Trabalho em rede

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Quando, no ano de 2001, me deparei com o conceito do trabalho em rede, fiquei imediatamente fascinado. Havia encontrado uma forma de organização que não pretendia um controle das pessoas para garantir a qualidade do produto ou serviço, como estava acostumado a implantar no mundo empresarial do qual faço parte. As pessoas participaram porque lhes interessava de alguma forma.

Havia encontrado uma forma de organização em que o controle se dá unicamente pela participação em uma missão comum. Sem precisar de associação formal. Apenas um alinhamento ou desalinhamento automático em relação aos objetivos, contando com pessoas maduras, que sabem o que querem e que voluntariamente se agrupam para ganhar velocidade no cumprimento de seus propósitos, sem uma hierarquia, mas contando com a liderança natural e a iniciativa das pessoas.
 
O Contato aconteceu por ocasião da criação da RENAS – Rede Evangélica Nacional de Assistência Social, ocorrido em março de 2001 em São Paulo – Brasil, em um encontro convocado por algumas das maiores entidades de assistência social do Brasil, como a Visão Mundial, Compassion, Vale da Benção, Exercito da Salvação, etc. Neste encontro ouvimos os conceitos e relatos de duas redes já existentes na cidade de São Paulo: a Rits (www.rits.org.br ), e outra organizada pelo Senac, entidade ligada ao Governo Federal do Brasil. Imediatamente me engajei participando ativamente das discussões e ajudando na redação de vários propósitos para a Rede em formação.
 
Fiquei entusiasmado com a discussão e as possibilidades que visualizei, e ao voltar para Curitiba, convoquei imediatamente a equipe de relações públicas da entidade social que presidia na época.  (ACRIDAS – Assoc. Cristã de Assistência Social – www.acridas.org.br, que cuida de cerca de 300 crianças abandonadas colocando-as em casas de famílias).
 
Com apoio da equipe, convoquei todas as pessoas que conhecíamos como evangélicos e que atuavam no trabalho social para uma reunião. Neste meio tempo também descobri que meu irmão, o pastor Werner Fuchs, junto com o Pastor Carlos Lima, então presidente do Instituto de Assistência Social do Paraná –IASP, já haviam articulado uma série de Igrejas e Associações para criar uma base de relacionamentos para distribuir os recursos doados ao programa Fome Zero, do Governo Federal brasileiro. Chamei-os para a primeira reunião, da qual participaram 24 pessoas. 

Depois de mais algumas reuniões, resolvemos somar forças e organizar um trabalho em Rede no Estado do Paraná, ao qual demos o nome de REPAS – Rede Evangélica Paranaense de Assistência Social (repas.cadastro.com.br ), articulada entre as principais entidades assistenciais existentes no nosso Estado do Paraná e as Igrejas e denominações evangélicas que quiseram participar.

 

Escrevemos um documento definindo nossa missão e visão e os principais objetivos. Nomeamos meu irmão Werner como primeiro coordenador  e facilitador da REPAS, custeando as despesas iniciais através de ofertas voluntárias na ordem de R$ 1.200,00 por mês. 

Desde então nos reunimos a cada dois meses para um café da manhã oferecido por alguma entidade participante, e desta fascinante iniciativa se iniciaram 10 projetos e ações em conjunto em áreas como a saúde, a educação, o desenvolvimento comunitário, o atendimento a drogados e a geração de renda no meio urbano e no meio rural, através de cozinhas comunitárias e com unidade de produção de óleo vegetal.

A sinergia é tão grande que a cada reunião surgem novas iniciativas que são viabilizadas porque existe uma articulação comum. Um tem a proposta, outro faz o projeto, outro sabe onde existem recursos, outro ainda articula as pessoas chaves que podem viabilizar o projeto.

No momento várias entidades ligadas à capacitação estão se aproximando para articular esforços e oferecer serviços que possam qualificar melhor o trabalho de todos.
 
Quando escrevo este artigo já nos encontramos no segundo semestre de 2005, e temos mais de 2 anos de trabalho em conjunto, experimentando como o Espírito Santo abençoa o seu povo quando este olha para o que tem em comum e se encontra debaixo da cruz, e,  desconsiderando suas diferenças, encontra unidade de propósitos.
 
 
Como meu fascínio pelo potencial do trabalho em rede foi imediato, tornei-me incentivador deste tipo de trabalho e escrevo para incentivar mais e mais pessoas a experimentar este tipo de organização.

Consigo ver o trabalho em rede como uma resposta estratégica às demandas do nosso tempo em que cada vez mais desistimos de organizações centralizadas e hierarquizadas e nos voltamos à interatividade, à horizontalidade e ao trabalho em rede, seja na Internet, nos negócios, na televisão, na telefonia, no marketing e em várias outras áreas da vida humana. Num trabalho bem feito a velocidade nas respostas aos problemas é impressionante.

Ao mesmo tempo esta nova opção de organização usa os melhores conceitos de organização e por isso é superior aos trabalhos desorganizados, trazendo resultados melhores.
 
Certamente este é um novo paradigma de organização no novo milênio. Na minha opinião é o modelo organizacional que vai prevalecer no século XXI, pois é o mais apropriado para desmontar o espírito de concorrência que trouxemos do mundo empresarial mas que fica sem sentido quando estamos trabalhando numa mesma causa que procura ajudar os outros. Além disso, podemos trabalhar juntos, num mesmo objetivo, e ao mesmo tempo manter a nossa individualidade e nossa liberdade.

Descobri que como eu, muitos outros estão ansiando por este tipo de organização, em que o compromisso é com o propósito pessoal e coletivo. O compromisso é com a causa de Jesus, na sua opção por libertar os cativos, curar os feridos e pregar o evangelho aos pobres.
 
Do primeiro encontro em 2001 até esta data estou vendo nascer mais duas redes.
Ao participar de uma consulta do ministério de Igrejas em Células (www.celulas.com.br ), ocorrida em junho/05 em Foz do Iguaçu, percebi de forma clara que estavam ali presentes as premissas do trabalho em rede. Como explicar que a convocação de uma pessoa no Brasil, pudesse trazer mais de 140 pessoas dos vários estados brasileiros e de inúmeros países do mundo todo para tratar do mesmo tema? Pessoas que não se conheciam, mas que tem um tema comum, um tipo de trabalho comum, e que, por isso, enfrentam as mesmas lutas e dificuldades. Pessoas de organizações que em outros ambientes se considerariam concorrentes, sentando juntos, orando e procurando compartilhar informações, respostas e recursos. 

Certamente este é o mover do Espírito Santo de Deus em nosso tempo e precisamos ficar atentos para este momento. São assuntos estratégicos capazes de trazer mudanças positivas para muitos. Numa conversa com o pastor Roberto Lay, coordenador do ministério da Igreja em células, percebemos claramente que para formalizar o trabalho como rede, falta só escrever o que já está acontecendo.

A outra rede nasceu em um encontro em Curitiba,  em julho/05, convocada por Mauricio Cunha (www.cadi.org.br), autor do livro “O Reino Entre Nós, (2003, Editora Ultimato), com o propósito de encontrar pensadores cristãos e discutir os conceitos de uma cosmovisão cristã para o nosso tempo. Num encontro de quase uma semana no Residencial Laggus (www.laggus.com.br ) foi formada uma base para uma rede de troca de idéias, chamada de Rede de Cosmovisão e Transformação Integral. (Conta com a participação do Centro Kuyper e do L’abri, sediados na cidade de Belo Horizonte, no Brasil).  Na minha opinião deve trazer uma contribuição importante para a transformação do país. Parte da tese de que idéias tem conseqüências e que, ao descobrir as mentiras ou meias verdades nas quais acreditamos por alguma razão, podemos nos libertar das mesmas e transformar o comportamento de gerações inteiras.
 
A partir deste ponto quero abordar alguns conceitos e conclusões a que chegamos em conjunto.
 
 
CONCEITOS
Antes de discorrer sobre o que aprendemos trabalhando em rede, preciso discorrer sobre alguns conceitos.
 
1. REDE: Forma ou Conteúdo?
Cabe aqui uma outra e antiga discussão, que é a discussão entre forma e conteúdo, entre estrutura e visão/missão. Devemos compreender que organização em rede é estrutura e não conteúdo. É uma estrutura adequada para a pesca e para outros serviços. Não é adequada para todas as circunstâncias ou contextos. Sendo assim existem vários tipos de redes, como existem vários tipos de embalagens e vários tipos de vasos. Portanto, poderemos colocar o mesmo conteúdo em vários tipos de formas.  A rede terá eficiência superior em alguns contexto e em outros não.
O melhor modelo de estrutura depende do contexto. Precisamos de diferentes tipos de estrutura para diferentes objetivos ou produtos. Por exemplo, nos negócios, uma estrutura de venda de legumes não será adequada para vender carros.
 
2. O lugar da estrutura no Reino de Deus.
        
No texto Efésios 4:15-16 lemos “Mas seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é o cabeça, Cristo, de quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado, pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para edificação de si mesmo em amor”.
 
Se olharmos com cuidado, veremos que existe o principio de rede neste texto quando fala das juntas. As juntas têm um papel auxiliar. Possibilitam a organização e a funcionalidade dos membros. Sem elas, onde os membros se juntariam? A junta não é uma parte, não aparece muito,  mas se não funcionarem adequadamente impedem o corpo de cumprir suas tarefas. Ele fica disforme. As juntas são como os nós de uma rede de pesca.   Com cada nova junta que surge a rede cresce.
 
 
3. REDES e o final dos tempos
Na medida em que minha mente se ligou no assunto das redes comecei a perceber como o assunto está presente para vários escritores. Rick Joyner, escreveu já em 1993, quando ninguém falava do assunto o seguinte:
 
“Para a colheita que se aproxima o Senhor está preparando uma grande rede de pesca espiritual que terá condições de suportar tudo o que será pego.” Rick Joyner. Livro: A Colheita, 2005, Danprewan Editora, p45
 
“Há até agora duas formas de trabalharmos como Igreja: a hierarquia organizada e o grupo isolado ou independente. Há um caminho melhor. Conectar-se em uma espécie de rede”.Jens Kaldeway, A Forte Mão de Deus, Curitiba, 2005, ed. Esperança, p100
 
“As igrejas devem ser parte de uma rede orgânica. Devem ser estruturadas com uma rede funcional de edificação”. Howard Snyder, Vinho Novo em Odres Novos,
 
Percebam que os autores citados acima tem apenas uma vaga idéia do que significa trabalhar em rede. Sabem que rede é baseada em relacionamentos e comunicação, mas como organizar isto? Sabemos organizar uma estrutura hierárquica, mas sabemos construir uma rede com fios e nós?
 
 
 
4. Conceitos de REDE no Terceiro Setor
 
Para entender o conceito de organização em rede fomos buscar alguns conceitos encontrados nos estudos sobre os trabalhos em rede no terceiro setor. Ali encontramos algumas bases para este novo conceito no trabalho voluntário. A seguir algumas delas:
 
4.1 – O que é uma rede? Sistema de nós e elos, capaz de organizar pessoas e instituições, em torno de um objetivo comum.
4.2 – Que tipos de rede existem?. Temáticas (social em suas várias ênfases, igrejas em células, de estudos), territoriais, regionais e locais.
4.3 – O que caracteriza uma organização como rede?
a) Em primeiro lugar a base da rede são os relacionamentos horizontais, sem hierarquia.
b) Em segundo vem a comunicação e a informação.
c) Percebemos que essenciais são objetivos e valores comuns, e estes podem ser alcançados mais rapidamente através do trabalho conjunto.
d) Participação. Sem participação a rede deixa de existir.
e) Sua liderança é aceita pelos participantes. Há vários líderes, ou multiliderança.
d) Não há intenção de controle. As relações são horizontais e se procura a liberdade de adesão e participação.
e) Os participantes mantêm sua autonomia e preservam sua identidade. Não há interferência no que o outro está fazendo.
f) Ninguém é obrigado a participar. O trabalho em rede se baseia na vontade das partes em trabalharem juntos.
g) Não existem muitas formalidades.
h) As partes se conectam, se encontram.
i) Há descentralização do poder e da ação.
j) Pode haver vários níveis, sub redes, etc.
k) Uma rede é caracterizada pelo dinamismo e pela rapidez em que consegue responder aos desafios e problemas.
l) Em geral não precisa ter personalidade jurídica, mas precisa de um centro que distribui as informações.
m) Alguém precisa assumir o papel de coordenador ou facilitador.
 
 
5. O que aprendemos sobre o trabalho em REDE e quais são os desafios que estão à nossa frente?
 
5.1 Como planejar e iniciar uma rede?
Os idealizadores precisam definir quais são os propósitos do trabalho em conjunto; escrever sua Visão, Missão e objetivos comuns; quem pode ou deve ser participante; quais os  Princípios e Valores pelos quais querem trabalhar; e como irá funcionar a rede (liderança, reuniões, etc).  Um item importante é como financiar a comunicação.
Como exemplo desse planejamento citamos os materiais elaborados para a REPAS (em anexo).
 
5.2 – Liderança.
Descobrimos que a liderança da rede precisa de encontros de planejamento dos encontros maiores. Ela precisa ouvir as propostas dos participantes e facilitar a articulação.
A liderança na rede se dá no seu estado mais puro, exercendo influência, tendo iniciativa, perseverança, história, visão, etc. e não necessita de cargos ou títulos, mas de propostas, idéias e atitudes positivas.
Pessoas com grandes egos e vaidades atrapalham ou impedem o trabalho em rede. Por isso deve ser procurado o padrão bíblico de liderança, do líder que serve, que exerce seus dons de governo com humildade e tem qualificações de presbítero.
Geralmente os iniciadores da rede irão exercer uma liderança natural através de suas idéias e propostas.
 
5.3 – Participação.
Sem participação não existe rede. Deve ser fácil participar e deixar de participar. Não se consegue obrigar ninguém a participar.
 
 
5.4 – Financiamento.
O funcionamento das redes precisa de algum recurso, pois as comunicações tem seu custo. Achar os financiadores pode viabilizar o trabalho. A sua falta pode inviabilizar.
 
5.5 – Conseqüências e Resultados.
Ocorre uma quebra de barreiras quando percebemos o outro como aliado das causas que perseguimos e deixamos de vê-lo como concorrente por recursos ou poder. A partir daí ocorre um compartilhar informações, idéias e recursos, e uma articulação ao redor de propostas de ação.
 
6. Resumo dos Benefícios e vantagens.
– Os participantes chegam mais rapidamente aos seus objetivos.
– Muitos rompem o isolamento
– Conseguem ver o outro como aliado da causa e não concorrente
– Ultrapassam barreiras denominacionais (objetivo comum é mais forte)
– A unidade é abençoada pelo Espírito Santo
– Ocorre troca de informações e recursos
– Qualifica melhor o trabalho de todos
– Tem um impacto social articulado e maior
– A interlocução com as autoridades torna-se mais representativa.
– Podem comemorar as diferenças
– Um pode completar o trabalho do outro.
– O sucesso de um é o sucesso de todos.
– Ocorre uma sinergia em que todos ganham.
 
7. Ao final um alerta
Aprendemos na pratica que o trabalho em rede pode apresentar algumas dificuldades e perigos.
Experimentamos que a rede pode se romper, e ela se rompe quando os relacionamentos se rompem. Temperamentos difíceis e controladores causam desistências e perda de energia.
Também uma liderança desunida, ou ainda desqualificada ou então excessivamente controladora inviabiliza o trabalho.
A outra forma de romper a rede, prevista em Lucas 5, é quando a pesca é muito grande.
Uma questão final. Quem conserta a rede quando ela rompe? Pessoas que valorizam a harmonia e os relacionamentos. Pessoas com dons de pastoreio e de exortação à unidade.
 
 
 
COMPARAÇÃO:
 
ORGANIZAÇÃO                REDE                            ORGANISMO/CORPO
Organizada                    Organizada                     Organizado
Centralizada                   Descentralizada              Cada parte tem sua função
Controla – chefe              Libera – visão                Interdependência
Limitada                         Ilimitada                         Crescimento
Alguém no comando        Facilitador                      Cabeça manda
Autoridade                     Relacionamentos            Relacionamentos
Pensa em si mesmo        Pensa na rede                 Pensamento estratégico
Reação Lenta                 Reação rápida                Reação rápida
Denominação                 Rede                                Movimento
 
 

(Artigo escrito por Gerhard Fuchs, em setembro de 05. Empresário, formado em Administração de Empresas e Teologia, com MBA em Responsabilidade Social Corporativa, trabalhou por 20 anos como empresário no mercado financeiro e de turismo, além de atuar há 20 anos no 3o. Setor como fundador, voluntário e diretor presidente da ACRIDAS – Associação Cristã de Assistência Social. Foi conselheiro do Conselho da Infância e Adolescência do Paraná – CEDCA, e há 30 anos trabalha na gestão de conselhos de Igrejas e outras organizações voluntárias. Participou da criação da RENAS – Rede Evangélica Nacional de Ação Social e ajudou a articular a criação da REPAS – Rede Evangélica Paranaense de Assistência Social, atuando também como coordenador da mesma durante o ano de 2005.  É casado com Marcia e pai de quatro filhos.)

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