O inglês que acabou com o tráfico negreiro

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Guilherme Kerr Neto
 

William Wilberforce pertencia à família nobre da Inglaterra na virada do século XVIII. Isso não deveria soar apenas como privilégio, uma vez que naquela época, como hoje, era a aristocracia um berço de paradoxo: nela se encontravam alguns dos grandes benfeitores da nação e alguns de seus maiores corruptores também; nela a virtude e o vício caminhavam par e passo.

Wilberforce era filho e fruto destas ambigüidades. Educado nas melhores escolas curesou Cambridge, a famosa universidade inglesa, onde decidiu dedicar-se à carreira política, que iniciou cedo, eleito representante de seu povoado aos 21 anos de idade. Além de repartir dinheiro que possuía, mandou fazer um grande churrasco para todo o vilarejo, o que lhe valeu o afeto "entranhável" de um bom número de votantes. Aos 24 já era político aclamado e popular, e por conta de inflamado discurso, elegeu-se representante de Yorkshire, o maior e mais importante condado da Inglaterra. Chegou a Londres nas asas da popularidade e foi recebido como jovem herói.

Mas sua formação cristã reclamava dele posturas mais comprometidase e menos populistas. Em 1784, ainda aos 24 anos de idade, partiu para uma viagem à Europa que traria grande transformação em seu caráter. Levou consigo a mãe, a irmã Sally, uma amiga dela e Isaac Milner, irmão de seu antigo professor primário. Durante esta viagem, Wilberforce, por coincidência ou providência, começou a ler livros evangélicos bem como a Bíblia Sagrada. Tais leituras, acompanhadas de conversas animadas com Milner, que era evangélico de sérias convicções, levaram o jovem político à uma tomada de posição. Ele declara em seu diário no final de outubro daquele ano: "Assim que me compenetrei com seriedade, a profunda culpa e tenebrosa ingratidão de minha vida pregressa vieram sobre mim com toda sua força, condenei-me por ter perdido tempo precioso, oportunidades e talentos… Não foi tanto o temor da punição que me afetou, mas um senso de minha grande pecaminosidade por ter negligenciado por tanto tempo as misericórdias indescritíveis de meu Deus e Senhor. Eu me encho de tristeza. Duvido que algum ser humano tenha sofrido tanto quanto eu sofri naqueles meses".

Já de volta a Londres, a vida de Wilberforce tomou novos rumos sendo fortemente influenciada por John Wesley, pastor anglicano, John Newton, ex-capitão de navio negreiro; e Anthony Benezet, francês e huguenote, residente em Londres, onde participava do movimento Quaker, de sólidas convicções anti-escravagistas. Todos estes tinham, além da fé vibrante e jocosamente chamada pelos inglese de "entusiasmada", uma forte convicção de que não havia pecado pesando sobre as constas do Império Britânico (e olha que eles eram pródigos em pecar!) do que o terrível e abominável tráfico de escravos, que Wesley batizaria de "execrável vileza". Foi por conta dessas benfazejas influências que Wilberforce decidiu dedicar todo o vigor de sua juventude todo o talento que tinha politicamente a um único objetivo, o objetivo que haveria de consumir toda a sua vida – a abolição do tráfico negreiro. E como este objetivo esbarrava na imoralidade e insensibilidade que se instalara no coração da sociedade inglesa, um segundo objetivo se lhe foi imposto: a reforma da maneira de viver na Inglaterra.

Há muito mais nesta história, fica para uma outra vez. Só para encurtar, Wilberforce foi o maior dos parlamentares de sua época, eleito consecutivas vezes para o Parlamento inglês. A abolição do tráfico negreiro custou-lhe 18 anos de lutas contra os interesses mais sagrados da Grã-Bretanha – o trabalho escravo era fonte de renda e, para alguns, sustentáculo econômico da nação. Custou-lhe não poucas vezes ser chamado de traidor da Pátria. Custou-lhe sangue, suor e muitas lágrimas. Quando finalmento passou a lei antitráfico de gente (como nós precisamos de uma por aqui!) todo o Congresso se pôs de pé e ovacionou Wilberforce por vários minutos, enquanto ele, já desgastado pelos anos, com o rosto entre as mãos chorava as lágrimas do justo.

Por conta da decisão parlamentar, poderosa como era e não querendo ser lesada em seus interesses, a Grã-Bretanha declarou ao mundo que nem ela e nem ninguém mais poderia traficar escravos. E mais, tornou-se a guardiã (não sem segundas intenções) dos mares. Logo, Portugal e Bélgica, os dois abutres seus rivais, tiveram que também parar, por força do poderio naval inglês.

Assim o moço aristocrata e descomprometido tornou-se o grande campeão da causa anti-escravagista no mundo político de sua época. E você pensava que político evangélico não podia ser piedoso, não é? Temos bons exemplos!

 

(Artigo cedido pela Revista Ultimato)

Guilherme Kerr Neto é músico, pastor da Comunidade Cristã Koinonia, em Campinas, SP. É autor, dentre outros, de Consciência Limpa – o lugar da confissão e do perdão na vida cristã, de Vencedores por Cristo.

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