Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus.

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O sofrimento do discípulo é uma conseqüência de sua firme decisão de viver em serviço do bem contra o mal, de lutar pela justiça contra toda a injustiça, de amar a despeito do ódio de muitos, de ser pacificador em meio à guerra. Ele não precisa ser perseguido para ser feliz, mas é feliz mesmo diante da perseguição. A existência dessa bem-aventurança para o discípulo não depende da maldade daquele que o persegue. Assim como nas outras bem-aventuranças, Jesus está falando de uma condição interior, uma virtude nata – regra áurea para todas as bem-aventuranças.

Irmãos dos profetas
O discípulo tem uma espécie de satisfação por identificar-se como um seguidor de Jesus Cristo. Sente alegria por poder intitular-se um continuador histórico dos profetas. Os profetas não foram perseguidos gratuitamente. Eles possuíam valores, mensagens e um estilo de vida que afrontava e denunciava.

O estilo de vida de um discípulo de Jesus é um problema para quem deseja permanecer no pecado, na malícia, no engano. A mansidão do discípulo desmascara a fragilidade dos valentes, a sensibilidade desnuda a selvageria dos indiferentes, sua sinceridade expõe o engano dos farsantes, sua misericórdia denuncia a falsidade dos legalistas. Logo, não há como se evitar a incompreensão, a injuria, e a perseguição ao discípulo de Jesus Cristo.

O discípulo se sente mais humano em identificar-se com a dor do profeta perseguido do que com o poder e a maldade daquele que persegue.

Sofrendo com Cristo
Quem são e como são perseguidos os discípulos do evangelho do Século XXI? São pessoas superdotadas de poder e força e com uma imagem bem maquiada pela mídia. Em que situação os discípulos que estão na vitrine seriam crucificados? Alguns seriam consumidos pelo próprio engano e desencanto. Pedro fala desse sofrimento causado pelo roubo, negócio de malfeitor ou pela intromissão do indivíduo em negócios de outrem (I Pe. 5:15). Neste caso a pessoa sofre como conseqüência do pecado, pela sua própria injustiça e não por causa da justiça. Sofre não como uma projeção da cruz. A cruz, como projeto de Deus, é terreno de depuração. É o cenário aonde o discípulo encontra-se de mãos vazias, despojado de tudo que possa lhe cegar a visão da vida – dinheiro, fama, prestígio.

É assim que o discípulo reencontra alegria e realização, pela identificação e certeza de parceria nos sofrimentos de Cristo. O Apóstolo Pedro ainda diz: “…alegrai-vos na medida em que sois co-participantes no sofrimento de Cristo…” (I Pe 5:13). Masoquismo? De forma alguma. O discípulo, à semelhança do Mestre, até prefere fugir do sofrimento, mas, a favor da vida, é capaz de orar: “Pai, se possível passa de mim este cálice, sem que eu beba, mas não seja feita a minha e sim a tua vontade”.
 
Alienado das bem-aventuranças, qualquer ser humano estará desconectado e em desarmonia com a vida. Isso causa uma profunda tristeza – fúnebre e desesperada tristeza de não ser.

Carlos Queiroz, casado, dois filhos, é pastor da Igreja de Cristo e leciona missiologia no Seminário Teológico de Fortaleza.

* Artigo cedido pela Revista Mãos Dadas.

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