Instituto Coração de Estudante: combatendo o abismo da educação

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Eram sete jovens em 1994. Nordestinos pobres e sem acesso à escola. Viviam em Cipó, uma pequeníssima comunidade rural de Pentecoste, no Ceará. O abismo entre eles e a universidade não era medido apenas pela estrada empoeirada de 85 quilômetros que separa Pentecoste de Fortaleza. Como, porém, superar esse abismo social? Como resgatar o potencial e descobrir as vocações desses jovens?

O professor de química da Universidade Federal do Ceará (UFC) Manoel Andrade Neto, que também cresceu em Cipó, encontrou uma solução: compartilhar aprendizagem. Com seu estímulo, os sete jovens resolveram estudar juntos, cada um ensinando o que sabia. Foram morar em uma casa de farinha abandonada e, como não havia energia elétrica, estudavam à noite sob a luz de lamparina.

Os resultados foram aparecendo. Conseguiram concluir o ensino médio e ingressar na universidade. Para eles o abismo fora transposto. Mas e para os demais? Foi aí que resolveram retornar às suas comunidades aos finais de semana para ajudar outros jovens. Nascia então o Projeto Educacional Coração de Estudante.

A iniciativa cresceu e se transformou em programa: o PRECE (Programa de Educação em Células Cooperativas),* atualmente apoiado pela Universidade Federal de Ceará. Com ele vieram as Escolas Populares Cooperativas (EPC’s), geridas pelos próprios estudantes. Atualmente, treze EPC’s funcionam em Pentecoste e municípios vizinhos; 150 estudantes estão na universidade e mais de mil jovens estão envolvidos com a “educação mútua”. O Coração de Estudante virou instituto e é administrado pelos próprios jovens beneficiados.

Norberto Bezerra, 32, um dos sete estudantes que há doze anos cursava a quarta série do ensino fundamental, é hoje doutorando em Química Orgânica de Produtos Naturais. Para outro estudante, Wagner Gomes, 25, filho de agricultores, a escola se tornou o caminho para a liberdade graças ao apoio do PRECE. “O dia em que pisei pela primeira vez na faculdade era como se fosse pentacampeão de futebol aos 47 minutos do segundo tempo”, diz Wagner, que hoje cursa economia.

A “liberdade” para Wagner é “empreendimento social” para o professor Manoel Andrade. Segundo ele, a metodologia utilizada resgata no jovem sua capacidade de falar e participar das mudanças em sua vida e na sociedade. “O programa vai muito além do ingresso na universidade. O fruto maior advém da transformação da comunidade, resgatando a melhoria da qualidade de vida de quem nada tem além de coragem, esperança e força para mudar”.

O caminho do estudante à universidade envolve muita perseverança. Alguns tentaram o vestibular repetidas vezes até serem aprovados; outros tiveram de enfrentar o dilema entre estudos e trabalho – do qual a família dependia para sobreviver. O instituto ajuda com bolsas de estudo, livros, moradia e alimentação.

Da assistência estudantil já nasceram mais projetos que ampliam o desenvolvimento social: um núcleo de apoio ao produtor rural e ao artesão, um grupo de desenvolvimento político e de ação comunitária, um núcleo de assessoria jurídica e contábil e projetos de esporte, dança, teatro e jornalismo comunitário.

O professor Manoel, que foi alfabetizado por um vizinho, encontra motivação em suas origens e numa fé viva em Jesus. “O PRECE era apenas um projeto da congregação local da Igreja Presbiteriana Independente da qual sou presbítero. Os primeiros recursos investidos vieram dos dízimos dessa congregação. A Igreja deve ser a principal protagonista das transformações sociais. Essa é a missão dos cristãos: andar como Jesus andou”, conclui o professor.

* O PRECE foi eleito em 2005 como uma das 45 melhores “Experiências em Inovação Social” na América Latina e no Caribe.

Clique aqui para ler a entrevista com o professor Manoel Andrade Neto, idealizador do projeto.

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