Nossos filhos

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Tem um menino cego de cinco anos que pede esmolas na esquina de Ouvidor com Rio Branco. Seus olhos são de um azul feio, pois não brilham, e teias de cruéis aranhas não nos permitem ver suas inúteis pupilas. Mas está sempre sorrindo com a mãozinha estendida. Às vezes leva uns cascudos de uns camelôs, pois temem que ele possa espantar os fregueses.

Tem um outro menino de dez anos que, na Funabem, está sendo sodomizado, violentado pelos mais velhos, sem que os guardas nada façam pois essa é a lei da selva. Uma menina de sete anos costuma apanhar coisas aproveitáveis no lixão de Queimados. Já encontrou até um celular, com o qual brinca de telefonar para as amigas que não tem. Outro dia encontrou uma pizza gigante apenas mordiscada e dividiu com os irmãos. A festa durou pouco, pois haviam colocado veneno de rato na pizza e a garotinha, que comera a maior parte do tesouro que descobrira, morreu entre dores atrozes.

Um menino inteligente, filho de um operário, ganhou uma bolsa de estudos em uma escola para crianças ricas. Logo, por suas roupas, seus modos, pelo fato de vir de ônibus e não ter dinheiro para comprar nada na cantina, as outras crianças descobriram que era diferente. Tentou imitar os coleguinhas, mas de tanto ser ridicularizado e humilhado, acabou brigando e foi expulso da escola por comportamento anti-social. Alguns anos depois, foi morto pela polícia tentando roubar uma bicicleta.

Na favela do Rato Molhado, uma garotinha vivia com a mãe e os irmãozinhos. Cada um de um pai diferente. Ela entregava aos passantes do Centro da cidade cartões anunciando compra de ouro. Uma noite foi estuprada pelo último "pai", bêbado. Recém havia menstruado e engravidou. Alguém lhe ensinou a enfiar o gancho de um cabide de arame dentro da vagina e ela morreu no mato, em meio a uma poça de sangue, com a boneca a alguns metros de distância.

No Leme, um menino de menos de dez anos ganhou R$ 50 para comprar pó. Nunca entregou a mercadoria. Gastou todo o dinheiro na confeitaria e ainda levou um bolo para casa. Três dias depois, foi encontrado com um tiro na cabeça para servir de exemplo. Não se dá "banho" em freguês.

Às cinco horas da manhã, antes de ir para a escola, um moleque lava vidrinhos de homeopatia no fundo do quintal de uma drogaria. Morto de sono, alguns vidrinhos caem de sua mão e quebram-se contra o solo. O dono lhe dá um tapa na boca que não pára de sangrar. Impossível esquecer este menino, porque ele vive dentro de mim e clama por justiça desde aquele dia.
Às seis da manhã, o pessoal que desce o morro do Pavãozinho descobre no meio do depósito de lixo um bebezinho nascido horas antes. Correm com ele até o hospital mais próximo, mas ele, que já fora mordido no rosto por uma ratazana, tem sorte e morre.
Atrás de um botequim sórdido, uma menina de 12 anos felacia um turista bêbado por US$ 5. São surpreendidos por um soldado, que corre com o turista, fica com os US$ 5 da menina e ainda a usa sexualmente.

Um garotinho de oito anos que puxa um cego por uma corda, pára em frente a uma loja de brinquedos, em Copacabana. Recebe algumas bengaladas do cego para ir em frente, pois estão longe do ponto onde ele pede esmolas e o menino canta e sapateia. Como olhinhos tão pequenos e remelentos podem conter toda a tristeza do mundo?

Depois de treinar por meses, um garotinho consegue, finalmente, manter quatro laranjas no ar sem que nenhuma caia. Pouco antes de a luz vermelha dar lugar à verde, ele corre até um Mercedes e bate na porta de trás, onde um menino da sua idade está sentado e estende a mãozinha. O menino abre a vidraça automática e lhe diz: "Vai trabalhar, vagabundo", enquanto o carro se põe em movimento. Perto dali, 15 mil brasileiros adultos sobreviventes estão ordenadamente em fila há quase 12 horas. Sonham com um prêmio que o prefeito lhes dará; sonham obter uma das 50 vagas para garis.

Sempre quis viver num país onde todos os homens e mulheres se sentissem pais e mães de todas as crianças. Sei que isso é impossível, mas estamos a alguns dias das eleições. Votem na candidata que obrigará o Estado a ser pai e mãe dessas crianças, para que não precisemos mais viver com esse remorso horrível que corrói nossas entranhas e leva lágrimas aos olhos. [1] As lágrimas, por si só, não podem fazer nada pelas criancinhas que deram o azar de nascer pobres num país de políticos ladrões, cruéis e sem coração. Tem tudo para ser um paraíso. Mas se chama Brasil.

(*) Não afirmaria, perguntaria:
"Que candidato obrigará o Estado a ser pai e mãe dessas crianças, para que não precisemos mais viver com esse remorso horrível que corrói nossas entranhas e leva lágrimas aos olhos?"

Fausto Wolff
jbonline.terra.com.br
26.09.2006

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