O desafio da gestão no terceiro setor

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As organizações do terceiro setor estão presentes no Brasil há séculos. Desde a fundação das primeiras Santas Casas de Misericórdia, ainda no século XVI, as entidades privadas sem fins lucrativos têm tido participação significativa em nossa sociedade.

Contudo, há até pouco tempo, a “eficiência administrativa” não estava entre as maiores preocupações deste setor. Diversos fatores fizeram com que isto se alterasse nas ultimas décadas, destacando-se dentre eles: o processo de publicização, que transferiu para o terceiro setor atividades até então desempenhadas pelo Estado; o escasseamento no financiamento internacional para o terceiro setor brasileiro após a queda da União Soviética, pois os paises da Europa Ocidental passaram a priorizar o apoio a programas no leste europeu; e o próprio aumento de entidades sem fins lucrativos, acirrando a concorrência por financiamento entre elas.

Todos estes fatores, por um lado, levaram as organizações do terceiro setor a buscarem formas mais eficientes de administrar seus projetos e programas. Por outro lado, despertaram o interesse da comunidade acadêmica. Se até recentemente estas entidades eram estudadas, principalmente, nas ciências sociais e políticas, nos últimos anos, pesquisadores da área organizacional (Administração, Economia, Engenharia de Produção, etc.) passaram a dar maior atenção ao estudo da gestão neste tipo de organização. Assim, têm surgido diversos trabalhos na área de administração do terceiro setor.

Muitos deles procuram aplicar no setor sem fins lucrativos, conceitos já consagrados nos setores empresarial e estatal. Contudo, as particularidades das organizações do terceiro setor e seu papel cada vez mais destacado na sociedade e na economia requerem o desenvolvimento de sistemas de gestão e operação próprios.

O primeiro programa de pesquisa sobre gestão de organizações sem fins lucrativos foi conduzido em Yale em 1975. O próprio termo “nonprofit sector” (principal denominação utilizada nos EUA) surgiu há menos de duas décadas.

No Brasil, as maiores universidades criaram, no final da década de 1990, grupos de pesquisa dedicados a esta temática. Dentre eles, destacam-se o Centro de Estudos do Terceiro Setor da Fundação Getúlio Vargas em São Paulo (CETS-FGV) e o Centro de Estudos de Administração do Terceiro Setor da Universidade de São Paulo (CEATS-USP). Estes centros procuram desenvolver conhecimento sobre o assunto, formando uma base para futuros cursos de Administração voltados especificamente para o terceiro setor.

Um trabalho que merece destaque é a Dissertação de Mestrado de Andrés Falconer, defendida na Faculdade de Economia e Administração da USP em 1999. Nele, o autor identifica quatro aspectos principais a serem desenvolvidos na gestão do terceiro setor, apresentados na tabela abaixo.

Desafio
Descrição
Accountability

Necessidade de transparência e responsabilidade da organização em prestar contas perante os diversos públicos que têm interesses legítimos diante delas

Sustentabilidade

Capacidade de captar recursos – financeiros, materiais e humanos – de maneira suficiente e continuada, e utilizá-los com competência, de maneira a perpetuar a organização e permiti-la alcançar os seus objetivos

Qualidade de serviços

Uso eficiente dos recursos e avaliação adequada do que deve ser priorizado, em função dos recursos disponíveis, das necessidades do público e das alternativas existentes

Capacidade de articulação

Formação de redes, fóruns, associações, federações e grupos de trabalho, de forma real ou virtual, permitindo articulação e intercâmbio de informação

Cada um dos aspectos acima engloba uma série de ações e deve ser estudado em profundidade, constituindo uma agenda para a formação de um campo de conhecimento específico de administração de organizações sem fins lucrativos. Em artigos posteriores, aqui mesmo no site da RENAS, discutiremos um pouco mais a fundo cada um deles.

Por ora, cabe destacar apenas que a proposta da Rede Evangélica Nacional de Ação Social (RENAS) está profundamente ligada ao quarto desafio, ou seja, oferecer um espaço de articulação, visando a informação, edificação e capacitação das entidades sociais evangélicas.

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