Árvores plantadas no asfalto

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Nilza Valéria

Quem passou pelo Elevado Costa e Silva, conhecido como Minhocão, na cidade de São Paulo deparou-se com uma cena diferente: 2183 mudas de árvores nativas da mata atlântica brasileira brotavam do asfalto, simbolizando o número de assassinatos no estado de São Paulo no primeiro semestre de 2008.

A manifestação que atraiu os olhares e a curiosidade dos que passeavam pela via – que aos domingos é fechada para o trânsito e vira área de lazer para os moradores da região – foi a forma encontrada pela Visão Mundial em parceria com a Comissão Municipal de Direitos Humanos para chamar atenção da sociedade para o alto índice de violência na cidade: “A Secretaria de Segurança Publica atesta que esse numero é menor do que o número de assassinatos no mesmo período no ano anterior. Ainda assim o número de pessoas mortas esse ano é equivalente à população de um condomínio popular, é um bairro desaparecendo por ano, isso ainda é assustador”, explica Ariovaldo Ramos, um dos líderes do Projeto Pastores de Justiça, da Visão Mundial, que coordenou a manifestação.

Para a dona de casa Francisca Torres, 61 anos, valeu a iniciativa: “Enquanto tiver morte acontecendo precisamos saber. Cada um de nós tem que fazer alguma coisa. Tem muito menino, muita gente jovem morrendo por causa de drogas”. De acordo com pesquisas realizadas pelo Centro de Segurança e Cidadania (CESeC), da Universidade Cândido Mendes, as principais vítimas da violência são homens, jovens de 16 a 25 anos, pobres, e com baixa escolaridade. “As vítimas diretas representam apenas um lado da tragédia. As vítimas indiretas são os que ficam: pais, filhos, mulheres, parentes e amigos próximos dos mortos. São as vítimas ocultas da violência, em geral invisíveis aos olhos da mídia, das políticas publicas e das pesquisas acadêmicas”, atesta a socióloga Julita Lemgruber, coordenadora do CESeC.

As mudas expostas no Elevado foram doadas pela Visão Mundial para a Secretaria do Verde que fará o plantio no Parque Anhanguera, onde será criado o Bosque dos Direitos Humanos, com áreas de lazer e convivência para que os visitantes tenham acesso a Declaração Universal dos Direitos Humanos e Cultura de Paz: “O espaço servirá para que crianças, adolescentes e jovens desenvolvam atividades que os faça compreender o quão nociva é a prática da violência, a importância de estabelecer a paz e como podem mediar conflitos tanto em suas famílias quanto em suas comunidades”, esclarece Ariovaldo.

Para que as 2136 mudas fossem plantadas no Elevado, a Visão Mundial contou com o apoio de igrejas da cidade. No sábado à noite, para arrumar a manifestação, compareceram mais de 30 jovens da Igreja Batista de Água Branca (IBAB).

No domingo, após a manifestação, mais voluntários para a retirada das mudas: jovens vindos do Capão Redondo e da Aliança de Misericórdia deram sua contribuição. “Estar aqui envolvido nisso é bom, é minha contribuição para chamar atenção para esse número de assassinatos. Cada muda dessa me faz pensar quem era a pessoa que morreu. Imagino se não era um irmão de rua”, sensibilizou-se Anderson, que vivia nas ruas da cidade até ser acompanhado pelo trabalho realizado pela Aliança de Misericórdia.

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