Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia (Mt 5.7)

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Na Bíblia, misericórdia, graça, compaixão e piedade são palavras usadas, na maioria das vezes, com o mesmo significado. Misericórdia e graça, principalmente, não apresentam muita diferença. Se quisermos estabelecer alguma diferenciação, precisamos, no mínimo, conservar uma como desdobramento da outra. Sobre essa distinção, Martin Lloyd Jones diz:

“[…] enquanto a graça condescende diante da questão do pecado como um todo, a misericórdia contempla especialmente as miseráveis conseqüências do pecado. Isto posto, a misericórdia realmente aponta para um senso de compaixão, de parceria com o desejo de aliviar os sofrimentos. […] Assim sendo o crente é alguém dotado do senso da piedade.” (LLOYD-JONES, 1984; 91)

Concentremos a nossa atenção na misericórdia como virtude, como ação do discípulo cheio da graça de Deus. Uma vez alcançado pela graça de Deus, o discípulo torna-se uma pessoa graciosa — age com a mesma graça que recebeu de Deus, com senso de piedade em relação aos outros.

A misericórdia é a virtude que tem piedade da pessoa a despeito do seu erro, enquanto a justiça é a virtude que preserva essa mesma pessoa buscando, não a mera punição do erro, mas a erradicação do mal que o provoca.

Misericórdia não é complacência
Olhando a misericórdia isoladamente, pode-se confundi-la com complacência, leviandade, indiferença ao erro. Mas a misericórdia é também condição interior de um ser faminto e sedento de justiça. O legalista religioso pune o pecador sem misericórdia, não percebendo que não está tratando a doença que gera o mal.

Jesus não foi complacente com os pecadores. As meretrizes, por exemplo, ele não tratou com o mesmo rigor dos religiosos de sua época; não apedrejou uma sequer. Talvez essas mulheres não percebessem a dignidade do próprio corpo — vendiam seus sentimentos como se fossem objetos. E, quem sabe, agiam assim por não se sentirem amadas. Por um lado, os homens, à semelhança delas, viam nos corpos femininos objetos de consumo – atitude injusta motivada pelo egoísmo. Por outro lado, os religiosos viam nesses mesmos corpos objetos a serem banidos — atitude injusta motivada pela hipocrisia. Jesus, entretanto, aproximava-se dessas mulheres reconhecendo o valor humano que possuíam; e, enquanto recebia delas o aroma da confissão e do arrependimento, batizava-as com misericórdia e justa compaixão.

Nas organizações sociais precisamos de leis, normas e procedimentos. Mas, se não cuidarmos bem, tais leis se transformam em instrumentos de injustiça, pois em geral focalizam a ação no erro e, não, na raiz do mal. Era o que acontecia com os escribas e fariseus. Eles cultivavam uma espécie de justiça que exigia o sacrifício de inocentes. A isso Jesus contrapôs: “Mas, se vós soubésseis o que significa: Misericórdia quero, e não holocaustos, não teríeis condenado a inocentes” (Mt 12.6, 7). Os discípulos de Jesus colhiam e comiam espigas num dia de sábado, pelo que os escribas e fariseus procuraram denunciá-los. Jesus não foi complacente. Teria sido se, porventura, seus discípulos estivessem trabalhando sob regime forçado, sem direito a repouso coerente e justo, e, nessa circunstância, Jesus tivesse quebrado o direito deles ao repouso.

O sábado era uma providência legal para que o trabalhador usufruísse o direito sagrado do descanso — manifestação histórica da justiça e da misericórdia. A lei sobre a guarda do sábado não poderia ter se transformado num instrumento para sacrificar inocentes. Somente alguém com senso de misericórdia teria a sensibilidade de perceber a distorção do uso dessa lei. “Encontraram-se a graça e a verdade, a justiça e a paz se beijaram” (Sl 85.10). A união desses valores evita que a misericórdia seja confundida com complacência — amor sem verdade. Ou que a justiça seja reduzida apenas à punição — verdade sem misericórdia.

(Continua)

Carlos Queiroz, casado, dois filhos, é pastor da Igreja de Cristo e leciona missiologia no Seminário Teológico de Fortaleza.

* Artigo cedido pela Revista Mãos Dadas.

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