A Declaração do Milênio e os olhos da fé

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O tempo anda rápido — já passamos da metade da primeira década deste milênio. Ainda ontem falávamos do início do novo milênio e das expectativas que ele gerava.
No ano 2000, os países membros da Organização das Nações Unidas (ONU) assinaram um pacto no intuito de enfrentar os desafios centrais da humanidade como eram vistos no limiar do novo milênio. Intitulados Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, eles foram expressos em oito áreas:

1. Acabar com a fome e a miséria
2. Educação básica e de qualidade para todos
3. Igualdade entre sexos e a valorização da mulher
4. Reduzir a mortalidade infantil
5. Melhorar a saúde das gestantes
6. Combater a aids, a malária e outras doenças
7. Qualidade de vida e respeito ao meio ambiente
8. Todo mundo trabalhando pelo desenvolvimento1

Assim, todos fomos convocados a juntar forças na busca e implementação de soluções que produzam uma melhor qualidade de vida para os habitantes do globo.

O alvo é cumprir os oito objetivos até 2015, tanto em âmbito global quanto nacional. Cada país é responsável por cumpri-los e isto envolve muito mais do que o governo. Estes objetivos somente serão alcançados se todas as forças vivas da sociedade se engajarem no alcance dos mesmos.

Se isso acontecesse seria fantástico! Mas todos sabemos que não se trata de algo mágico nem fácil. Possibilitá-lo, mesmo parcialmente, requer muita vontade política, concentração de recursos e uma contínua priorização e monitoramento. Nem os próprios objetivos globais trabalham com a hipótese de cumprimento total. No primeiro deles, por exemplo, quer-se reduzir pela metade, até 2015, o número de pessoas que vivem com menos de 1 dólar por dia. O mesmo se aplica à quantidade de pessoas que passam fome.

O Brasil é um dos países que perseguem o cumprimento desses objetivos. Em artigo recente O Estado de São Paulo constatou essa dificuldade: “A maioria dos objetivos não apenas deixará de ser atingida no prazo — 2015 — como os Estados estão muito distantes de mudar situações degradantes de pobreza, mortalidade infantil e materna, falta de acesso à educação, desigualdade entre os sexos, taxas elevadas de doenças infecciosas e insustentabilidade ambiental.”2

É interessante notar que, ao considerar organizações e instituições que poderiam contribuir para o alcance desses objetivos, afirma-se a importância do envolvimento das igrejas e organizações de fé que prestam louvável serviço na área social e humana. Isto deveria ser óbvio, pois o evangelho deixa claro que o cristão tem uma responsabilidade humana e social. Mas isso nem sempre acontece, e nem sempre a resposta da igreja é adequada às necessidades do mundo que nos cerca. Os cristãos também têm sido social e humanamente insensíveis, sexistas, racistas, opressores, exploradores, como tantos outros em nossas sociedades.

O antigo livro Cristo e Cultura (Paz e Terra, 1967), de H. Richard Niebuhr, pode ajudar-nos a entender melhor essa relação entre o cristão e o mundo. Ele trabalha com uma tipologia que procura representar a relação histórica entre a fé cristã e a compreensão do seu papel na sociedade. “Cristo contra a cultura” é o primeiro item da sua tipologia, e com ele se afirma a separação entre o cristão e o mundo. No segundo, “O Cristo da cultura”, vê-se uma inter-relação entre a igreja e a sociedade, gerando uma espécie de cristianismo cultural, o que se vê muitas vezes em sociedades “cristianizadas”. O terceiro é qualificado como “Cristo acima da cultura” e fala da superioridade da fé cristã, à qual o mundo precisa se submeter. O quarto, “Cristo e cultura em paradoxo”, mostra que tanto a fé cristã como o mundo devem viver em paradoxo; não se deve esperar nenhuma adequação e a tensão entre os dois deve ser mantida. O último é qualificado como “Cristo, o transformador da cultura” e deixa claro o tom conversionista e a convicção de que Cristo veio para transformar tudo e todos. Dependendo da tradição cristã com a qual nos identificamos, nos sentimos mais representados por um dos tipos descritos; mas geralmente acabamos misturando os nossos caminhos ao respondermos aos desafios e oportunidades.

Será que essa tipologia ainda descreve a nossa realidade, ou precisamos criar uma tipologia nova para os nossos dias? Que tipologia a nossa vivência de igreja no sul do mundo está gerando? Qual será a melhor tipologia a nos colocar na rota do cumprimento dos objetivos do milênio? Estas e outras perguntas voltarão ao continuarmos a reflexão sobre o assunto nas próximas edições. Mas de uma coisa estou certo: Deus quer ver esses objetivos cumpridos e gostaria de ver-nos engajados nessa busca.

Porque tive fome e me destes de comer;
tive sede e me destes de beber;
era forasteiro e me hospedastes;
estava nu e me vestistes;
enfermo e me visitastes;
preso e fostes ver-me.
(Mt 25.35-36).

Notas
1. Para saber mais, acesse www.nospodemos.org.br> e www.pnud.org.br
2. Segundo dados do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (O Estado de São Paulo, 1º abr. 2007, A28).


Valdir Steuernagel é pastor luterano e trabalha com a Visão Mundial Internacional e com o Centro de Pastoral e Missão, em Curitiba, PR. É autor de, entre outros, Para Falar das Flores… e Outras Crônicas

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