A Traquinagem* Santa das Crianças

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Mas, vendo os principais sacerdotes e os escribas as maravilhas que Jesus fazia e os meninos clamando: Hosana ao Filho de Davi!, indignaram-se e perguntaram-lhe:
Ouves o que estes estão dizendo? Respondeu-lhes Jesus: Sim; nunca lestes: Da boca de pequeninos e crianças de peito tiraste perfeito louvor? (Mt 21.15,16)

A aclamação “Hosana ao Filho de Davi” pronunciada na estrada, quando Jesus entrava em Jerusalém, agora se repete dentro do templo. No templo, vários milagres aconteceram: “Vieram a ele no templo cegos e coxos, e ele os curou” (v 14). Na estrada o narrador diz que a multidão clamava. No templo, somente os meninos gritavam: “Hosana ao Filho de Davi” (v 15).

Pode-se pressupor que os sacerdotes e escribas estivessem insinuando que Jesus ou alguém do seu grupo tivesse manipulado ou induzido às crianças para essa manifestação. As quatro narrativas do evangelho mostram que os líderes religiosos queriam silenciar o povo. Mas apenas Mateus registra a manifestação partindo das crianças, e curiosamente dentro do templo. Que lições aprendemos com esta experiência, na forma como Jesus acolhia as crianças?

O protagonismo das crianças
Observando-se como o templo era, supomos que não era um lugar para as crianças. A burocracia, a linguagem difícil e as idéias complicadas excluíam os meninos e as meninas. No entanto, Jesus sempre ofereceu às crianças um lugar privilegiado em seu Reino. Um exemplo é o encontro de Isabel e Maria, quando João Batista, ainda um feto em formação, mas com percepção sensitiva aguçada, exulta no ventre de Isabel (Lc 1.44). No Reino de Deus a criança é anunciada como agente e protagonista: “Um menino nos nasceu… o governo está sobre os seus ombros.” (Is 5.6). Antes mesmo de qualquer manifestação pública de Jesus, os magos do oriente reconheceram na mais tenra infância do filho de Maria, o seu caráter messiânico (Mt 2.11). Quando os discípulos discutiam sobre espaços e concorrência de poder, Jesus privilegiava as crianças (Mc 9.33-37).

O louvor das crianças
O louvor a Deus necessita ser espontâneo, natural e sincero. Nisto as crianças são especiais. Em geral, tudo que fazem, o fazem com a mais profunda naturalidade e honestidade. Você já observou uma criança fazendo teatro? Em geral, somente depois de muito treino dos adultos, ela consegue, com raras exceções, representar um personagem que não seja ela mesma. As crianças são muito autênticas em sua singularidade. Acredito que é por causa disso que Jesus contesta as autoridades religiosas. Ele referia-se ao fato de que livremente as crianças estavam expressando um sentimento profundo de apreciação pela presença do Filho de Deus.

Diz-se na pedagogia que as crianças aprendem enquanto brincam. Seria demais dizer que louvam enquanto traquinam? É… temos muito o que aprender com as nossas crianças: a expressar a Deus um “perfeito louvor”, mais natural e a sermos mais sinceros. Aprendemos com as crianças a construir relacionamentos mais espontâneos capazes de acolher com afetividade.

Prestemos atenção. Enquanto ensinamos aos nossos pequeninos a serem mais adultos, eles nos ensinam, com a traquinagem, a sermos mais humanos – imagem e semelhança de Deus no seu momento mais original da existência.

* traquinagem: travessura (Dicionário Houaiss)

Carlos Queiroz, casado, dois filhos, é pastor da Igreja de Cristo e leciona missiologia no Seminário Teológico de Fortaleza.

** Artigo cedido pela Revista Mãos Dadas.

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