“Regressar a Comênio é progredir”

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O escritor pedagogo João Amós Comênio (komansky, em checo, e Comenius, em latim) nasceu na região da Morávia (Tchecoslováquia) em 1592 e morreu em Amsterdã em 1670. Foi pastor de uma comunidade protestante ligada historicamente ao conhecido percursor da Reforma chamado João Huss, queimado vivo em 1415. Não obstante ter vivido no século XVII, Comênio defendeu idéias avançadíssimas para a sua época, como a total democratização do ensino e a organização de uma sociedade das nações para promover a paz e a tolerância. É tido como o “primeiro evangelista da pedagogia moderna” e o precursor da educação audiovisual. Por esta razão diz-se que “regressar a Comênio é progredir”. Era a favor de se abrir o maior número possível de escolas e de se enviar para elas “não apenas os filhos dos ricos ou dos cidadãos principais, mas todos por igual, nobres e plebeus, ricos e pobres, rapazes e moças, em todas as cidades, vilas, aldeias e casas isoladas”, inclusive os que nascem “surdos e estúpidos”. Comênio, todavia, afirmava que é “infeliz a instrução que se não converte em moralidade e piedade”. Pregava a associação obrigatória entre a ciência e a moral, porque “quem progride na ciência e regride na moral, anda mais para trás que para frente”. O temor de Deus, “da mesma maneira que é o princípio e o fim da sabedoria, é também o cume e a coroa da ciência, porque a plenitude da sabedoria consiste em temer o Senhor” (Pv 1.7).
Comênio escreveu vários livros, entre eles a Didática Magna, publicado em 1656. O texto ao lado de Comênio sobre a eternidade foi retirado dos três primeiros capítulos da Didática Magna. Servimo-nos da terceira edição da tradução do Prof. Joaquim Ferreira Gomes, da Faculdade de Letras de Coimbra (Portugal), publicado no Porto em 1985.
 
O fim último do homem está fora desta vida
 
1. O homem é a mais alta, mais absoluta e mais excelente das criaturas.
 
2. A constituição do nosso ser mostra que não nos bastam as coisas que possuímos nesta vida. Nela nunca se consegue encontrar o fim, nem dos nossos desejos nem das nossas tentativas. Para qualquer parte que alguém se volte, conhecerá esta verdade por experiência. 
 
3. Se alguém ama o poder e as riquezas, não encontrará onde saciar a sua fome, ainda que chegue a possuir todo o mundo, o que é evidente pelo exemplo de Alexandre. Se alguém arde com sede de honras, não poderá ter paz ainda que seja adorado por todo o mundo. Se alguém se entrega aos prazeres, embora todos os seus sentidos nadem num mar de delícias, todas as coisas lhe parecem gastas e o seu apetite corre de um objeto para outro. Se alguém aplica a mente ao estudo da sabedoria, nunca encontrará o fim, pois quanto mais coisas uma pessoa sabe, tanto melhor compreende que lhe restam mais para saber.
 
4. Para cada um de nós estão estabelecidas três espécies de vida e três espécies de morada: o útero materno, a terra e o céu. Da primeira, entra-se para a segunda, mediante o nascimento; da segunda, para a terceira, mediante a morte e a ressurreição, da terceira nunca mais se sai, eternamente. Na primeira, recebemos apenas a vida, juntamente com um movimento e os sentidos com os primórdios da inteligência; na terceira, a plenitude perfeita de todas as coisas. 
 
5. A primeira vida é uma preparação para a segunda; a segunda para a terceira; a terceira, de sua própria natureza, nunca termina. A passagem da primeira para a segunda e da segunda para a terceira é estreita e acompanhada de dores, e num e noutro caso se devem depor os despojos ou invólucros (ou seja, no primeiro caso, a placenta, e, no segundo, o próprio organismo do corpo), como faz o pintainho, quando quebra a casca, sai para fora. A primeira e segunda morada, portanto, são como duas oficinas: naquela forma-se o corpo para uso da vida seguinte; nesta forma-se a alma racional para uso da vida eterna; a terceira morada produz a verdadeira perfeição e prazer de ambos.
 
6. A nós, cristãos, esta verdade parece mais clara depois de Cristo, Filho de Deus vivo, enviado do céu a reproduzir a imagem de Deus desaparecida de nós, mostro a mesma coisa com o seu exemplo. Efetivamente, concebido e dado à luz mediante o nascimento, andou entre os homens; depois de morto, ressuscitou e subiu aos céus, e a morte já não o tem sob o seu domínio. Ora, Ele é chamado, e é de fato, o nosso precursor (Hb 6.20), o primogênito dos irmãos (Rm 8.29), a cabeça dos seus membros (Ef 1.22,23), o arquétipo de todos aqueles que devem que devem ser reformados à imagem de Deus (Rm 8.29). portanto assim como Ele não veio para continuar a viver neste mundo, mas para passar, terminado o curso da vida, às habitações eternas, assim também nós, uma vez que nos cabe a mesma sorte que a Ele, não devemos permanecer aqui, mas emigrar para outro lugar.

  

7. Que esta vida, uma vez que tende para outra, não é vida (falando com rigor), mas  um proêmio da vida verdadeira e que durará para sempre, tornar-se-á evidente, primeiro pelo testemunho do mundo; finalmente, pelo testemunho da Sagrada Escritura.
 
8. Feliz aquele que sai do útero materno com os membros bem formados! Mil vezes mais feliz aquele que sair desta vida com a alma bem limpa!

(Artigo cedido pela Revista Ultimato)

 

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