Filho de gueixa

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Embora haja pessoas extremamente ricas no Japão, os pobres constituem uma pequena minoria. Quase toda a população pertence à classe média. De acordo com as últimas estatísticas, 92% das famílias estão asseguradas quanto ao futuro; tratamento médico, internações em hospitais, acidentes de trânsito, velhice e morte. A expectativa de vida é a mais alta do mundo: 75,5 para homens e 81,3 para mulheres. Os idosos são tratados com a maior consideração possível. O Governo proporciona uma ajuda mensal de cinco mil ienes para cada criança nascida a partir do terceiro filho, até a idade de 18 anos, desde que a renda familiar esteja abaixo do necessário. Não há analfabetos e a matrícula na escola é de 100%. Mais de 90% termina o segundo grau (12 anos de estudo). E, para concluir esta lista de conquistas sociais, é preciso lembrar que o Japão tem um dos mais baixos índices de criminalidade do Mundo. Enquanto em 1978 houve 989 casas de latrocínio por 100 mil habitantes em Nova Iorque e 479 em Paris, em Tóquio o índice foi de apenas quatro.

Atrás destas impecáveis reformas sociais há, entre outros, um nome que deve ser lembrado: Toyohiko Kagawa.

Nascido em Kobe, o principal centro de exportação e importação do Japão, em 1888, Kagawa era filho ilegítimo de um dos homens mais poderosos do império, um dos artífices da Era Meiji, que transformou o país de um estado feudal em uma potência industrial e militar. Sua mãe era uma gueixa. Órfão de pai e mãe aos quatro anos, Kagawa foi entregue aos cuidados da esposa abandonada de seu pai em Awa, onde passou toda a sua infância, triste, solitário, desprovido de carinho e maltratado. Depois foi estudar em Tokushima, não muito longe de Kobe, onde aos 15 anos, veio a se converter ao cristianismo por influência de um professor japonês e dois missionários. Não demorou muito a se matricular no Seminário Presbiteriano de Kobe.

No Natal de 1909, Kagawa colocou os seus pertences num carrinho de mão, atravessou a ponte que separa Kobe da cidade vizinha de Shinkawa, onde havia uma grande e miserável favela, e foi morar num casebre, cujas paredes estavam ainda sujas de sangue, como resultado de um crime ali perpetuado algum tempo antes. O rapaz contava apenas 21 anos quando resolveu morar entre os pobres para pregar-lhes o evangelho de forma objetiva. Viveu ali por 14 anos e oito meses. Tornou-se igual aos pobres e lutou desesperadamente por eles. Condenou a inércia e a indiferença para com os pobres, bombardeou a imprensa com artigos que descreviam o sofrimento deles, relacionou a miséria moral das favelas com o pecado social da nação, propôs amplas reformas para impedir o fluxo de pobres para as cidades, fez campanhas para impedir o fluxo de pobres para as cidades, fez campanhas evangelísticas por todo o país, pregou para líderes políticos e para o próprio imperador, deu força aos sindicatos de trabalhadores, e ajudou a formar alei que abolia as favelas do Japão.

Aos 35 anos, tornou-se um dos homens-chave na reconstrução de Tóquio e Yokohama, por ocasião do terremoto de 1923, que, juntamente com os incêndios e a ressaca marinha, matou 143 mil habitantes. Foi também um líder na reconstrução do Japão após a derrota imposta pelas forças aliadas em 1945, a esta altura já com 57 anos.

Tido como reformador social, evangelista e escritor, Kagawa contribuiu para a salvação de 100 mil pobres, a emancipação de 9.430.000 trabalhadores e a libertação de 20 milhões de agricultores sem terra. Antes de completar 50 anos, o talvez mais famoso filho ilegítimo da aristocracia japonesa já havia escrito 50 livros, um deles — Before the Dawn —, escrito em 1925, atingiu 250 mil exemplares.

Toyohiko Kagawa, que também passou pelo famoso Seminário de Princeton, nos EUA, esteve preso várias vezes. Mas acabou sendo ouvido e respeitado pelo governo, que pôs um fim nas favelas do Japão. Morreu em 1960, aos 72 anos.

(Artigo cedido pela Revista Ultimato)

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