Deus é pobre?

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Em Mateus, há o encontro entre Jesus e o jovem rico (MT 19: 16ss) e, neste episódio, frente às idolatrias das riquezas, ao apego cobiçoso pelos bens materiais, à impossibilidade de se livrar das garras materialistas do mundo para seguir Jesus, os discípulos concluem que seria impraticável um rico entrar no Reino de Deus.

Precisamos lembrar que a riqueza era tida como benção de Deus e que, obviamente, o rico poderia satisfazer as exigências do Templo quanto aos animais comprados para os sacrifícios por seus próprios pecados. Entretanto, os discípulos são surpreendidos por Jesus, que afirma “que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus”.

Ora, isto contrariava toda a expectativa da época. Diante das palavras de Jesus, Pedro divaga: “Bem, se o rico não pode entrar por causa do seu apego aos bens materiais, então, eu que larguei todos os meus bens, meu barco, minha casa, minha família, a pesca, a comodidade da Galiléia, certamente entrarei em primeiro lugar no Reino de Deus. Serei o mais importante (Mt18.1). Serei tido como o maior (Mt 20. 26-27)”. Então, este discípulo se aproxima de Jesus tomado pelo mesmo espírito cobiçoso do jovem rico: “O que será de nós?”. Assim como o jovem rico presunçosamente se apoiara na lei para garantir o céu, Pedro se apoiava agora na pobreza. Em outras palavras, Pedro está dizendo: “Jesus, eu larguei tudo, sou pobre, abri mão de muitas coisas que eu tinha, então, ao contrário do jovem rico, mereço o céu!”. À maneira do jovem rico, Pedro esperava lisonjas de Jesus.

Até quando iremos subjugar a verdadeira espiritualidade à questão econômica? O céu não é mérito, seja você rico ou pobre. O reino de Deus nada tem com o comer e o beber, mas com justiça, paz e alegria no Espírito Santo (Rm 14:17).

Diante da presunção de Pedro, Jesus faz duas colocações que explicam as cobiçosas motivações do coração do jovem rico e do coração de Pedro. Primeiro, “aos que me seguirem”, estes receberão a glória. Segundo, os que largarem os bens materiais, não forem cobiçosos do que pertence ao outro ou do que o mundo tem a oferecer, estes receberão muito mais, mas, ainda assim, se o fizerem somente “por causa do meu nome”.

Assim, não há menção alguma de se ter como critério o fato de você ser rico ou ser pobre, mas o amor por Jesus é o que valida nossa caminhada cristã. Seja você pobre, seja você rico, sem amor de nada valerá o seu esforço em cumprir toda lei ou se enveredar numa vida ascética. E, por fim, Jesus chama a atenção de Pedro, que estava se apoiando no pretenso mérito da pobreza: “Porém…”, sentencia Jesus. “Cuidado Pedro com as motivações do seu coração, porque muitos, que aos olhos dos homens merecem o céu, serão os últimos e muitos, que aos olhos dos homens merecem o inferno, serão os primeiros”, está dizendo o Mestre.

E para ilustrar esta verdade, Jesus conta a parábola dos trabalhadores na vinha, que fala dos que confiam nas próprias obras e no esforço pessoal e, por isto mesmo, exigem um pagamento melhor e dos que simplesmente se alegram pela graça imerecida de trabalhar para o dono da vinha.

Até quando os cristãos preferirão abrir mão da verdade, para justificar uma prática social? Será que é preciso mesmo sacrificar o Evangelho para que se possa pregar sobre justiça social? Será que a Bíblia não é suficiente como única regra de fé e prática para engajar cristãos às boas obras? Se o cristianismo não consegue dar conta filosófica e teologicamente das questões sociais é de se deduzir que ele não deva ser suficiente à humanidade, do contrário por que precisaríamos nos valer de pressupostos de uma filosofia atéia, para motivar o cristianismo à ação social? Ora, até onde eu sei, deveria ser o Evangelho a reinterpretar o mundo e não o contrário.

No artigo publicado pela Revista Ultimato (setembro-outubro 2008), intitulado “Deus é pobre!”, de Klênia Fassoni e Lissânder Dias, há o seguinte subtítulo: “Evangélicos envolvidos em ação social discutem a opção de Deus pela pobreza”. Realizei uma pesquisa simples: digitei “opção” no Word. A breve lista que surgiu no dicionário de sinônimos segue: alternativa, escolha, eleição, preferência, seleção. O Word percebeu o campo semântico em que está inserida a palavra “opção”. Insisti no “Aurélio” e as definições são: 1) Ato ou faculdade de optar; livre escolha. 2) Aquilo por que se opta. 3) Preferência que se concede a alguém (para comprar ou vender, pagar ou receber) dentro de determinado prazo e mediante certas condições. 4) Documento que contém essa preferência.

O “Aurélio” concordou com o Word em identificar “opção” com “preferência”. Vamos, então, dar os quatro primeiros significados do “Aurélio” para “preferência”: 1) Ato ou efeito de preferir. 2) Predileção. 3) Manifestação de agrado ou distinção; 4) Anteposição, precedência, primazia. Enfim, Houaiss segue em semelhante direção, acrescentando uma curiosidade irônica: os puristas da língua consideram “opção” um galicismo. Compreendido o significado da palavra, o que se espera que o leitor entenda quando se afirma que Deus fez uma opção pelos pobres?

“Opção”, “preferência” e, ainda, “preempção” são palavras profundamente ligadas entre si. As três possuem significados que perpassam as áreas econômica, jurídica e, também, teológica. A idéia delas tem a ver com “compra”, ou melhor, “comprar antes”, “ter a preferência de uma compra”, “decidir antecipadamente por algo que se irá comprar” e, ainda, “preferência por comprar com exclusão de outros interessados”.

Enfim, “opção” é uma escolha. Assim, inevitavelmente, a opção de Deus pela pobreza é uma exclusão dos ricos. Crer e pregar que Deus optou pela pobreza é induzir o outro a acreditar que Deus faz acepção de pessoas. Isto, indubitavelmente, é anti-bíblico e anticristão (Rm 2:11; Ef 6:9; Col 3:25; I Pe 1:17). Não há na Bíblia alusão alguma a que Deus escolha pessoas com base na classe econômica a que pertencem. Ora, a idéia de que Deus optou de antemão comprar para si pessoas de uma classe econômica em detrimento de outras só existe na cabeça dos teólogos da libertação, sejam católicos sejam evangélicos. Na pregação de um Deus que opta pela pobreza, não há fraternidade, não há solidariedade, não há justiça, paz e nem alegria no Espírito Santo, há apenas conflito de classes. Uma religião que prega que Deus optou pela pobreza incentiva que seus seguidores façam uma opção que gera acepção econômica e a Bíblia é clara em chamar este ensino de pecado (Tiago 2:9).

É impressionante o desdobramento teológico que a distorção marxista causa no Evangelho puro e simples de Jesus Cristo e que tantos evangélicos reunidos no Congresso do RENAS não se dêem conta disso! Insistir em inverdades históricas de que Jesus “se tornou pobre”, usando os mesmos parâmetros modernos de pobreza, é uma falácia que nada tem de científica e que distorce a nossa compreensão histórica e social sobre os tempos de Jesus e as matizes da comunidade judaica. Dizer que “Deus expressa entre os pobres quem ele é” é fazer da pobreza a mediadora entre os homens e Deus, pois se a revelação do Ser de Deus está entre os pobres, infelizes dos ricos que se tornaram cristãos a exemplo de José de Arimatéia ou os “da casa de César” e, ainda, das mulheres que sustentavam Jesus e seus discípulos com seu trabalho e suas riquezas (Lc 8: 1-3). Enfim, dizer que “Deus fez aliança com o pobre” é o arremate final de toda distorção possível do que é e do que significa a aliança da Graça feita por Deus em Jesus Cristo para a salvação da sua Igreja.

Ouça as palavras do pastor luterano Valdir Steuernagel: “Deus tem coração ou tem só palavra? Deus é muito mais do que conhecimento. Precisamos ouvir o palpitar do coração de Deus. Este é o centro da fé: o Deus que procuro servir é o Deus que me alcançou, que veio, encarnou-se, tornou-se pobre, tornou-se fraco, morreu na cruz”.

Irônico é que essas palavras tenham sido publicadas exatamente na edição da Ultimato que traz como tema: “Tirem o crucificado da cruz”. O centro da fé do Pastor Valdir está sem ressurreição, sem glória, sem reconciliação. E é exatamente isto o que falta às Teologias marxistas e as suas demais filhas e também à pregação de que Deus opta pela pobreza. Mas, essas palavras do Pastor seguem às últimas tendências que insistem que não posso encontrar Deus na sua Palavra, no conhecimento revelado na Bíblia. É a práxis substituindo mais uma vez a ortodoxia da Palavra de Deus. Quem faz esse tipo de inversão? A Igreja Universal do Reino de Deus e a Teologia da libertação, aquela prega a riqueza e esta a pobreza, mas o fim de ambas será o mesmo. À impossibilidade de um rico entrar no céu, Jesus responde: “Isto é impossível aos homens, mas para Deus tudo é possível”. À presunção meritória da pobreza, Jesus previne: “Porém…”!

Deus é pobre? Opto pela riqueza da glória da minha herança nos santos, seja pobre ou rico (Ef 1: 18). Opto pela igreja (composta de ricos e pobres), que é o corpo rico (pleno) daquele que tudo enche (fartura) em todas as coisas (Ef 1:23). Opto pelo Deus que é rico em misericórdia, derramando sua Graça salvadora sobre ricos e pobres (Ef 2:4). Opto pela suprema riqueza da graça e da bondade de Deus em Cristo Jesus que atravessa toda a história da humanidade, seja entre ricos seja entre pobres. Opto pela derrubada da parede da separação entre judeus e gregos, homens e mulheres, ricos e pobres, na Igreja da reconciliação (Ef 2 e 3).

Deus é pobre? Opto por compreender que paupérrima são essas teologias que sacrificam a verdade por não discernirem no Evangelho de Jesus Cristo sua única regra de prática para as boas obras, as quais Deus preparou de antemão para que andássemos nelas (Ef 2: 10).


Fábio Ribas
Artigo escrito originalmente para a seção Palavra do Leitor do site Ultimato e cedido pelo autor.

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