A Visão Missionária na Bíblia

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Desde o princípio do seu ministério Jesus buscou a companhia dos pobres e oprimidos:

Vim para evangelizar os pobres, libertar os cativos e oprimidos e restaurar a vista aos cegos. (Lc 4.18)

No sermão das bem-aventuranças, o contraste proposital entre pobreza e riqueza exemplifica a preocupação especial de Jesus pelos pobres, famintos, desesperados e oprimidos. Encontramos outros exemplos nas parábolas dos dois devedores (Lc 7.41-43; observe quem Jesus diz que o ama mais), do amigo insistente (11.5-8), do rico e seus celeiros (12.13-21; veja o último versículo), da moeda perdida (15.8-10), do administrador esperto (16.1-13; observe novamente o último versículo) e do juiz iníquo (18.1-8).

Antes de prosseguirmos em nossa elaboração do ministério de Jesus, consideramos necessário esclarecer dois pontos. Em primeiro lugar, quando afirmamos que Jesus dava preferência aos pobres e oprimidos, não estamos defendendo nem divulgando nenhuma teologia contemporânea de libertação. Nossa intenção é apresentar uma base (apesar de breve) e uma interpretação bíblica rigorosa e coerente (julgue você mesmo!). Em segundo lugar, sabemos que muito se tem falado sobre uma opção preferencial pelos pobres. A meu ver, a própria evidência bíblica leva a esta conclusão. Caso contrário, Jesus poderia ter dito: “O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os ricos” ou ainda, “bem-aventurados os ricos”? Paulo descreveria a igreja de Corinto como composta não “por muitos analfabetos, ou por muitos oprimidos, nem ainda por aqueles de nascimento humilde” (1 Co 1.26)? Para aqueles que preferem uma interpretação mais espiritualizada das Escrituras, ouso afirmar que há certa preferência bíblica pelo pobre e oprimido. Não é por acaso que nenhum dos textos citados descreve o pobre como alguém que não seja social e economicamente pobre. Por outro lado, para os que defendem uma interpretação mais liberal, apenas em termos sociopolíticos, digo que esta preocupação com o pobre não decorre propriamente da sua pobreza, mas está relacionada à justiça e à glória de Deus. O pobre é preferencialmente bem-aventurado porque não tem ninguém para defendê-lo, a não ser o próprio Deus (se ele realmente depender de Deus). Assim, o pobre bemaventurado é de fato uma pessoa política e economicamente pobre, e apesar de ser injustiçado pelos homens é considerado justo diante de Deus. Esta idéia do pobre injustiçado e ao mesmo tempo justo deriva da palavra ‘ani do Antigo Testamento, que pode ser traduzida como “pobre”, “humilde” ou “piedoso” (Am 2.6; Is 2. 6-12). Resumindo, o rico dificilmente reconhece a postura do pobre e este tem preferência diante de Deus por ser mais propenso a depender de Deus. Sua dependência de Deus ultrapassa as dimensões espiritual, emocional e relacional, incluindo também as crises financeiras, operárias e até políticas do cotidiano, que pouco afetam os ricos. Entretanto, quando o rico consegue assumir esta mesma postura (não é este o sentido da exortação ao jovem rico em Lucas 18.18-23?), também pode gozar da bênção de Deus (como no caso da bem-aventurança para o “humilde” ou “pobre de espírito” em Mateus 5.3). chamos que devíamos nos alongar nesta questão por dois motivos: primeiro, por ela carecer de esclarecimento bíblico e, segundo, por ser bastante pertinente à realidade brasileira, já que a maior parte da população do Brasil é constituída de pobres (e cada vez mais, proporcionalmente!).

Jesus certamente também ministrou aos ricos, pois tanto Zaqueu quanto José de Arimatéia dispunham de bons recursos financeiros (porém, a orientação de ambos quanto às suas riquezas teve que mudar diante do compromisso com Jesus!). Assim, devemos observar que se Jesus assumiu uma opção preferencial pelos pobres certamente esta opção não era exclusiva. O essencial é o compromisso assumido com o Senhor, que se manifesta de maneira concreta não só em uma vida devotada a Deus, mas também nos relacionamentos humanos.


Artigo cedido pela Editora Ultimato – www.ultimato.com.br

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