Derrubando paredes

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28/08/09

Nessa segunda parte do minicurso sobre “Gênero e Justiça”, Arbutus teve a participação de seu esposo, Ronald Sider. Enquanto ele trouxe dados que compravam as injustiças cometidas social e economicamente contra as mulheres, ela colou “carne e pele” nesses números, trazendo histórias para ilustrar a superação dessas injustiças.

Segundo Ronald, existe uma frase famosa da ONU, que diz que as mulheres trabalham dois terços das horas trabalhadas, produzem dois terço do alimento e recebem 10% dos salários e são proprietárias de 1% das propriedades no mundo. E, apesar de não termos as estatísticas realmente factuais, temos fatos que dizem claramente que injustiça contra a mulher existe em todo o mundo.

Entre as marcas da injustiça contra a mulher, as destacadas por Ronald foram: desigualdade na educação, no cuidado da saúde e na capacidade de ter propriedade, a violência física e sexual contra a mulher e o tráfico de mulheres para fins de exploração sexual.

Após a exposição dos dados, Arbutus contou várias histórias de mulheres que transformaram sua comunidade e conseguiram o respeito da comunidade, da família e da igreja. Segundo ela, a sua história favorita é a de Elisabeth, do Cairo, com quem conversou em fevereiro de 2009.

Certo dia um jovem que tinha acabado de se formar no seminário, convidou Elisabeth para falar na igreja dele, que ficava do outro lado do Egito, no sul, onde estão as igrejas evangélicas mais conservadoras. Ela pensou se tinha feito a escolha certa, mas aceitou e levou para a igreja um estudo bíblico interativo, isto é, os membros deveriam participar ativamente do culto.

Ela olhou para o grupo e pensou mais uma vez se tinha feito boa decisão. Sabia que no Egito, 90% da população era muçulmana e que as mulheres não eram admitidas nas mesquitas juntos com os homens. Mas, aquela era uma igreja que aceitava as mulheres e havia tirado recentemente uma parede que dividia homens de um lado e mulheres de outro.

Quando Elisabeth começou a falar, todas as luzes se apagaram. Boicote? Não, era comum acabar a luz naquela região. Logo trouxeram geradores e a luz iluminou o suficiente para dar continuidade ao culto. Elisabeth então encheu-se de coragem e começou o estudo bíblico que tinha preparado. Fez a primeira pergunta e a resposta foi nada menos que silêncio… e mais silêncio.

Nesse momento Elisabeth teve certeza que tinha sido um erro ter ido. A preparação que tinha feito precisava de participação e a resposta que recebeu a impedia de prosseguir. O silêncio, que parecia uma eternidade, a fez olhar todos os olhos quanto era possível com aquela iluminação precária… quando então percebeu que todos eles atentavam para um homem de turbante sentado no primeiro banco. “Esse deve ser o ancião”, pensou ela.

Depois desse longo e desesperador silêncio, esse “ancião” então se manifestou, dando sua opinião. Elisabeth fez uma oração rápida de agradecimento enquanto 15 ou 20 mãos se levantavam para responder a sua pergunta.

O que Elisabeth viu na atitude desse homem foram as paredes serem derrubadas novamente. Aquilo que estava apenas fisicamente superado, agora era uma realidade para aquela igreja egípicia. A permissão fora dada. Uma mulher ocupou o púlpito e a ela tinha sido dado o direito de falar.

Para Arbutus, Elisabeth teve que ter coragem para quebrar essa redoma de vidro que existia, mas ela, pessoalmente, se emocionou muito mais com a coragem do ancião, pois quando se manifestou, deu permissão para que essa mulher falasse na igreja dele.

A preletora terminou o minicurso agradecendo todos os homens que tiveram coragem de quebrar paredes, abrir portas e ouvir as mulheres com respeito e seriedade. A mensagem final de Ronald foi sobre o desafio de conscientizar sobre essas injustiças, quebrar paredes, mas também iniciar o diálogo sincero e claro.


Tábata Mori

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