Brasil sem miséria. Qual o papel da igreja?

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A mesa redonda da tarde de sexta-feira (dia 16) do VI Encontro RENAS trouxe verdades e desafios por meio de uma reflexão sobre miséria e o papel da Igreja. Os preletores tomaram como base o Plano Brasil Sem Miséria, lançado no dia 02 de junho pelo Governo Federal.

O pastor e filósofo cristão, Ariovaldo Ramos, nos incentivou a questionar aquilo que o governo chama de “crescimento”, “miséria”, “classe média” e o “mapa de pobreza”, conceitos apresentados no Plano Brasil Sem Miséria.

Segundo ele, o modelo de crescimento continua deixando os ricos mais ricos, e a classe só chegou à média porque o teto desceu. Quando se fala de miseráveis não se fala de indígenas, ribeirinhos e moradores de rua, que inclusive não fazem parte do cadastro único – base de dados para o mapa da pobreza – pois não são pessoas domiciliadas.

Para se falar de erradicação da miséria, é necessário falar de reforma agrária. A mudança não pode ser de uma casa de madeira para uma casa de lata, de uma refeição ruim para três refeições ruins por dia.

“A Igreja deve se envolver?” Sim, sempre. Como igreja estamos em cada lugar desse Brasil, proclamando Jesus, mas precisamos converter isso em força de transformação social, fala Ariovaldo. Ele nos lembra que nosso envolvimento deve ser crítico:

1. Vigiar: questionar os conceitos apresentados e se as comunidades vulneráveis realmente estão sendo consideradas;

2. Intervir: acompanhar de perto, estudar o programa, criar formas de controle social. Uma intervenção que garanta um padrão mínimo de qualidade, que garanta a inclusão das populações excluídas do discurso.

Ariovaldo termina sua primeira fala, chamando a igreja para olhar para si e ver que sua identidade é de vulnerável. “A Igreja precisa assumir que é uma igreja pobre, feminina, negra, juvenil. Nós somos os pobres desse país. Nós somos os miseráveis”, conclui ele.

O pastor e diretor executivo da ONG Diaconia, Carlos Queiroz, questiona de que miséria e de que igreja estamos falando. Ele conta que conhece a pobreza de forma pessoal. Na infância, ele e seus irmãos moraram em casa de taipa. Sofreu a perda de alguns irmãos por doenças evitáveis. Já adulto, foi trabalhar na Visão Mundial, onde conheceu muitos pobres, que ainda causam impacto em sua vida e lhe mostram Jesus de Nazaré.

Carlinhos, como é carinhosamente conhecido, diz que podemos olhar como Paulo: “sede renovados pela transformação da vossa mente”. Assim como questionamos o governo, devemos questionar “de que igreja nós estamos falando?”. Tem pobre que nunca ouviu falar de igreja.

“Que igreja queremos ver envolvida nessa luta contra a miséria? A igreja da alienação, da magia, que acha que com óleo e com palavras você vai declarar?”, instiga Carlinhos.

“Jesus de Nazaré veio a esse mundo – e ele é Deus – e bagunçou o jeito de fazer política e o jeito de ser Estado. Ele disse para darmos a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Então temos que parar de dar a César o que é de Deus.

“A igreja que precisamos é a igreja lúcida, profética e disposta a morrer e a não tirar proveito do Estado. É papel da igreja pensar melhor o processo político do Estado brasileiro, mas pensar nosso papel de fraternidade e não de democracia, pois a fraternidade supera a democracia, que pode ser a voz de muitos dominados por uma minoria”.

“A fraternidade nos faz ver além do cifrão. A fecundidade da vida, a despeito da pequena casa, de ter que buscar água a 300 metros, não tirava o sentido da minha existência, minha dignidade.”

Ariovaldo retoma a palavra, respondendo sobre o seu temor em relação à igreja brasileira. Ele diz que a “igreja visível é a igreja que acha que dinheiro é benção; e essa igreja se corrompe. Benção não é ter dinheiro. É chegar em um estágio de que não precisa mais de dinheiro, mas de sacrifício. Maturidade no Espírito diz que o sujeito é abençoado quando entende que precisa de sacrifício.”

Carlos Queiroz responde se é possível a igreja se envolver com o sistema político. “Nós devemos construir nossas possibilidades enquanto estamos aqui na terra”, afirma Carlinhos. “Deveríamos começar com uma nova geração e ensinar a eles uma nova forma de fazer política, não como foi a formação das Comunidades Eclesiais de Base há alguns anos, pois eles entraram na política deixando de lado a esperança escatológica”.

Ariovaldo conclui sua fala lembrando que há uma coisa maligna por trás da sociedade, tem uma coisa maligna por trás dos seres humanos. Precisamos retomar essa consciência de que tem um problema com a gente, porém por mais injustos que sejam os seres humanos, não é contra eles que a gente está lutando, é contra o mal. Nós queremos que todos os seres humanos se convertam, esperamos seu arrependimento, oramos por eles, não temos ódio deles. Mas nossa oração ensina a gente a falar a verdade e a verdade é uma pessoa, que não deixa a gente negociar o pobre, não deixa a gente negociar os seus valores.

É do compromisso com a paz que nasce a justiça. Nós não queremos vencer, queremos paz e para ter paz tem que haver direito, tem que haver justiça. Não me levanto mais com um discurso, me levanto com discurso, fé, oração e expectativa, conclui Ariovaldo.

Carlinhos termina lembrando que na batalha espiritual, a nossa arma é o amor, é nos tornarmos amigos de Deus.

Que venha o teu reino, Senhor, dá a todos reunidos aqui em Renas a motivação para aceitar o desafio de combater a miséria na terra e no mundo espiritual.

Leia mais:
Plano Brasil sem Miséria (pdf)

Texto: Tábata Mori (RENAS Goiás)
Foto: Alison Worrall (Rede Mãos Dadas)

 

3 respostas para Brasil sem miséria. Qual o papel da igreja?

  1. Sérgio disse:

    Infelizmente o evangelho que a grande maioria de nossas igrejas anunciam, é extremamente alienante e incapaz de levar os membros da mesma a olharem para o contexto social em que estão inseridas. A grande maioria dos líderes de nossas igrejas, estão mais preocupados com os números ( dízimos e quantidade de membros) do que com as vidas, principalmente aquelas que estão excluídas por um sistema pervertido e corrupto no qual todos nós estamos inseridos.

    • Cilas Gavioli disse:

      A Igreja está refletindo a sociedade, hedonista, narcisista, capitalista e niilista atual. As pessoas não percebem o buraco sem fim que a humanidade está caminhando. O Senhor Jesus já nos avisou que nos últimos tempos o “amor se esfriaria de muitos.” Creio que a Igreja é a esperança do mundo, pois Jesus na ressurreição e ascensão pôs todos os poderes debaixo de seus pés e o deu a Igreja (Colossenses 1). A Igreja são pessoas e não instituição. A Igreja deverá acordar para o fato de que deve refletir a luz de Cristo e não o secularismo da sociedade.
      Há esperança no renovo (broto) da raiz de Jessé. Renas é parte desse renov

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