A estranha estrutura das organizações evangélicas

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Tenho, por 30 anos, liderado várias organizações, empresas, igrejas, ações sociais, redes e cada vez mais me surpreendo com o estranho modelo de liderança perpetuado em organizações no meio evangélico.

Explico: qualquer organização eficiente, antes de contratar ou eleger alguém define as tarefas que esta pessoa terá de desempenhar e em função delas estabelece requisitos para o cargo, como, por exemplo, escolaridade, competências necessárias, qualificações pessoais, etc.

Por uma estranha tradição, perpetuada por assessores jurídicos e contadores, há entre os evangélicos a prática de criar cargos sem função (2º. Vice, 2º. Secretário, 2º. Tesoureiro, etc.), e percebo uma resistência para estabelecer os requisitos prévios para os cargos.

Uma das justificativas para o modelo mais adotado é que o Novo Código Civil estabeleceria um determinado modelo, o que não é verdade, pois O art 59 apenas fala que compete à Assembleia eleger os administradores, não impondo nenhum modelo específico de conselho ou diretoria. Por isso podemos ter a liberdade de adotar qualquer modelo que nos pareça adequado.

Na prática, no entanto, notamos que queremos líderes com algumas qualificações, como integridade, competência, e que, não as encontrando no desempenho do cargo, temos enormes dificuldades em lidar com a questão.

Mesmo no sistema eletivo brasileiro existe a prática de definir funções e requisitos, embora estes sejam muito baixos e citem apenas itens como idade e alfabetização. Agora, na tentativa de instituir a Lei da Ficha Limpa, busca-se por uma moralização dos eleitos com uma exigência um pouco mais alta.

É uma questão de lógica e de eficácia organizacional, que se defina o papel de cada um dentro da organização e se defina quais as qualificações necessárias para exercer a função.

Também vemos este princípio demonstrado na Bíblia. Podemos citar o exemplo de Moisés, seguindo os conselhos de Jetro em Êxodo 18.13-27:

21 E tu dentre todo o povo procura homens capazes, tementes a Deus, homens de verdade, que odeiem a avareza; e põe-nos sobre eles por maiorais de mil, maiorais de cem, maiorais de cinquenta, e maiorais de dez; 22 Para que julguem este povo em todo o tempo; e seja que todo o negócio grave tragam a ti, mas todo o negócio pequeno eles o julguem; assim a ti mesmo te aliviarás da carga, e eles a levarão contigo.

O princípio é aplicado no Novo Testamento na escolha dos primeiros diáconos, relatada em Atos 6: 1-3:

Ora, naqueles dias, crescendo o número dos discípulos, houve uma murmuração dos gregos contra os hebreus, porque as suas viúvas eram desprezadas no ministério cotidiano. E os doze, convocando a multidão dos discípulos, disseram: Não é razoável que nós deixemos a palavra de Deus e sirvamos às mesas. Escolhei, pois, irmãos, dentre vós, sete homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria, aos quais constituamos sobre este importante negócio.

Posteriormente o apóstolo Paulo amplia a lista de qualificações necessárias para liderar no reino de Deus, escrevendo a Timóteo e Tito, e citando uma extensa lista que deve ser examinada com cuidado.

Nos exemplos citados temos definidos claramente dois itens:

a) O que as pessoas escolhidas devem fazer;

b) Que qualificações precisam ter para exercer estas tarefas.

Note um item importante: Estas definições são feitas antes da escolha das pessoas. Precisamos seguir esta prática.

Então, ao estruturar qualquer organização, deve estar na nossa agenda a definição da estrutura ideal, que será aquela capaz de dar o melhor encaminhamento dos propósitos da mesma e definir as funções de cada participante. Estas definições também possibilitam a criação de um perfil ideal para os ocupantes de cada cargo.

Assim, cada organização deve definir de quais cargos precisa. Se for uma empresa grande, possivelmente terá um conselho de administração que elegerá a diretoria. Este conselho, além do presidente terá vários conselheiros responsáveis por representar os interesses dos acionistas e a diretoria terá vários diretores com funções definidas (financeiro, operacional, comercial, etc). Se for uma organização religiosa, será mais lógico ter um conselho de presbíteros com pessoas definidas para liderar as várias áreas, como: culto, missões, adoração, discipulado, grupos pequenos.

Obs.: Por várias vezes trabalhei com conselheiros que não tinham opinião sobre nenhum assunto da organização. Ninguém sabia por que tal pessoa estava naquele cargo. Ora, conselheiro existe para dar conselhos e não para ficar quieto.

Como exemplo, cito o trabalho que fizemos na organização da RENAS – Rede Evangélica Nacional de Ação Social, onde definimos que perfil ideal dos líderes da rede tem as seguintes qualificações:

Atitude do líder servo;

Qualificações de presbítero (a) ou diácono (a), conforme descritas em I Timóteo e Tito;

Entusiasmo pela causa social, e seja sensível à voz de Deus e do povo que sofre;

Tempo, capacidade e disposição para articular e liderar a rede;

Capacidade para trabalhar em equipe;

Prática e fé de acordo com a integralidade da missão de Jesus;

Reconhecido como líder, indicado e apoiado pela organização de que se origina.

Atuação reconhecida na área social.

Capacidades para comunicação, agregação.

QUALIFICAÇÃO DOS LÍDERES (PRESBÍTEROS)

QUALIFICAÇÕES PESSOAIS (Conforme Tito 1:5-9 e I Timóteo 3:1-7)

I – Qualificações de procedimentos

1. Irrepreensível (nada em aberto, já confessou, não pode mais ser repreendido)

2. Cordato (cortês, educado, cavalheiro, gentil)

3. Inimigo de contendas (não briguento ou discutidor, não cria casos)

4. Não dado ao vinho (não comprometido com bebidas ou vícios)

5. Não violento (agredir, ferir, golpear)

6. Hospitaleiro (Casa aberta)

7. Governe bem sua própria casa (e firma?) (Administração cristã)

8. Cria os filhos com disciplina, com todo respeito

II – Qualificações de Caráter

1. Apto para ensinar (abre a escritura)

2. Sóbrio (mente sadia, segura, moderada)

3. Modesto (adorno, moldura, enfeite, não orgulhoso)

4. Esposo de uma só mulher

5. Temperante (equilíbrio de visão e conduta, tempero certo)

6. Não avarento (não amigo do dinheiro)

7. Não arrogante (auto divulgador, orgulhoso)

8. Não irascível (ira conscientemente acumulada, raiva, mágoa)

9. Não cobiçoso de torpe ganância (lucro a qualquer preço)

10. Amigo do bem (companheiro do que é bom)

11. Justo (Equidade, honestidade, retidão)

12. Que tenha domínio de si

III – Qualificações de Espiritualidade

1. Não seja neófito (novo na fé)

2. Tenha bom testemunho dos de fora

3. Tenha filhos crentes e que não são acusados de dissolução, nem são insubordinados

4. Piedoso (debaixo da santidade de Deus, vida devocional)

5. Apegado ‘a palavra fiel que é segundo a doutrina (boa teologia)

6. Tenha poder para exortar

7. Tenha poder para convencer os que contradizem

 

Gerhard Fuchs é um dos fundadores da REPAS (Rede Evangélica Paranaense de Assistência Social). Atualmente integra a Coordenação Colegiada de RENAS.

2 respostas para A estranha estrutura das organizações evangélicas

  1. Rodrigo Arndt disse:

    Olá Sr. Gerhard

    Sou missionário na Missão IDE em Ijui-RS e faço parte da diretoria de nossa organização.

    Gostei muito do material. Obrigado por escrever.

    Abraço,

    Rodrigo

  2. Maria Lúcia Presser disse:

    Sr.Gerhard seu texto está claro e muito verdadeiro com os embasamentos bíblicos.Agregou valores à serem refletidos para o crescimento das organiz.evangélicas.Gostei MLPresser

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