Compromisso cristão e envolvimento político

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Na noite de sexta-feira (28), o preletor oficial do IV Encontro de RENAS falou sobre o envolvimento dos cristãos na política. Segundo Ronald Sider, “ser um cristão compromissado não quer dizer que você faz sua política de forma correta”.

A presença evangélica na política tem crescido na última década. Hoje estamos mais envolvidos do que imaginamos. O apoio dado pelos estadunidenses ao governo Bush é um exemplo. Além disso, África e Américas elegeram oito presidentes evangélicos nos últimos anos. Alguns dedicaram seu país a Jesus e ao mesmo tempo violaram os direitos humanos, perseguindo e torturando seus inimigos.

Segundo Ronald, nosso envolvimento político é cheio de inconsistências. Uma delas é o reducionismo: “Eles são pró-vida e isso quer dizer ser contra o aborto, mas só isso. Um brincou que eles acreditam que a vida começa na concepção e acaba no nascimento”, pois não se envolvem com a defesa dos que tem suas necessidades não atendidas depois do nascimento.

Alguns pensam em deixar de se envolver com essas questões, mas Ronald deu dois motivos para o nosso envolvimento: um político e um teológico.

O político porque pequenas decisões políticas podem ter impactos enormes na vida de muitas pessoas. Se por um lado temos o apoio da igreja protestante à Hitler, na Alemanha, temos também a briga do parlamentar William Wilberforce pelo fim da escravatura. Hoje, é por meio da política que um país atrás do outro deixa de assassinar hereges e aceita a liberdade religiosa.

O motivo teológico porque Jesus Cristo é hoje Senhor do universo e governa sobre os reis da terra. A Jesus foi dado todo o poder nos céus e na terra.

Para Ronald, os evangélicos já não precisam mais pensar se devem ou não se envolver; a questão a ser discutida e pensada agora é o como. Para ele, a decisão política está embasada em quatro elementos, resumidamente listados a seguir:

1. Precisamos de um referencial normativo: nossas crenças influenciam e, como cristãos, temos que tirar nosso referencial da Bíblia. E para desenvolver esse referencial, temos que entender a história bíblica e o que ela ensina sobre santidade, justiça e outras coisas.
2. Precisamos de um estudo amplo da sociedade: a Bíblia não diz se a economia de mercado e as multinacionais são coisas boas ou ruins, por isso, além do referencial normativo, precisamos de uma compreensão ampla da história do mundo.
3. Precisamos de uma filosofia política que nos dará um norte, em roteiro. Ela deve ser construída a partir do referencial cristão, por um lado, e do estudo da história, por outro.
4. Precisamos fazer mais análise filosófica e política: precisamos aplicar ao nosso candidato o que aprendemos da nossa filosofia política.

Segundo Ronald, nos Estados Unidos, muitos cristão adotaram, sem pensar muito, uma posição de extrema esquerda ou de extrema direita. Por trás dessas posições havia uma política subcristã, mas que negava pontos importantes do que deve ser defendido em uma visão cristã. Por exemplo, a direita negligenciou a justiça econômica para com os pobres e o cuidado com a criação, enquanto a esquerda esqueceu o valor da família e da pureza sexual.

Para o preletor, nossa ação deve considerar alguns paradigmas bíblicos, isto é, saber tudo o que a Bíblia ensina sobre justiça, por exemplo, e tudo o que fala sobre da natureza das pessoas. Ele citou alguns paradigmas:

– Dignidade e santidade de cada ser humano: somos criados à semelhança de Deus e chamados para ser mordomos da criação não-humana. Cuidamos da criação conforme cuidamos da nossa relação com o criador.

– Liberdade religiosa: a convivência do joio e do trigo será fato até que Cristo volte. No mundo, eles crescerão junto.

– Justiça: estruturas econômicas justas e ausência de pessoas sem recursos e sem meios de produção são da vontade de Deus.

– Pobreza: uma das maneiras mais básicas que Deus usa para avaliar a sociedade é a forma como ela lida com os que estão por baixo.

Ronald afirma que a Bíblia não traz tratados extensos sobre filosofia política — esta surge a partir dos grupos de pessoas que trabalham juntos e pensam sobre política. Porém, precisamos de uma filosofia política desde que não trabalhemos achando que ela é uma verdade absoluta. Alguns pontos da filosofia política que o preletor supõe serem adequados:

– Descentralização do poder: se uma elite toma todas as decisões, a maioria não pode exercer seu mandato para escrever a história; porém, é bom lembrar que, como já disseram, o poder tende a corromper e o poder absoluto corrompe absolutamente.

– Um comentário sobre democracia: creio que um estudo da Bíblia e da história aponta para a democracia, assim como os direitos humanos e a liberdade apontam nessa direção.

– Instituições não-governamentais ou sociedade civil: uma boa sociedade tem muitas instituições entre o governo e a comunidade. Pode ser a família ou as ONGs. Essas instituições descentralizam o poder e nos ajudam a monitorá-lo.

– Uma questão simples sobre economia de mercado e propriedade privada: quando o Estado é dono de toda a economia e toda a propriedade, então você tem poder político e econômico centralizado; porém, se tem propriedade privada, você tem um contraponto ao poder político.

– Cuidado com a criação: temos sempre que lembrar que pessoas são mais importantes que animais ou pássaros, mas não podemos achar que defender o meio ambiente é defender animais e prejudicar pessoas.

– Ética de vida consistente: o primeiro direito e o mais básico direito humano — é o direito à vida. O aborto é a tomada indevida da vida humana. Temos que nos opor a ele, mas também dar suporte e sustento para que aquela gravidez chegue ao fim.

Ronald terminou defendendo que um engajamento cristão fiel tem que ter base na Bíblia. E uma agenda biblicamente equilibrada também é essencial, isto é, você tem que se preocupar com o que é do interesse, da preocupação de Deus. Não se pode escolher um tópico ou outro e deixar o resto de lado. Tem que ser pró-vida e pró-pobre. Pró-família e pró-paz.

“A política é importante, mas não é tão importante e não é a única forma de mudar o mundo. Não podemos exagerar nem desprezar a importância da política.” Ele afirma ainda que ela não é tão importante quanto evangelizar.

Ronald disse que conclusões políticas também são complicadas e é essencial saber que outros bons cristãos podem discordar de nossa análise bíblica e filosófica. Também não podemos nos esquecer que a unidade do corpo de Cristo é muito mais valiosa que a concordância política. “Espero que aprendamos a nos engajar na política, sem nos esquecermos das coisas importantes que também temos que fazer. Inclusive o evangelismo. Envolvam-se na política com cuidado e humildade e continuem em diálogo com cristãos do resto do mundo.


Tábata Mori

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