Por uma eco-solidariedade

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A questão energética é apenas uma das facetas dos graves problemas que a humanidade vive nos dias atuais e está relacionada diretamente aos desafios ecológicos do presente. Ecologia vem se transformando num termo muito popular, e está, a cada dia que passa, na boca de mais pessoas e na pauta da mídia. Ser ecológico agora é moda. Porém, para muitos, ecologia continua tendo um significado muito limitado – é coisa dos ‘verdes’; acham que ecologia está relacionada apenas com a luta contra o desmatamento, a poluição dos rios e mares, a extinção dos animais…

A palavra ecologia, criada em 1866 pelo biólogo alemão Ernst Haeckel (1834-1919), tem origem nas palavras gregas – oikos, que significa casa, e logos, traduzida por reflexão ou estudo. Portanto, a princípio, ecologia tem a ver com o estudo das condições de vida da nossa casa comum, a mãe-terra.

No entanto, o termo que foi utilizado durante muitos anos numa perspectiva biológica, abre-se agora para novas possibilidades. Boff afirma que: "atualmente abriu-se o conceito para além dos seres vivos. Ecologia representa a relação, a interação e a dialogação que todos os seres (vivos e não vivos) guardam entre si e com tudo o mais que existe… A ecologia não abarca somente a natureza (ecologia natural), mas também a cultura e a sociedade (ecologia humana, social etc.). A partir daí surgiram subdeterminações da ecologia, como a ecologia das cidades, da saúde, da mente etc."

Esta nova visão ecológica pressupõe uma cosmologia holística (holos, que no grego significa totalidade), ou em outras palavras, uma visão de totalidade. "Para uma visão ecológica, tudo o que existe coexiste. Tudo o que coexiste preexiste. E tudo o que coexiste e preexiste subsiste através de uma teia infindável de relações inclusivas. Tudo se acha em relação. Fora da relação nada existe… Todos os seres contam e possuem sua relativa autonomia; nada é supérfluo ou marginal… Numa palavra, poderíamos definir ecologia como a ciência e a arte das relações e dos seres relacionados."

É a partir desta perspectiva holística que precisamos assumir como práxis cristã uma ecologia orientada pela solidariedade (eco-solidariedade), portanto uma ecologia cidadã. A questão ecológica é paradigmática pois "relativiza todas as demais questões e funda a nova radicalidade e a real centralidade das preocupações humanas" . Todos os seres que compartilham esta casa comum estão ameaçados, especialmente os mais empobrecidos, aqueles excluídos do ‘paraíso’. Como Herbet de Souza, costumava afirmar: "a modernidade construiu um mundo menor que a humanidade". Não cabe todo mundo, alguns se transformam em seres sobrantes, descartados pela lógica excludente do mercado. São homens, mulheres, crianças e idosos semimortos, com seus corpos expostos nas ruas, viadutos, praças, favelas e periferias das cidades e também do campo, na esperança de encontrar pessoas que possam ajudá-los na recuperação de sua dignidade e cidadania.

Portanto, pensar em ecologia orientada pela solidariedade é uma conspiração, isto é, ter consciência que todos respiramos do mesmo ar e que o destino do outro está vinculado ao meu destino. Aqui está um desafio permanente aos cristãos e cristãs que vivem sua fé na dimensão da cidadania. 

Obs. Esse texto foi inspirado em artigos publicados no livro: CASTRO, Clovis Pinto. A Cidade é minha paróquia, Editora Êxodus e EDITEO, São Bernardo do Campo, 1996. 

Artigo cedido pelo jornal Espaço Cidadania.

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