Agentes de reconstrução e a piedade humana

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 Paul Freston
 
Um leitor do Ultimato sugere que eu leia “menos Marx… e mais a Palavra de Deus” (carta do Rev. Ery Rosa dos Reis), supondo ser aquele a inspiração por trás dos meus artigos! A coisa não é bem assim. Não me inspiro em Marx, mas principalmente (depois da Bíblia) em figuras evangélicas do passado e do presente. O irônico (ou trágico) é que as opiniões desses evangélicos possam ser consideradas anti-bíblicas por muitos leitores evangélicos do Ultimato. Vamos passear um pouco, então, pela história da igreja evangélica.
 
Os primeiros reformados
 
Os reformados dos séculos XVI e XVII não tinham muito em comum com a idéia de evangélico que predomina no Brasil. Não quero dizer que não crêssem na Bíblia, na conversão individual, na oração e na piedade pessoal. É que, justamente por crerem nessas coisas, tinham também outras características:
            “… eram os primeiros daqueles auto-disciplinados agentes de rescontrução social e política que têm aparecido com tanta frequência na história moderna.”
            “Os santos (ou seja, os cristãos reformados sérios) se sentiam responsáveis pelo seu mundo (ao contrário do homem medieval) e, acima de tudo, pela sua reforma contínua.” 1
                
Rompendo com a visão medieval, os reformados se viam como responsáveis pelas estruturas do mundo social, as quais resultam de decisões humanas e podem ser alteradas. As estruturas, não só as pessoas, são corruptas e precisam de reforma. E os cristãos têm a responsabilidade de reformá-las!
            “Foram os calvinistas que primeiro mudaram a enfâse, no pensamento político, do príncipe para o santo (isto é, o cristão) (ou para a comunidade dos santos), e em seguida construíram uma justificativa téorica para a ação política independente.” 2
            
A base da sua crítica da ordem social existente era a Palavra de Deus, e a motivação maior, o desejo de fazer com que a vontade de Deus fosse vivida em cada aspecto da existência. Nenhum deus tribal, esse (como tantos “deuses” evangélicos), mas o Criador do universo, cuja revelação histórica tem a mesma abrangência da criação.
            “O reformismo disciplinado e inquieto, ou então, a culpa por não ser reformista inquieto: esses são os componentes característicos da piedade social calvinista.” 3
            
Diz o autor a respeito dos puritanos, os reformados ingleses do século XVIII (tentemos deixar de lado, por um momento, as conotações negativas que a palavra “puritano” adquiriu, não para canonizá-los mas para podermos fazer um julgamento histórico mais informado):
            “A piedade puritana não é o pietismo, nem o monarquismo, nem o misticismo; … mas é, no melhor sentido da palavra, ‘mundana’.” 4
                
Essa “piedade mundana” foi a ponto de elaborar uma justificativa da revolução política (Jonh Knox e outros). O conhecido historiador marxista, Christopher Hill, reconhece que “o puritanismo foi, talvez, o mais importante complexo de idéias preparando a mente dos homens para a revolução.” 5
           
Os reformados modernos
 
Herdeiro dessa “piedade mundana”, o holandês Abraham Kuyper, já em outras circunstâncias históricas, retomou essa tradição, galvanizando-a, dando-lhe feições modernas. Criou um movimento teológico, político e cultural cujos efeitos até hoje se fazem sentir, entre evangélicos de vários países.
            
Kuyper, filho de pastor, havia abraçado o liberalismo teológico na universidade, rejeitando as doutrinas históricas da fé. No seu primeiro pastorado, porém, converteu-se à fé bíblica. Mais tarde, autor de muitos livros teológicos defendendo a ortodoxia bíblica, Kuyper liderou um movimento de reforma da igreja. Por isso ele defendeu o apoliticismo ou uma posição conservadora na política? De forma alguma. Entrou na política, reorganizou um pequeno partido e fez dele o primeiro partido moderno da Holanda. Fundou um jornal diário, de “linha” cristã, ao mesmo tempo em que dirigia um semanário religioso. Elegeu-se para o Parlamento, fundou uma universidade reformada que existe até hoje (a Universidade Livre de Amsterdã), e foi primeiro-ministro da Holanda entre 1901 e  1905.
            
Como no caso dos puritanos, não se trata de “canonizar” essa figura controvertida, nem de fazer uma avaliação crítica de sua carreira (que exigiria muito mais espaço). O que quero é mostrar a existência de toda uma herança evangélica que se desconhece no Brasil, para que revisemos os nossos horizontes e discutamos as nossas questões, com mais conhecimento das opções possíveis. De que forma, pois, Abraham Kuyper via a relação entre sua fé evangélica e a sua opção política?
            
Quando Kuyper entrou na política, a maioria dos reformados holandeses havia perdido contato com a sua herança, tornando-se apolítica ou conservadora. Disse Kuyper: “O medo da política… não é cristão, e não é ético.” Apesar de perder as suas duas primeiras eleições que contestou, não desistiu. “Conosco, o que importa não é a influência que temos agora, mas a que teremos daqui a cinqüenta anos … Quantos da próxima geração serão seguidores dos nossos princípios?” Por isso, ele reorganizou o partido, fez jornalismo, fundou uma universidade… e chegou a primeiro-ministro em trinta anos (num governo de coalizão com o partido católico). Há dois pontos importantes aqui: ele tinha uma visão de longo prazo, pois sabia que não se tratava apenas de converter o governante do país, nem colocar “um dos nossos” lá, mas de criar todo um sistema político de apoio a mudanças; e, por isso mesmo, ele investiu na conscientização política dos cristãos e do público em geral.
            
Embora houvesse uma questão aglutinadora dos reformados (a questão escolar), Kuyper fez questão de que a participação política ultrapassasse os limites da mera defesa de “interesses evangélicos” e que se pautasse por uma verdadeira cosmovisão cristã. A palavra de Deus (mas não a igreja como instituição!) deve ter autoridade na política, tanto quanto na vida da igreja.
            
Não que Kuyper pensasse que poderia se levantar no Parlamento e falar sobre as questões do dia, baseado apenas na Bíblia (se bem que devemos entender que ele não usava a Bíblia como muitos de nós, como fonte de textos-prova, tirando frases do seu contexto, mas como fonte de uma visão panôramica da vida). Ele lia tudo que poderia ajudá-lo a compreender os problemas sociais: os autores católicos contemporâneos, os economistas ingleses, Marx e Engels… Em 1871, quando iniciava a sua carreira política, deixou clara a compreensão que tinha de sua tarefa: “Lutar contra um mal social isolado ou resgatar os indivíduos, embora excelente, é muito diferente de agarrar o problema sócio-econômico em si com o sagrado entusiasmo da fé.” (Grifo nosso.) Cosmovisão cristã + conhecimento dos fatos; conhecimento teológico + conhecimento sociológico. Sem esse preparo equilibrado (ou sem assessores que o tenham), o político evangélico pouco fará pelo reino de Deus.
            
Num discurso no Parlamento, estreando como deputado, Kuyper defendeu a elaboraçõo de um código de leis que protegessem o trabalhador (quando nenhum país do mundo tinha tal código). Em seguida, tirou do su bolso um Novo Testamento e leu Tiago 5. 1-6 (“Ai de vocês, ricos… que retiveram o salário dos trabalhadores…”). O parlamento ficou escandalizado. Em seguida, disse Kuyper: “Se eu próprio tivesse falado essas palavras, as quais lhe parecem radicais e revolucionárias, teriam se oposto. Mas foram escritas por um apóstolo do Senhor. Como pode, pois, alguém confessar Cristo e não defender o trabalhador quando reclama?”
           
Quando Kuyper iniciou o seu jornal diário, disse que o objetivo era “elucidar todos os fatos concernentes ao problema social…, abrir os olhos do povo para um governo que, de um lado provoca uma revolução que em seguida sufocará com sangue e, de outro lado, causa condições sociais tão anormais que boa parte da população mal consegue sobreviver.”
            
Na comunidade evangélica brasileira, tem sido difícil encarnar essa “piedade mundana” de tantos evangélicos do passado. Ou se é “piedoso” ou se é “mundano”; os que se rebelam contra um lado da dicotomia, apenas pulam para o outro lado. Poucos conseguem derrubar “o muro da ditocomia”. Abraham Kuyper, quando primeiro-ministro, manteve o seu costume de escrever, toda semana, uma meditação bíblica (sem propaganda política!), para publicação na sua revista religiosa.6
                
Mas há, e já houve, sinais da presença dessa “piedade mundana” no meio evangélico brasileiro. O “Memorial Evangélico” de 1932, preparando a comunidade para a eleição de uma assembléia constituinte, afirmou: “Os problemas vitais do Brasil são os problemas vitais do evangelismo (isto é, da comunidade evangélica).” Em seguida, opina:
            “Somos de parecer que… será, talvez, conveniente, no Brasil, a experiência do regime parlamentar, sendo, porém, esta, uma questão aberta.”7
            
O “Memorial”defende, entre outras coisas, “a justiça popular, rápida e gratuita”; “a completa laicidade do Estado e… do ensino oficial”; “absoluta liberdade de pesamento e da manifestação do pensamento”; um “regime cooperativista” com participação dos operários nos lucros; o “divórcio absoluto”; a “educação popular obrigatória” e intrução secundária, profissional e superior acessível “às classes menos favorecidas”; e a promoção do pacifismo, “no sentido de se reduzirem ao mínimo o aparelhamento e as despesas militares”.
            
Procuram-se ainda agentes de reconstrução, praticantes de uma piedade mundana.
 
 
1. Michael Walzer, The Revolution of the Saints, citado em Wolterstorff, N., Until Justice and Peace Embrace, Grand Rapids: Eerdmans, 1983,m p. 3.
2. Walzer, em Wolterstorff, op. cit., p. 10.
3. Wolterstorff, op. cit., p. 21.
4. Peter Lewis, em Martyn Lloyd-Jones et al, The Christian and State in Revolutionary Times, Londres: Westminster Conference, 1975, p. 72.
5. Citado em Lewis, op. cit., p. 62.
6. Os dados a respeito de Kuyper se encontram nos livros de Frank Vanden Berg, Abraham Kuyper, St. Catharine’s: Paideia, 1978, e L. Praamsma, Let Christ be King, Jordan Station: Paideia, 1985.
7. O texto integral do “Memorial” se encontra em Josué Sylvestre, Irmão Vota em Irmão, Brasília: Pergaminho, 1986, p. 93-96.

(Artigo cedido pela Revista Ultimato)

 

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