Cultura do silêncio

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Nove dos dez países mais afetados pela aids estão na África Subsaariana. Por que não no Norte da África? Em parte, porque são nações economicamente mais desenvolvidas. Mas há uma razão mais séria: “Assim como os valores morais tradicionais protegiam os africanos das conseqüências do abuso do sexo e da sexualidade, o islamismo ainda o faz no Norte da África. Essa região é predominantemente muçulmana e lá o islamismo não é só uma religião, mas também uma cultura. As leis muçulmanas que governam a castidade, a fé e a pureza sexual são muito rígidas e ainda fortes”. A resposta é da assistente social ugandense Stella Joy Nagitta Kasirye, que passou três meses no Centro Evangélico de Missões, em Viçosa, MG, para fazer um curso intensivo de português, já que está de partida para Moçambique, onde deverá apoiar programas da World Relief no Sul da África, com ênfase especial em Maláui e Moçambique. Nos últimos sete anos, Stella montou programas contra a aids em três países africanos (Uganda, Ruanda e Maláui) e ofereceu consultorias na África do Sul, Zimbábue, Gana, Quênia, Moçambique e Tanzânia. Convertida na adolescência e formada na Universidade Makerere, em Kampala, e no Wheaton College, em Chicago (mestrado em ministérios educacionais), Stella, 39 anos, é diaconisa da Igreja Batista de Kampala.

Ultimato — Você perdeu uma irmã e três irmãos por causa da aids e cuida de três meninas órfãs também por causa da doença. A situação é muito difícil?
 
Stella —
Sim, é muito difícil. Gostaria de ter meus irmãos de volta. Minha irmã caçula morreu aos 24 anos. Ela era como minha filha. Um dos meus irmãos, em seus últimos dias de vida, deu entrada em um hospital na Inglaterra e disse aos outros que não tinha família, porque temia a nossa reação. A perda de uma vida jovem é trágica, especialmente quando ela é sangue de seu sangue. Todavia, a morte de meus irmãos aqueceu minha paixão por estar ativa e diretamente envolvida na luta contra a aids e por minimizar seu impacto na África.

Ultimato — De acordo com o prognóstico do UNICEF, 18 milhões de crianças africanas poderão ficar órfãs por causa da aids até 2010. Você confirma?
 
Stella —
É muito possível. Na África Subsaariana, 12 milhões de crianças perderam um ou ambos os pais por causa da aids.

Ultimato — Segundo o presidente da Roche, 60% dos doentes de aids vivem na África Subsaariana. Por que nessa vasta região e não no norte do continente? 

Stella — Há vários fatores que contribuem para a rápida disseminação da aids na África Subsaariana. No entanto, é bom esclarecer que há mais informações disponíveis na África do que em outros lugares, por causa da abertura dos países africanos e da fartura de pesquisa. Estatísticas mostram que, assim que a Ásia se abrir mais e mais, esse quadro pode mudar. No nosso caso, um dos fatores é a associação existente entre a pobreza e a disseminação da aids. Quantas comunidades rurais da África têm acesso ao teste de HIV/aids antes do casamento? No Brasil vocês têm acesso gratuito ao tratamento anti-retroviral, mas em muitas partes da África isso ainda é privilégio daqueles que participam como voluntários em projetos de pesquisa; conseqüentemente, as pessoas são presas fáceis de infecções oportunistas e morrem mais cedo. O desequilíbrio entre o desenvolvimento nas áreas urbanas e rurais em muitas regiões da África resultou no crescimento do êxodo rural. Nas mineradoras, por exemplo, os homens não podem levar suas famílias. Eles vão trabalhar longe e ficam seis meses fora de casa. Então começam outros relacionamentos que os expõem ao risco da aids. Quando voltam, contaminam suas mulheres. Nós deixamos de lado nossos princípios e fingimos que eles ainda existem. É o que chamo de “mentalidade de avestruz”. Dizem que, se instituirmos medidas preventivas, estaremos encorajando a promiscuidade. Enquanto isso, muitos africanos estão morrendo. Precisamos encontrar alternativa para os escrúpulos que perdemos.

Ultimato — Você conhece o coquetel anti-aids que o Brasil produz e distribui a todos os portadores do HIV no país? 

Stella — Não estou familiarizada com o coquetel brasileiro de tratamento para doentes de aids. Mas eu sei que cada país tem um coquetel de remédios usados para tratar infecções oportunistas relacionadas ao HIV/aids e fortalecer o sistema imunológico dos pacientes. Cada país decide sobre o coquetel, dependendo da eficácia, infecções mais comuns, disponibilidade e custo.

Ultimato — Fala-se que as nações ricas ajudam nos programas contra a aids, mas depois querem que os países onde atuam comprem medicamentos deles para haver retorno financeiro. É isso mesmo? 

Stella — Há muitas injustiças relacionadas ao tratamento da aids. Enquanto os países de alta renda têm trabalhado para reduzir os custos do tratamento da doença e para tornar os remédios acessíveis aos países de baixa renda, ainda há muito a ser feito para assegurar a igualdade. Muito da ajuda que vem aos países pobres é o que chamamos “tied aid” [ajuda condicionada]; ela geralmente volta aos países doadores como salários para o pessoal expatriado desses países, pagamentos de despesas obrigatórias relacionadas à implementação de programas e honorários de consultores. Isso não é diferente quando a ajuda é em relação à aids.

Ultimato — Por que você decidiu se dedicar ao trabalho de assistência aos aidéticos? 

Stella — O momento definidor para o meu chamado ao ministério voltado para portadores de HIV/aids foi durante uma visita a um hospital na Virgínia, nos Estados Unidos, em 1988. Perguntei a um rapaz de 27 anos que estava morrendo de AIDS qual era o seu último desejo. Ele disse: “Gostaria de ter a minha vida de volta para que eu pudesse vivê-la de maneira diferente”. Saí do hospital me perguntando como eu poderia ajudar as pessoas a viverem vidas com propósito, de forma que quando chegassem ao fim, não se lamentassem quando olhassem para trás, mas celebrassem.

Ultimato — Como se faz a prevenção à aids? 

Stella — Para evitar a aids temos de nos atentar para todos os fatores que contribuem para o avanço da doença. Precisamos encontrar soluções duradouras para os seguintes problemas: 1) acabar com o círculo vicioso da pobreza por meio da geração de renda para que as pessoas não se exponham aos riscos pensando que não têm opções; 2) tornar a educação e a informação mais acessíveis a todos para que ninguém pegue aids por ignorância ou informação equivocada; 3) estabelecer comunicação entre as gerações e quebrar a cultura do silêncio para que os jovens possam ter acesso a informações precisas sobre sexo e sexualidade, de fontes confiáveis; 4) criar alternativas culturais e sociais para proteger as pessoas da mesma forma que os valores morais tradicionais protegiam; 5) controlar o êxodo rural por meio do desenvolvimento das áreas rurais e tornando serviços sociais e oportunidades de emprego disponíveis tanto na área rural quanto nas cidades; 6) reconstruir as bases espirituais e desenvolver ministérios que atendam às necessidades dos jovens. O programa de prevenção precisa deixar de lado o medo como motivação. Os jovens precisam mudar de comportamento não por medo, mas porque é o melhor para eles.

Ultimato — Como assistente social e como cristã, você é a favor da distribuição maciça e gratuita de preservativos como forma de prevenir a aids? 

Stella — Primeiramente, temos de entender que os preservativos existiam antes da epidemia de aids. Eram usados na prevenção de outras doenças sexualmente transmissíveis e no planejamento familiar. Às vezes os cristãos agem como se as camisinhas tivessem surgido com a epidemia de aids. Como assistente social e como cristã, acredito que a minha responsabilidade vai além de assegurar que as pessoas sejam salvas e herdem a vida eterna. Acredito que tenho a responsabilidade de promover a vida, mesmo entre aqueles que rejeitam a mensagem da salvação e os valores morais cristãos. Apesar de não apoiar a distribuição indiscriminada de camisinhas, especialmente entre os jovens, não concordo com o ponto de vista extremista de que se deve eliminar a camisinha da luta contra a aids.

Ultimato — Uganda é conhecida por seu programa ABC — Abstinence, Be-faithful, Condom [abstinência, fé e camisinha]. A Igreja Católica e o fundamentalismo protestante que apóia o presidente Bush subestimam o terceiro pilar do programa e reforçam os dois primeiros. Essa política em Uganda tem dado certo? 

Stella — Uganda é um dos países bem-sucedidos na redução de novas infecções pelo HIV. O programa ABC tem sido proclamado como a chave para o sucesso do trabalho em Uganda. Ele é parte importante da história, mas não é toda ela; portanto, hesito em responder sim ou não à pergunta. A verdadeira história por trás do sucesso de Uganda é o fato de cada setor da sociedade ter reconhecido que a aids é um problema dele e aderido à luta contra a doença: os pastores usando os púlpitos e as estruturas da igreja como campo de batalha contra a aids; os professores usando a sala de aula; as mulheres na comunidade tomando conta dos órfãos; os trabalhadores divulgando vagas de trabalho; o presidente e a primeira-dama trabalhando na campanha nacional. O sucesso deve-se ao fato de cada um fazer a sua parte, e não ao A, ao B, ao C ou ao ABC.

Ultimato — Qual é a sua experiência com a World Relief? 

Stella — Passei a fazer parte da World Relief em 1998, e meu primeiro cargo foi de coodenadora contra a aids na África. Meu trabalho era ajudar os escritórios da World Relief a montar um programa contra a doença. Em 1999 fui convocada a ir para Maláui e ajudar a restabelecer uma presença direta no país, sendo o Mobilizing for Life [Mobilizando pela vida] o nosso programa inicial. Em 2001 tornei-me diretora nacional para Maláui para coordenar não só o programa contra a aids, mas também o Child Survival Program [Programa de Sobrevivência da Criança]. Tenho algumas paixões e sou muito grata porque meu trabalho na World Relief me permite curti-las. Sou apaixonada pela igreja local. Por meio dela, Deus corrige o que está errado em nosso mundo. A igreja precisa ser igreja, o Corpo de Cristo, suas mãos, seus pés, seus ouvidos, seus olhos, seu coração, para fazer o que Cristo faria. Minha outra paixão é lutar pela causa dos menos privilegiados. Não como ativista, mas como parte do processo que os ajuda a reconhecer que eles não são vítimas, que o destino deles não está selado, que com a ajuda de Deus, por meio do seu povo, eles têm como transformar as circunstâncias e ser úteis para suas famílias, suas comunidades e suas nações. Então, sou grata pelo meu trabalho com a World Relief por me oferecer oportunidades de ser uma pessoa-chave no desenvolvimento transformador entre algumas das comunidades mais pobres do mundo.

Ultimato — Você conheceu Festo Kivengere, o famoso bispo anglicano de Uganda? 

Stella — Meu primeiro encontro com Festo Kivengere foi através de três livros dele: Love Unlimited [Amor ilimitado], When God Moves, You Move Too [Quando Deus age, você age também] e I Love Idi Amin [Eu amo Idi Amin]. Na verdade, o primeiro sermão que preguei no Ensino Médio foi tirado de When God Moves, You Move Too. Mais tarde encontrei-me com o bispo Festo na Annual University Mission em 1987. Ele era missionário-chefe naquele ano e aquela foi a última conferência missionária da qual ele participou antes de sua morte.

* Artigo veiculado neste site com a devida autorização da Editora Ultimato.

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