10: 10), sem se falar que Ele mesmo “passou fome na vida dos necessitados” (Mateus 25: 31- 46).

Em nome de Cristo que defendeu a verdade e a dignidade humana,

Edinaldo Felipe dos Santos.

Projeto Videiras (Ipatinga, MG)

Uma resposta para E o morador de rua?

  1. Washington da Costa Neto disse:

    Texto que expressa uma verdadeira realidade, porém, gostaria só fazer uma resalva no texto: “Recentemente ouvir dizer de alguém que disse que iria fechar um determinado trabalho social importante na sua cidade, porque, segundo ele, cuidar do social é papel do Poder Público. Cuidar do social é papel do Estado, mas o é também da Igreja evangélica do Senhor Jesus (Mateus 25: 31-46; Efésios 2: 8 – 10).”, não somente às Igrejas Evangélicas, mas todas os credos, inclusive a minha Igreja Católica Apostólica Romana.
    Mas deixamos os nossos parabéns pela matéria.

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