Rede Miqueias se pronuncia sobre a crise ambiental

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É possível que com o passar do tempo a Declaração sobre mordomia da criação e mudança climática, que sintetiza as descobertas da Quarta Reunião Global Trienal da Rede Miquéias, realizada no Quênia de 13 a 18 de julho de 2009, chegue a ser considerada como o documento mais significativo que já surgiu de círculos evangélicos sobre um tema que até o momento não havia recebido a atenção que merece por parte de um povo que confessa ao Deus trino como o Deus da criação.

Redigido por uma comissão internacional que conseguiu organizar a diversa participação dos grupos de discussão formados por quem participou da Reunião, este documento é um excelente resumo das preocupações ecológicas de uma rede plenamente comprometida com a missão integral de Deus, concebida como a proclamação e demonstração do Evangelho. A esperança é que esta Declaração não se constitua somente em uma agenda para os membros da Rede Miquéias, mas que, além disso, incentive cristãs e cristãos, em todo lugar, a levar a sério a crise ambiental global produzida por “ignorância, descuido, arrogância e cobiça”, a superar a tradicional dicotomia entre a evangelização e a responsabilidade sócio-ecológica e a se comprometer ativamente com a prática e promoção do cuidado com a criação de Deus.

Formada em 1999, a Rede Miquéias cresceu até chegar a ser um movimento mundial de mais de 500 agências cristãs de serviço, desenvolvimento e justiça, igrejas e indivíduos. Conta atualmente com 300 membros ativos e 230 associados em mais de oitenta países. Seu objetivo central é incentivar a prática daquilo que, segundo o texto do qual deriva o nome da Rede, Deus requer “Praticar a justiça, amar a misericórdia e se humilhar diante de Deus” (Miquéias 6:8).

René Padilla

DECLARAÇÃO SOBRE MORDOMIA DA CRIAÇÃO E MUDANÇAS CLIMÁTICAS
17 de julho de 2009

Nós, membros da Rede Miquéias, vindos de 38 países dos cinco continentes, reunimo-nos em Limuru, no Quênia, de 13 a 18 de julho de 2009 para a Quarta Reunião Global Trienal. Com o tema Mordomia da Criação e Mudanças Climáticas, buscamos a sabedoria de Deus e clamamos pela orientação do Espírito Santo ao refletir sobre a crise ambiental global. Como resultado de nossas discussões, reflexões e orações, declaramos o seguinte:

1. Cremos em Deus – Pai, Filho e Espírito Santo em comunidade – que é criador, sustentador e Senhor de tudo. Deus se deleita em Sua criação e está comprometido com ela (Colossenses 1:15-16 e Romanos 11:36).

2. No princípio, Deus estabeleceu relações justas entre todas as criaturas. Tanto as mulheres como os homens, portadores da imagem de Deus, somos chamados a servir e amar o restante da criação e somos responsáveis por prestar contas a Deus como mordomos. Nosso cuidado com a criação é um ato de adoração e obediência ao nosso Criador (Gênesis 1:26-30 e 2:15).

3. Contudo, sempre fomos mordomos fiéis. Devido à nossa ignorância, negligência, arrogância e cobiça, temos causado danos à terra e nela temos quebrado as relações da criação (Gênesis 3:13-24). Nosso fracasso em sermos mordomos (as) fiéis tem causado a atual crise ambiental, que levou à mudança climática e tem colocado em perigo os ecossistemas da Terra. Toda a criação está sujeita à frustração e corrupção decorrente de nossa desobediência (Romanos 8:20).

4. Entretanto, Deus permanece fiel (Romanos 8:21). Na encarnação, vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo, Deus reconciliou todas as coisas consigo mesmo (Colossenses 1:19-20 e Filipenses 2:6-8). Escutamos o gemido da criação como dores de parto. Esta é a promessa que Deus cumprirá e que Ele já está trabalhando para renovar todas as coisas (Romanos 8:22 e Apocalipse 21:5). Esta é a esperança que nos mantém.

5. Confessamos que pecamos. Não cuidamos da Terra com o amor sacrifical e abnegado de Deus. Em vez disso, exploramos, consumimos e abusamos dela para nosso próprio benefício. Com demasiada freqüência, cedemos ante a idolatria da cobiça (Colossenses 3:5 e Mateus 6:24). Abraçamos falsas dicotomias da teologia e da prática, separando o espiritual e o material, o eterno e o temporal, o celestial e o terreno. Em todas estas coisas, não atuamos de maneira justa com nossos semelhantes e com a criação e não honramos a Deus.

6. Reconhecemos que a industrialização, o crescente desmatamento, a intensificação da agricultura e da pecuária, além do consumo ilimitado de petróleo e de seus derivados, prejudicaram o equilíbrio dos sistemas naturais da Terra. O rápido aumento das emissões de gases de efeito estufa está causando o aumento da temperatura média global, com os impactos devastadores que hoje se experimentam, especialmente as populações mais pobres e marginalizadas. O aumento previsto de 2 graus Celsius dentro das próximas décadas alterará substancialmente a vida na Terra e acelerará a perda da biodiversidade. Aumentará o risco e a gravidade de eventos climáticos extremos, como secas, inundações e furacões, causando deslocamentos de populações e fome. Os níveis do mar continuarão se elevando, contaminando as nascentes de água e submergindo ilhas e comunidades costeiras. Provavelmente, veremos migrações massivas, o que levará a conflitos pela escassez de recursos. Profundas mudanças na freqüência de chuvas e nevascas, como também o derretimento das geleiras, ocasionarão uma aceleração da escassez de água para muitos milhões de pessoas.

7. Arrependemo-nos de nossa teologia egocêntrica da criação e de nossa cumplicidade com as relações econômicas injustas a nível local e global. Arrependemo-nos daqueles aspectos de nosso estilo de vida pessoal e social que deterioram a criação e de nossa falta de ação política. Devemos mudar radicalmente nossa vida em resposta à indignação e à tristeza de Deus pela agonia de sua criação.

8. Comprometemo-nos, diante de Deus, e chamamos a toda a família de fé para dar testemunho da intenção redentora de Deus para toda a sua criação. Buscaremos formas apropriadas de restaurar e construir relações justas entre os seres humanos e com o restante da criação. Esforçaremo-nos para viver de forma responsável, negando o consumismo e a exploração que resulta disto (Mateus 6:24). Ensinaremos e modelaremos a mordomia da criação como parte da missão integral. Intercederemos diante de Deus pelos que mais sofrem os efeitos da degradação ambiental e das mudanças climáticas e atuaremos com justiça e misericórdia entre eles, por eles e com eles (Miquéias 6:8).

9. Unimos nossa vós à de toda a sociedade para demandar dos líderes locais, nacionais e globais que cumpram com a responsabilidade que têm de enfrentar a crise das mudanças climáticas e da degradação ambiental mediante os mecanismos e convenções acordados no nível intergovernamental e assegurar os recursos necessários para garantir um desenvolvimento sustentável. Suas reuniões, como parte do processo de Convênio Básico das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, devem produzir acordos justos, compreensivos e adequados. Os líderes devem apoiar os esforços das comunidades locais para se adaptarem às mudanças climáticas e devem atuar para proteger a vida e o sustento das pessoas mais vulneráveis ao impacto da degradação ambiental e das mudanças climáticas. Reconhecemos que entre os mais afetados estão as mulheres e meninas. Fazemos um chamado aos líderes para intervirem no desenvolvimento de novas tecnologias e fontes de energia limpa e sustentável e a apoiar adequadamente para que os pobres, vulneráveis e marginalizados façam uso efetivo delas.

10. Já não há mais tempo para postergações ou indiferença. Trabalharemos com paixão, persistência, oração e criatividade para proteger a integridade de toda a criação e deixar um ambiente e um clima seguros para nossos filhos (as) e filhos (as) de seus filhos (as).

Os que têm ouvido para ouvir, que ouçam (Marcos 4:23).

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